O maestro das artes

Ricardo Ohtake, presidente do Instituto Tomie Ohtake, fala sobre as principais obras de Oscar Niemeyer em São Paulo e seu legado para a nova geração de arquitetos. Ouça, ainda, áudio em que ele conta que obra faria para melhorar a cidade

Estadão

28 de agosto de 2010 | 23h00

Para Ohtake, o melhor de Oscar Niemeyer em São Paulo é a Marquise do Ibirapuera (Foto: Ayrton Vignola/AE)

Para Ohtake, o melhor de Oscar Niemeyer em São Paulo é a Marquise do Ibirapuera (Foto: Ayrton Vignola/AE)

Angélica Sales

Poucos têm o nome ligado à vida cultural e artística de São Paulo de forma tão inequívoca quanto o arquiteto Ricardo Ohtake, 67 anos. Ex-diretor do Museu da Imagem e do Som (MIS), do Centro Cultural São Paulo e da Cinemateca Brasileira, além de ter sido secretário de Estado da Cultura, o presidente do Instituto Tomie Ohtake fala com entusiasmo sobre os projetos em andamento, as futuras exposições – que incluem duas mostras de sua mãe, a artista plástica Tomie Ohtake, a quem se refere sempre na terceira pessoa – e até concordou em montar um roteiro arquitetônico de São Paulo.
Na última sexta-feira, 27, ele inaugurou o Pavilhão do Brasil na 12ª Mostra Internacional de Arquitetura de Veneza. Curador da representação brasileira no evento, ele falou à Revista JT antes de embarcar para a Itália. Veja trechos da entrevista:

O instituto foi concebido para homenagear sua mãe?
Na verdade, os dois prédios de escritórios que ficam sobre o instituto pertencem ao Laboratório Aché. Esse conjunto era a primeira unidade fora do complexo industrial da empresa. Eles queriam investir no terreno, mas não sabiam o que fazer. E meu irmão (o arquiteto Ruy Ohtake), que faz as obras do laboratório há 40 anos, sugeriu a eles montar um espaço voltado para as questões da cidade. Daí surgiu a ideia de um centro cultural, que acabou sendo criado em 2001. Eles (os fundadores e donos da Aché) quiseram dar o nome da dona Tomie porque conviveram muito com ela. A gente (ele e o irmão) achava que deveria ser outro nome, tipo Faria Lima ou São Paulo, mas não teve jeito. E o convite para que eu dirigisse o instituto também foi assim. Eles achavam que, por eu ter ocupado tantos cargos na área cultural, era a pessoa adequada para a função. A rigor, eu faço tudo aqui. Mas não reclamo, gosto muito desse tipo de trabalho.

Quais são os principais desafios no dia a dia?
Como o instituto não é um órgão público, temos de levantar dinheiro para trazer as exposições, para pagar os funcionários, para promover atividades… Para isso, utilizamos muito as leis de incentivo em todas as esferas, mas também prestamos serviços, organizamos mostras externas. Além disso, o planejamento das nossas próprias exposições também é muito trabalhoso, tem negociações que levam até três anos. Depois, tem a logística de trazer as obras para cá, e às vezes elas estão espalhadas pelo mundo, com colecionadores e em museus. É tudo muito complicado, mas é sempre um prazer quando concluímos esse processo.

O sr. é curador do Pavilhão Brasileiro na Mostra de Veneza, cujo tema é “50 anos depois de Brasília” e explora a influência de Oscar Niemeyer sobre as gerações seguintes. Qual o legado de Niemeyer para os novos arquitetos?
O maior legado foi a briga pela implementação do modernismo, que trouxe um dado novo: levar em conta a existência da cidade. A nova arquitetura faz o diálogo entre o espaço da obra e o espaço da cidade. A briga, iniciada por Niemeyer, foi seguida depois pelas gerações do (Vilanova) Artigas, do Paulo Mendes da Rocha e do meu irmão Ruy. Essa nova geração não participou da briga.

Quais são, na sua opinião, as principais obras de Niemeyer em São Paulo?
Acho que são o Ibirapuera, o Copan e o Memorial da América Latina. O que eu mais gosto é a Marquise do Ibirapuera, aquilo é uma coisa absolutamente sensacional, que você não tem em lugar nenhum do mundo.

Faça um roteiro para quem quer conhecer o melhor da arquitetura da cidade.
Acho que é fundamental visitar as três obras do Niemeyer. Depois, a FAU, do Vilanova Artigas. O Ruy (Ohtake) também tem obras interessantes: o Expresso Tiradentes e os hotéis Unique e Renaissance. Ah, também é interessante conhecer o Masp e a Pinacoteca do Estado.

Está preparando alguma homenagem para os 100 anos de sua mãe?
Ela ainda está nova, com 97! Bem, este ano, em novembro, vamos fazer duas exposições dela: uma com os trabalhos de 1960, que completam 50 anos agora. Outra, com as obras atuais. Ela ainda pinta hoje. Dona Tomie trabalha feito maluca. Nos vemos toda semana, nos almoços de domingo. Na verdade, vou ter que me entender com ela. Por causa da Bienal de Veneza, vou perder dois almoços….

SERVIÇO – INSTITUTO TOMIE OHTAKE

Avenida Brigadeiro Faria Lima, 201. Em cartaz: Alechinsky – 40 Anos de Colaboração com Peter Bramsen; Guignard e o Oriente (até este domingo, 29); Umbraculim – Jan Fabre; e Prêmio EDP nas Artes.
Site: www.institutotomieohtake.org.br

OUÇA AQUI TRECHO INÉDITO DA ENTREVISTA

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