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Coluna quinzenal do escritor Ignácio de Loyola Brandão com crônicas e memórias

Opinião|Sobre Michel Gorski e as fumaças de vida e morte

Arquiteto amava São Paulo e sobre a cidade escreveu livros avaliando formação, crescimento, excentricidades, soluções, trânsito, origem dos nomes de bairros

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Foto do author Ignácio de Loyola Brandão

Para Ciça Barbieri Gorski

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Tentávamos ir rápido pela Rodovia Raposo Tavares, congestionada, entrecortada por cruzamentos e faróis, uma aberração. “Claro”, diria Michel Gorski, arquiteto que amava esta cidade e sobre ela escreveu livros avaliando formação, crescimento, excentricidades, soluções, trânsito, origem dos nomes de bairros. Falando da cidade, nosso humor era igual. Ele resumiria: “A Raposo virou avenida, a cidade desembestou, loucura, qualquer dia encostamos em Sorocaba”.

O velório de Michel iria de meio-dia às duas da tarde. O acesso entre a rodovia e o Cemitério Israelita do Butantã estava complicado. Sabíamos o quanto ele era amado. Meses antes, ele tinha caminhado quilômetros, em Cangalha, Minas Gerais, subindo a complexa trilha Cabeça do Leão, até o alto das montanhas, com paisagens inquietantes de belas. Michel parecia ter superado uma fase de uma moléstia insidiosa, voltara a curtir Minas com suas oliveiras, abacateiros para a indústria de beleza, frutas como mirtilo, amoras, morangos, laranjas, limão-cravo, romãs, jabuticabas, acerolas, pitangas. Frutos que ele reunia em caipirinhas e caipiroscas com a maestria de barman estrelado. Sem esquecer, aqui em São Paulo, dos almoços e jantares preparados por ele e Ciça, que ignoravam o tempo, regados por vinhos e assuntos que fluíam com humor.

Terminadas as orações do velório, dirigimo-nos ao sepultamento. Então, vi à minha frente Ana Soares e Henrique. E a manhã do bialy me veio. Foi em um domingo, há muitos anos, e estávamos na rotisseria Mesa Três, na Vila Madalena, para o lançamento de O Soprador, livro escrito por Michel e Silvia Zatz, com tema ligado a seus ancestrais. Enquanto eu lia trechos do livro, Ana e Henrique passavam bandejas de bialy, acompanhadas por copinhos de schnaps gelado. O bialy é um pão redondo e fino, com cebola e sementes de papoula, feito pelos judeus de Bialystok, na Polônia. Alguns colocam arenque defumado. Bialystok foi ocupada pelos nazistas e o comandante alemão, que depois passou por vários campos, apaixonado pela arte do bialy, levou o padeiro junto. Assim, ele sobreviveu e foi de Auschwitz a Birkenau, Blizin, Buchenwald, Majdanek. E o simbolismo poético-tenebroso vem em uma cena que emociona no livro. De sua janela, enquanto assava bialys para o comandante, o padeiro via a fumaça branca que saía de sua chaminé se misturar à fumaça negra dos fornos crematórios consumindo corpos. Vida e morte. Escrever bem Michel também sabia.

Arquiteto e urbanista Michel Gorski em foto de 2005 Foto: Clayton De Souza/AE
Opinião por Ignácio de Loyola Brandão

É escritor, membro da Academia Brasileira de Letras e autor de 'Zero' e 'Não Verás País Nenhum'

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