Um passarinho desequilibrado

carloseduardogoncalves

28 Julho 2015 | 15h16

Ele desceu da árvore um pouco rápido demais, parece. Mas nao ventava, e essa nao poderia ser portanto uma desculpa para o ocorrido.

Suas patas-pes pousaram na parte em declive do muro liso, e ele veio deslizando desequilibrado ladeira abaixo, surpreendido com o próprio erro (eu via seu desgosto no fundo dos seus olhos), balançando as asas como uma pessoa gira os braços em vão em situação similar. Chegando ao chão com muita velocidade, abriu as asas para frear, como um avião na pista de pouso, e quase caiu de lado, desequilibrado. Eu ali do lado ria daquela cena toda, daquele passarinho que parecia uma pessoa desajeitada e constrangida. Mas ai veio o inesperado: ele percebeu que eu me divertia com sua tragedia e virou-se para mim, encarando-me com um olhar raivoso e penetrante. Seu corpo tremia de ódio e ele parecia fora de si, febril, piando muito alto e desafinado. Ah, ele queria vingança certamente: bateu asas, ganhou certa altura e tentou me esmerdear la de cima. Precavido, logo abri o guarda-chuva que trazia comigo e que recebeu a carga de bosta branco-acinzentada com honradez e sem arrebentar. Temendo uma nova ofensiva, uma bicada (ele era relativamente grande), acelerei o passo e entrei rapidamente no predio .

Agora ja esta tarde e estou me preparando para ir embora. Espero que aquele desequilibrado nao esteja me esperando com uma surpresa.