Um homem morto na calçada

Não socorri o homem que morria na calçada.

carloseduardogoncalves

30 Setembro 2014 | 18h20

Ele estava, tecnicamente dizendo, vivo: seu peito ofegava imperceptivelmente, pude bem ver. Eu, na cena, estava ridículo, totalmente despreparado para vê-lo ali, passeando com um livro na mão, esperando o fim da aula de natação do meu filho, cogitando tomar um café na padaria que fica na esquina oposta da esquina do morto-vivo. Eu e meu livro grosso tornamo-nos ridículos perante o morto-vivo deitado. Fedorento, barbudo, sujíssimo, com as canelas lanhadas, um casaco esfarrapado cobrindo o corpo. Irritei-me, aquilo não podia ser: que sentido havia em eu ler um livro antigo e totalmente desnecessário enquanto aquele homem morria sua existência, esparramado na calçada? Vi dois motoboys que se riam dele; tive-lhes raiva. Uma raiva fácil essa. Mas coragem para socorrer o homem, para leva-lo a um abrigo, chamar a polícia ao menos, essa eu não tive. Vejam: não tive medo, foi somente uma incapacidade de agir, uma desumana preguiça; absolutamente egoísta eu com meu livro. O pior: pouco depois, na padaria, eu voltava ao livro russo, despreocupado, bebericando um café. Como pude? Como pude, meu deus? Sei que pude, mas não sei como.