Vitória de Haddad em São Paulo reafirma poder político de Lula

PUBLICIDADE

Por ANA FLOR
3 min de leitura

O resultado do segundo turno de São Paulo marcou mais uma vitória de um estreante em eleições escolhido a dedo por Luiz Inácio Lula da Silva e reafirmou a liderança do ex-presidente dentro do PT e no cenário político nacional. Ao derrotar José Serra, Fernando Haddad repetiu o feito de Dilma Rousseff, que há dois anos venceu o mesmo candidato na disputa que definiu o sucessor de Lula na Presidência. Desta vez, em que pese os vários fatores locais para a eleição do petista, a proeza pode ser considerada ainda maior. Se no caso de Dilma, Lula carregou como presidente a então ministra por cerca de dois anos a inúmeros eventos e inaugurações de obras e a transformou na "mãe do PAC"(Programa de Aceleração do Crescimento), para torná-la conhecida dos eleitores, desta vez o ex-ministro da Educação partiu praticamente do zero no conhecimento do eleitorado paulistano. E a situação foi mais delicada ainda por conta da recuperação de Lula do tratamento contra um câncer, que fez com que entrasse mais tarde do que gostaria na campanha de Haddad. A vitória não só amplia o poder ilimitado de Lula dentro do PT, mas também chancela sua influência entre aliados, que chegaram a duvidar da continuidade da força política do ex-presidente depois da descoberta, há um ano, de um câncer que o afastou temporariamente das articulações políticas. Ao escolher Haddad, que iniciou a campanha com menos de 5 por cento das intenções de voto, Lula enfrentou gigantes petistas em São Paulo, como a ex-prefeita Marta Suplicy e o ministro Aloizio Mercadante. Precisou ainda costurar apoios entre aliados, que desejavam lançar candidaturas próprias. Com a saúde não totalmente recuperada, por causa dos efeitos colaterais do tratamento contra o câncer, Lula precisou abandonar a ideia de percorrer o país em campanha de aliados para focar em São Paulo. Além da capital, focou na região metropolitana, visitando poucas cidades em outros Estados. DERROTAS E o esforço concentrado em São Paulo cobrou o seu preço. Porque se a vitória na capital paulista pode ser classificada como espetacular, Lula também colheu derrotas importantes nesta campanha. As mais sentidas por ele foram Recife, Fortaleza e Salvador. Na capital pernambucana, Estado onde o ex-presidente nasceu, o PT foi arrasado. O senador e ex-ministro Humberto Cosa ficou em terceiro lugar na disputa, atrás do candidato do governador e presidente nacional do PSB, Eduardo Campos, e do PSDB. Em Salvador, Lula se empenhou para impedir a vitória do herdeiro do carlismo, Antonio Carlos Magalhães Neto, e em Fortaleza entrou numa briga dura contra os aliados do PSB, Cid Gomes (governador) e Ciro Gomes (seu ex-ministro). Mas como disse um ministro do governo à Reuters, o preço pago valeu a pena. "Não importa onde mais o PT ganha ou perde. Para Lula, o resultado dessas eleições sempre dependeu de São Paulo", disse à Reuters o ministro. E em Campinas (SP) quase que a mágica do "dedaço" deu certo também. Lula ajudou a levar mais um estreante em eleições para o segundo turno, Márcio Pochmann, ex-presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Mas o fôlego não foi suficiente para vencer neste domingo. O apoio do ex-presidente ajudou ainda na campanha em Osasco, onde Jorge Lapas (PT) se tornou candidato com a saída da corrida eleitoral de João Paulo Cunha --condenado pelo Supremo Tribunal Federal por corrupção no julgamento do chamado mensalão. Para aliados, o feito de Lula nestas eleições foi ainda maior por se tratar de um momento em que o partido passa por uma tentativa de "desmonte moral", com o julgamento no STF. RENOVAÇÃO E FUTURO O ex-presidente, segundo duas lideranças de partidos aliados, teve a capacidade de ver antecipadamente que o PT precisava de renovação e que a melhor aposta eleitoral para o partido seria apostar em nomes novos. "De certa maneira, desde Dilma e agora com Haddad, Lula parece estar refundando o PT", disse um aliado. O debate sobre a necessidade de renovação do PT já afeta as articulações internas do partido para 2014, em especial nomes de possíveis pré-candidatos ao governo de São Paulo. "Mais uma vez, caberá a Lula escolher seu candidato ao governo, e é ele quem vai decidir se quer um nome conhecido ou se irá apostar novamente em um rosto novo", disse um ministro petista.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.