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Opinião|O mundo não está girando mais rapidamente: nós é que estamos!

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O artesão mexicano José Garcia e sua esposa, no curta-metragem "Gen Gen": "nossa curiosidade nos torna humanos" - Foto: reprodução

Enquanto esperava no saguão do Museu da Imagem e do Som, na noite dessa segunda, pela estreia do curta-metragem "Gen Gen", uma produção da agência Box 1824 e da Stink Filmes, conversava com colegas sobre o avanço da tecnologia digital e de como ela transcende meros aspectos técnicos, transformando como vivemos. Desde o surgimento dos primeiros computadores pessoais, na década de 1970, até a presente explosão da inteligência artificial, essas revoluções acontecem em intervalos cada vez menores e de forma mais intensa.

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Claro que o digital é o vetor e o viabilizador disso tudo! Mas a tecnologia só pode ser verdadeiramente compreendida quando olhamos para nós mesmos. A grande transformação não se dá nas pastilhas de silício, mas em nossos corpos e na percepção que temos do mundo.

Na conversa pré-filme, lembrei-me de como o Dicionário Oxford escolheu "pós-verdade" como sua palavra do ano em 2016: "relativo ou referente a circunstâncias nas quais os fatos objetivos são menos influentes na opinião pública do que as emoções e as crenças pessoais". Debati na época, no meu mestrado na PUC-SP, quanto disso se materializaria.

O conceito já permeava então as redes sociais, mas não imaginávamos o tsunami de desinformação que varreria o mundo logo depois, combinando o pior da humanidade com os algoritmos. A culpa desse movimento, que rachou sociedades inteiras, não é da tecnologia, mas foi ela que a promoveu.

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Quem veio primeiro: a maldade humana que usurpou o mundo digital ou os algoritmos que nos pioraram ao abrir uma moderna Caixa de Pandora?

Agora estamos aprendendo a lidar com a Inteligência Artificial Generativa, às vezes deslumbrados, às vezes assustados. Como "Gen Gen" aborda corretamente, pela primeira vez, algo que o ser humano criou -a máquina- rompeu uma barreira que nos fazia sentir únicos e superiores: a capacidade de criar. Agora a criatura imita e às vezes supera o criador.

Esse poder nos permite fazer mais e melhor, mas você certamente já deve ter sentido que seu tempo não dá para tudo que "precisa" (note as aspas). Algumas pessoas se questionam se o mundo estaria girando mais rapidamente, o que não faz sentido astronômico.

O dia continua com as mesmas 24 horas. Nós é que estamos girando mais rapidamente!

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Nosso deslumbramento diante de produções da máquina descortina como podemos ser ainda mais manipulados pelas fake news. Elas podem parecer mais reais que a realidade, levando a "pós-verdade" a um patamar em que perdemos a capacidade de diferenciar o real do sintético.

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Por exemplo, a Índia acabou de realizar a maior eleição do mundo, em que a IA foi usada nas campanhas de maneira ostensiva e sem regras. Os eleitores interagiam com avatares e hologramas dos candidatos, que diziam a eles o que quisessem ouvir. E muitas dessas pessoas acreditavam que estavam falando com o próprio candidato!

A tecnologia sempre avança! Nosso desafio é aprender a conviver com tudo isso de maneira segura e positiva, sem perder nossa humanidade. Como diz o artesão mexicano José Garcia em "Gen Gen", mais que criatividade, o que nos torna humanos é a nossa curiosidade, na busca pelo entendimento, para evitarmos os mesmos erros. A atriz brasileira Gina Soares, por sua vez, sugere que "usando todo o poder da nossa curiosidade, a gente consegue direcionar essa revolução para que ela seja um reflexo dos nossos sonhos, dos nossos valores, e definir como o mundo vai ser daqui para frente".

Devemos escolher se seremos controlados pela tecnologia ou se a usaremos para melhorar o que está a nossa volta, ao invés de destruir. E quem ditará o ritmo e o caminho dessas mudanças não podem ser as máquinas, e sim nossa humanidade.

Façamos bom uso dela!

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Assista agora ao filme "Gen Gen" (10'32''):


Vídeo relacionado:

Opinião por Paulo Silvestre

É jornalista, consultor e palestrante de customer experience, mídia, cultura e transformação digital. É professor da Universidade Mackenzie e da PUC–SP, e articulista do Estadão. Foi executivo na AOL, Editora Abril, Estadão, Saraiva e Samsung. Mestre em Tecnologias da Inteligência e Design Digital pela PUC-SP, é LinkedIn Top Voice desde 2016.

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