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Coluna quinzenal do escritor Ignácio de Loyola Brandão com crônicas e memórias

Opinião|Seja lá o que é isso, vai acabar?

Ganso estava passando em frente a padaria quando ouviu um chamado. Virou-se, um homem de dentro de um carro enferrujado gritou:

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Por Ignácio de Loyola Brandão

“Aí tem pães?”

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“Nães.”

O motorista, com cara de quem viu passar um bando de pelados e peladas de bicicleta, o que está se tornando comum em São Paulo, à noite, fez um gesto significando esse é tantã e prosseguiu. O homem que disse nães sorriu e se encaminhou para a banca, onde lê manchetes e finge consultar uma e outra revista, lê alguma reportagem das semanais, e vai embora sem comprar nada, mas o Cid está acostumado. Uma banca é paraíso para um filósofo da vida cotidiana. Neste momento, o Vultério, que costuma frequentar o novo bar do Pinguim, em frente à faculdade, se aproximou.

“E daí, o que está achando da situação.”

“Que situação?”

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“A nossa?”

“A minha ou a sua. Ou a minha e sua?”

“A de todo mundo.”

“E quem é todo mundo?”

Vultério, que está acostumado a explicar desde criança porque tem esse nome, pensou um pouco, olhou para cima, para baixo, para o lado esquerdo. Ele nunca olha para o direito.

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“Sou eu, você, as moças da farmácia, a Paola Carrosella, chef estrela aqui do bairro, a turma descolada que frequente o Underdog, as professoras de domingo na padaria, o Alexandre Herchcovitch, o Teo, o Henrique e a Jane, os terapeutas do prédio dos loucos, os que vão jogar na loteca, o pintor Genilson Soares e seu fiel Chocolate – o cachorrinho não andou bem, está se recuperando – somos todos, é o mundo

“Eu não sou todo mundo.”

“Você é. Custa me dizer o que acha da situação?”

“Preciso achar?”

“Você tem de ter uma opinião.”

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“E se não tenho?”

Vultério, naquela manhã, estava decido a arrancar uma palavra de Ganso. Falando em nome, até hoje não se sabe se é nome de família ou apelido, porque o sujeito se parece muito com aquele jogador do São Paulo. Mas ele já perguntou e deu em nada, vocês estão vendo no que dá perguntar para ele. Há pessoas assim, que escapam, deslizam, esquivam, abstêm-se de qualquer comentário, se encontrarem uma chance emigram, se exilam, somem. É um fenômeno que vem acontecendo, se espalhando, dizem os terapeutas do prédio; não se sabe se é síndrome, epidemia, efeito do mosquito zika (ou seria mosquita?). Vultério insistiu, tinha tempo.

“O que importa é de que lado você está? Conosco ou com eles?”

“Nem convosco nem com eles, estou comigo.”

“Está sozinho, então?”

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Foi aí que Ganso se lembrou de um romance que tinha “pegado na veia” (termo de jogador de futebol), quando ele era adolescente. O Encontro Marcado, de Fernando Sabino. Em uma passagem do livro, os jovens rebeldes belo-horizontinos, na madrugada, bêbados, encontram uma senhora que, certamente, como boa católica mineira, se dirigia à missa. Aproximam-se babando, indagam: “A senhora está sozinha?”. E ela, brandindo o rosário, gritou: “Não, estou com Deus”. Ganso foi calmo.

“Não estou sozinho, estou comigo.”

“E acaso isso não significa estar só? Você não está com ninguém, você acha que se basta? Nenhum homem é uma ilha. Não tem opinião? Tudo o que acontece não mexe com você, não abala, emociona, alegra, entristece, emputece, enraivece?”

“Sim, nenhum homem é uma ilha.” John Donne. O poeta. “Nenhum homem é uma ilha, completo em si próprio; cada ser humano é uma parte do continente, uma parte de um todo.”

“Quando tudo isso acabar, vamos nos encontrar e você vai me dizer.”

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“Acha que isso, seja lá o que você quer dizer com isso, vai acabar?”

Opinião por Ignácio de Loyola Brandão
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