Um velho no trem

carloseduardogoncalves

22 Julho 2015 | 18h41

Ele me olhava do fundo do vagão, um olhar tímido e triste – me lembrava alguém.

Vestia um terno muito similar ao meu, azul-escuro, apenas mais desbotado, sem gravata.

Deu alguns passos na minha direção, parando ainda a uns bons 5 metros de mim. Pensei que se preparava para descer na próxima estação. Mas então ele levantou a mao direita com esforço, vagarosamente, num aceno. Para mim? Como eu poderia ter certeza que ele me cumprimentava, aquele desconhecido de feições familiars? Num vagão abarrotado, ele poderia estar tentando se comunicar com alguém ao redor, ou atrás de mim.

Na duvida não respondi a seu aceno, e vi sua mao baixar tremendo, sem firmeza, ate a lateral do seu corpo. Senti entao grande ímpeto de falar-lhe, mas  logo as portas se abriram  na minha estação. Sai um tanto confuso e impressionado do trem. E quando olhei de relance para o vagão que recomeçava a partir, pude perceber que ele me fitava nitidamente, bem proximo da janela, com um olhar estranhamente saudoso, do qual lagrimas suaves escorriam ate enredarem-se na sua extensa barba branca.