Um clima de Natal

Fim de ano. As chatices habituais. Trânsito difícil, senhoras carregadas de embrulhos no metrô, frio, noite começando a bocejar de sono já às cinco da tarde.

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Por BBC Brasil
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Fim de ano. As chatices habituais. Trânsito difícil, senhoras carregadas de embrulhos no metrô, frio, noite começando a bocejar de sono já às cinco da tarde. Jornais com pouco a noticiar e muito a anunciarem ("Papai Noel ficou maluco na Loja Tal!" "O supermercado Coisa Aquela está botando pra quebrar!"). A televisão guarda o quente para o começo do ano e prepara, ou nos prepara, como se fôssemos um peru de Natal, uma programação para crianças pouco dotadas em matéria de luzes: especiais comuníssimos, os filmes de sempre (Mary Poppins, A Noviça Rebelde, um festival Julie Andrews, enfim), anúncios de colônia e bilboquês eletrônicos. Passo os olhos nas manchetes da imprensa, disciplina que comecei a praticar antes mesmo do período dito "festivo", já que o mundo e as pessoas que o habitam viraram, lá por volta do início deste século, puro berro, destituídas de maiores detalhes. Vez por outra, leio na diagonal uma reportagem ou artigo. Ler na diagonal é uma ocupação rigorosa. Pega-se a manchete, as legendas das fotos, procura-se nomes próprios no primeiro parágrafo, dá-se uma conferida no miolo da maçaroca e checa-se o inevitável fecho de ouro da matéria. Missão cumprida. Fui ao mundo, o mundo veio a mim. Impossível, pois, fugir dos aborrecimentos que passam por aquilo que os leigos chamam, sem ironia, de "viver". Qualquer coisa que se passe em Anápolis, no estado de Marilândia, Estados Unidos, não é para ser levada a sério. Nada que tenha George W. Bush discursando ou sorrindo aquele sorrisinho matreiro pode dar em boa coisa. Se o referido, então, estiver promovendo uma "iniciativa de paz no Oriente Médio", saiam da frente que aí vem "friendly fire", aqueles eternos 25% de mortes infligidas pelos soldados americanos aos amigos e até mesmo parentes presentes às hostilidades em questão. Tem pra todo mundo. Se não for "fogo amigo" é fogo de inimigo em inimigo mesmo. Pergunte a um iraquiano o que ele acha da paz e democracia amistosamente doadas a ferro e fogo, pedrada e papo legal com os interrogadores tendo a cabeça enfiada num balde d'água. Quem sobrou do desastre que foi, é e continuará a ser a invasão e subseqüente ocupação do Iraque, dirá que bom era o tempo de Saddam - à maneira nossa, com Getúlio Vargas. Se no Iraque tivesse carnaval e ainda por cima marchinha, não iria parar de tocar nas rádios subversivas uma versão daquela nossa que dizia que "um sorriso do velhinho faz a gente trabalhar". A proximidade de dezembro é um convite à digressão. Para quem já tem jeito para a coisa, vira então um chuá, conforme expressão adotada por assessores de Gegê, ou "Rebeco, o inesquecível". Deixo de lado o violão saudosista e volta às agruras de um processo de paz que supostamente se inicia em Anápolis, sob - ou sobre? -- o alto patrocínio de Bush, já que paz é com ele, né mesmo? A reunião israelo-palestina promovida pelos EUA promete retomar os caminhos pacíficos, botar nos trilhos o trem-bala (bala? Humm...) que espalhará pelo Oriente Médio a vigorosa tranqüilidade, a enérgica convivência amiga entre árabes e judeus, numa festa de luz e esplendor. O processo irá gerar uma plêiade de documentos e papelada vária a fazer inveja nos mais seletos meios burocráticos deste mundo de Deus, Alá e altas entidades afins, de nomes pronunciáveis ou não. Não só eu já vi esse filme antes, como escrevi, dirigi e nele desempenhei um papel secundário, marcante e vital. Cheguei até a auxiliar na edição, dublagem, legendagem e composição da trilha musical. Sou um velho assistente e contribuinte às negociações de paz no Oriente Médio. Só o fato de eu lá não estar, ou ter comparecido a Anápolis, na Marilândia, é bom sinal. Ao meu fogo amigo, ninguém sucumbiria. A coisa anda tão chata, tão a perigo, que, aqui na Inglaterra, só se fala nos doadores e contribuintes com imensas, vastas, enormes quantias em dinheiro batido para os cofres do partido trabalhista. Segundo os ricos doadores e contribuintes, isso não tem nada demais, uai! Eles gostam do partido e de seus ideais. Só isso. Ninguém estava pensando em obter vantagem ou lucro pessoal. Ou acabar na boca rica da Câmara dos Lordes. Amor puro. Desinteressado. Uma espécie de sussurro amoroso de paz. Paz na Inglaterra aos homens de boa vontade. Contanto, claro, que sejam Labour, feito dizem com muita graça. O primeiro-ministro Gordon Brown e seus asseclas (asseclas não é pejorativo, pois não? Espero que não. Longe de mim qualquer crítica leviana. Sou apenas mais um estrangeiro entre as levas que não param, não param e não param de chegar) já prometeram investigar a melindrosa questão Tim-Tim por Tim-Tim, Tom-Tom por Tom-Tom e até mesmo Henry-Henry por Henry-Henry, John-John por John-John e assim por diante (Oba! Emplaquei mais duas linhas sem dizer nem acrescentar patavinas ao escândalo ora em curso. Patavinas é bom. Como vêem, estou na base do desespero e nem ninguém nem nada me conterá, neste fim de partida, quando o placar acusa um a zero contra mim e busco como um louco o empate que me dará condições de prosseguir no campeonato que disputo em e com meus devaneios. Trata-se da Taça Alzheimer, se não sabiam). Esse, na verdade, é o título que eu deveria ter dado a estas linhas. Não faz o menor sentido, bem sei. O que não vem ao caso. Em absoluto. BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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