O romance Grande Sertão: Veredas, um dos mais significativos livros do escritor mineiro Guimarães Rosa, ganha a partir desta quarta-feira, no Palácio das Artes de Belo Horizonte, uma nova adaptação, com a estréia da cantata cênica Sertão: Sertões, composta pelo compositor argentino radicado no Brasil há 40 anos Rufo Herrera. O espetáculo - do qual participam a Orquestra Sinfônica de Minas Gerais, o Coral Lírico municipal e a Cia. de Dança da Fundação Clóvis Salgado - tem direção de Carlos Rocha e Carmem Paternostro e regência do maestro Emílio De Cesar. Encomendada pela Fundação Clóvis Salgado há um ano e meio, a peça de Herrera, que foi complementada pela adaptação do texto feita por Carlos Rocha, busca retratar a vida no sertão de modo bastante fiel às intenções de Guimarães Rosa. "Ele disse, certa vez, que seu livro era composto de uma parte de geografia, duas de emoção, três de poesia. O resto, era metafísica", conta o compositor que, conseqüentemente, tentou evitar qualquer tipo de inclinação realista ao longo do trabalho. "Rosa disse várias vezes que, quanto mais realista o livro, mais se deve desconfiar." Segundo Herrera, além da falta de tempo para se dedicar integralmente ao trabalho, a principal dificuldade foi achar uma forma que ficasse condizente com o romance e pudesse mostrar, ao mesmo tempo, os aspectos regionais e universais da obra. "O século 20 abriu um leque enorme de possibilidades, desde Stravinski à música eletroacústica, e passei um bom tempo desenvolvendo uma pesquisa que resultasse em uma linguagem com características do teatro, mas que fosse expressiva como música." O aspecto metafísico do romance acabou por indicar o caminho. "A base para a composição foi o aspecto hipnótico, mântrico, sagrado, do romance, que sugeriu formas que delinearam o trabalho." A obra compõe-se, assim, de elementos musicais que vão se deformando à medida que a história de Riobaldo e Diadorim se desenvolve no palco. Herrera viveu no sertão baiano durante sete anos, após dedicar-se à pesquisa em Salvador, ao lado do Grupo da Bahia, formado por compositores como Lindembergue Cardoso. Nesse período, lembra que esteve em contato direto com a vida do sertão e que Guimarães Rosa foi uma presença constante, sendo Grande Sertão: Veredas seu livro de cabeceira. Dessa forma, as manifestações culturais sertanejas passaram a fazer parte importante de sua vida. "Quando componho, não copio algo que já tenha ouvido. Já está tudo dentro de mim, faz parte da minha formação pessoal e musical." Outro corpo - Uma das grandes preocupações do trabalho foi com a redefinição da figura do cantor, rompendo com a estrutura da ópera tradicional. "Enquanto a ópera tem compromisso com a melodia e o virtuosismo vocal, estávamos preocupados em encontrar músicos que também pudessem atuar. O cantor virtuose nunca é um bom ator, é duro de corpo. Um jagunço de voz empostada talvez enriquecesse musicalmente o espetáculo, mas acabaria com o sentido do personagem." Carmem Paternostro conta que, desde o início do projeto, respondendo ao desafio colocado pela música, buscou encontrar um outro corpo de ator, uma linguagem gestual que mantivesse estreitas relações com a linguagem de Guimarães Rosa. Para tanto foram desenvolvidas oficinas desde o ano passado nas quais se procurou esse novo caminho. "Queríamos um balanço corporal diferente e eliminamos da dança a verticalidade, ressaltando os momentos horizontais." Carmem indica, também, que a direção do espetáculo sempre teve em mente que não estava montando o romance. "A música e o canto nos guiaram ao longo do processo de trabalho e, nesse sentido, o ator precisa dominar o texto de modo musical, tornando-se também um instrumento." Para Carlos Rocha, o processo de adaptação procurou levar em consideração aquilo que Guimarães Rosa chamava de literatura musculosa. "Em seu livro não há nada gratuito, cada frase tem um significado e buscamos, sempre, manter essa característica."
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