Ivan Lessa: O boom orgânico

Tudo o que é orgânico é mais caro e deixa um gosto ruim na boca.

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Por BBC Brasil
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Eu também, como vocês, já tive meus prazeres à mesa. Eu também como vocês. Ora, vejam! Meu português, além de capenga, é subconscientemente moleque. Já gostei disso e daquilo outro. Pé de moleque, rapadura, doce de coco. E o resto todo. Até espinafre e cenoura, eu topava. Verdade que eu era bem garoto, não podia fazer muita exigência. Pai e mãe dizendo, um em cada ouvido, e em todas as refeições, que é para comer a salada, o alface todo, o tomate todinho também, não se pode ignorar. Vai daí que um belo dia (e como eram belos todos os dias de então) me dei conta de que sem um verdinho no prato, mesmo não sendo a couve das glórias daquelas feijoadas todas, eu sentia uma certa falta de verduras. Verdura, verdura, que te quero verdura, conforme quase disse, e hoje seria forçado pela correção política a reescrever seus versos, o poeta Garcia Lorca. Um dia, com um céu de creme chantilly, descobri o mundo das coisas que fazem mal. Das ardilosas mulheres com um passado aos doces, confeitos e refrigerantes nocivos à saúde e ao bem-estar comum. Sem saber, eu acabara de declarar, às margens de meu corpo ainda jovem, a independência de minha saúde. Tivesse eu ficado colônia dependente da mesa com pai e mãe. Ninguém me segurava mais depois que passei a poder entrar em boate e filme proibido para menores de 18 anos. Bebi e comi do pior, do menos saudável possível. Não entro nos detalhes picantes ou grotescos de minha vida amorosa por ser totalmente destituído da eloquência necessária para, ao menos, dar uma idéia de suas perdições. Digamos que me custou uma fortuna. Mais que todo o uísque falsificado que consumi, todos os restaurantes vagabundos que frequentei, todos os falsos amigos que abusaram de minha generosidade na hora da conta. Além do mais, todas as mulheres que conheci, lato sensu, eram orgânicas. E é das coisas orgânicas que minha lira desafinada e desatinada canta. Abro um parêntese só para dizer que, como escreveu outro poeta, este nosso e estátua sentada à beira-mar, Drummond, de tudo fica sempre um pouco e essa lua e esse xarope de groselha botam a gente, ou seja eu, comovido como o Diabo. Comer foi uma fase em minha vida. Passou. Felizmente. Pego qualquer coisinha uma ou duas vezes por dia. Trata-se, com boa vontade, do máximo que posso fazer. Refeição é coisa respeitável. Eu, não. Não posso deixar de notar, entretanto, que, em torno de mim, estão todos a mastigar e remastigar de boca e barriga cheias. Passar perto dessas comilanças me desperta um certo pudor. Feito ver uma tia nua. De boca e barriga cheias de alimentos - coisas, melhor dizendo - orgânicos. Aqueles alimentos que não fazem uso de produtos químicos sintéticos ou de modificações genéticas. Eles sim têm os pés firmemente plantados no solo. Assim como aqueles que os cultivam, uma vez que os alimentos orgânicos são bem mais caros do que os que, até outro dia mesmo, ingeríamos com todas suas impurezas e engordávamos - agora nos dizem os homens de ciência - de maneira doentia. Um bife mal passado, a cavalo e com fritas, dificilmente consegue ser "alimento orgânico". Melhor para ele, digo eu. O argumento entre os que curtem alimentos orgânicos e os que debocham deles passou da discussão para o pau puro, por assim dizer. Tem gente que não acredita em nada de orgânico. Que afirma que tudo não passa de empulhação, leviandade e cobiça. Tem gente que basta algo ser orgânico que eles levam para casa e tacam ficha. Às vezes, até mesmo sem temperar. A senhorita aí na esquina esperando o ônibus que tome cuidado. Para variar, é 8 ou 80. Ninguém fica lá pela casa dos 40 ou 50, que é onde se passam as coisas mais interessantes da vida. E as discussões que chegaram a atingir os pubs, onde até ontem só se falava, aos berros e murros, de futebol? É vitamina C para cá (nas cenouras, nas batatas, nas frutas kiwi), é mineral e alto níveis de antioxidantes (no espinafre, na alface, na couve) e as pessoas tirando recortes do bolso, onde antes guardavam fotos de meias esquerdas, provando por A mais B que o leite orgânico possui níveis mais altos e mais fortes de vitamina E. Disso tudo - e há mais, muito mais - eu só sei de uma coisa: tudo que é orgânico é mais caro e deixa um gosto desagradável na boca. No dia em que surgir por aí pastel de ar, empadinha de camarão, coxinha de galinha e calda de cana, orgânicos todos, peçam seus bonés e se mandem. Para onde, tanto faz. Basta não ter nada de orgânico a menos de 50km de distância. BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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