Assassinando celulares (texto a Roberto Bolaño)

Daniel Fernandes

11 de fevereiro de 2011 | 09h21

Daniel Fernandes

Começou como uma sexta-feira habitual. Sexta-feira de férias. Estava com viagem marcada para Santiago do Chile. E cuidava dos últimos preparativos: arrumar a mala, colocar os documentos em ordem, trocar dinheiro. Essas coisas triviais.

Mas aí a internet deixou de funcionar.

E claro que a Claro, quando entrei em contato com a empresa, não sabia o que poderia ter acontecido. Daí, o ‘técnico’ do outro lado da linha me deu uma ideia: por que o senhor não tira o chip do dispositivo móvel de internet e coloca no celular, para verificar se ele está funcionando.

Aí é que o problema começou. Fiz isso, mas coloquei o chip do lado errado. E aí…..bem, daí não conseguia mais retirar o chip da internet do celular.

O meu celular era velho, bem antigo. Daí, não tive dúvidas. Joguei o aparelho com toda força no chão. Fiz isso uma, duas, três vezes. Na hora não pensei em nada. Fui tomado pela raiva incontida de um consumidor insatisfeito. Assassinei o aparelho ali mesmo, na sala de televisão do meu apartamento.

Me transformei em um assassino tomado pela cólera. Matei meu celular.

O ato impensado e, vamos combinar, totalmente desnecessário me fez ir ao shopping. Afinal, quem fica sem um celular? Precisava fazer nascer outro aparelho. Consegui um outro aparelho.

Mas a ida ao shopping me fez descobrir outra coisa, fez meu caminho cruzar com o de Roberto Bolaño. Procurava um livro qualquer. Talvez Garcia Marquez. Talvez Vargas Llosa. Mas o cara da livraria me recomendou esse escritor chileno, que só ouvira falar nas páginas da internet.

A coincidência – vou viajar para o Chile, escritor chileno – me levou a comprar um exemplar de Estrela Distante. E hoje, posso dizer: li feito um adolescente. Terminei o livro em um final de semana.

E cara, como somos pequenos nesse mundinho de consumo. Pequenos feito a estrela da bandeira chilena, que durante os anos da ditadura ficou apagada no céu nebuloso, grosso, denso de Santiago.

A internet?

Bem, ela voltou a funcionar. Claro, era só questão de dias. Como tudo na vida. Vai e vém. Vém e vai.

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