Urucubaca existe, não existe, existe, …

Urucubaca existe, mas não existe.

carloseduardogoncalves

14 Maio 2015 | 15h19

Urucubaca não existe, é invenção de gente supersticiosa que justifica fracassos à posteriori ou quer aterrorizar à priori (sempre há chances de dar merda).

Não, não, acho que a frase não está boa, pois quem acredita em Uru, acredita mesmo. Na maioria das vezes é gente com boas intenções, querendo ajudar, jura de pé junto, sem fazer figas por trás das costas de modo a desmanchar o dito.

A explicação pode ser racional, a isso me ative muitos anos: se o nego tá com raiva ou inveja de você, ele vai tomar ações concretas para te obstar as coisas. Mas aí não é mais Uru, certo? Poderíamos chamar de “Uru Racional”, mas é uma contradição em termos. Esquece essa linha de argumentação…

Os da Uru creem que o nego invejoso de algum modo te lança uma energia negativa que gruda em você e aí pronto, você pegou Urucubaca. Se ela cai em você em forma de fortíssima virose, por exemplo, não adianta o tratamento normal: água, repouso e Tylenol. Se é hérnia, não adianta alongar as costas, deitar de lado à noite e tomar Biprofenid. Precisa é benzer. Só benzendo que a Uru se vai, qualquer que seja a manifestação, digamos corpórea, dela. E normalmente onde se vai a benzer é num lugar ermo, afastado, num sítio sujo onde vive apenas um japonês com poderes sobrenaturais e sua assistente. Portanto, em muitos casos, tem que viajar para tirar a Uru das “suas costas” — ah, sim, ela entra em você pelas costas, não me perguntem por que. Melhor assim, talvez, do que por outros canais.

Eu acredito em Urucubaca.

Primeira preocupação da minha mãe quando disse que ia sair do Brasil: “cuidado com o olho gordo, filho, que pega, muita gente queria estar no seu lugar”. E eu? Ah, claro que ri, desdenhoso. Não rezei para meu anjo da guarda, mas não me orgulho disso. Até porque, vejam vocês, me ferrei. Cai da escada, peguei uma puta virose, deu pau no computador quando estava completando a coisa dos Vistos, estão encrencando com o visto da Babá, que tem que ser G-5, meus filhos todos (são muitos) estão de nariz escorrendo, tossindo, vomitando e com dores estomacais. Até o canário lá de casa amanheceu morto.

Os meus amigos dizem que é virose, normal nessa época do ano, que todo mundo escorrega, e que burocracia é sempre uma merda. Eu adoro os racionais.

Mas o da Uru te contesta nessa hora: “por que você, uma pessoa inteligente, desceu de meia lisa uma escada lisa numa noite escura?” E completa: “te puseram olho gordo”.

De fato, a tese da Uru vem ganhando força em mim. Estou tomando remédios e aplicando sacos de água quente ao meu pobre cóccix, mas ele não sara. E a febre das crianças vai e volta. E o cara lá da Embaixada não responde o email. E eu não entendo as instruções em inglês que me passaram.

Foda.

Nesse momento exato mesmo dói-me o peito. Urucubaca ou tensão nervosa? Ou pior: tensão gerada pela Uru?

Eu acredito em Urucubaca, mas claro que ela não existe.