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Raphael Montes se consolida como autor de histórias de suspense com novo terror gótico

Autor sedimenta, a cada novo livro, sua posição de grande figura do romance policial e de suspense na literatura brasileira

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Foto do author Ubiratan Brasil

Raphael Montes sedimenta, a cada novo livro, sua posição de grande figura do romance policial e de suspense na literatura brasileira. Se em sua estreia com Suicidas o fio da meada são as terríveis descobertas feitas por mães de jovens que se mataram, ele mudou o rumo no romance seguinte, Dias Perfeitos, que se assemelha a uma soturna sonata, sobre Téo, rapaz que se revela um psicopata ao sequestrar Clarice, garota por quem se apaixona, obrigando-a a viajar para diversas cidades. Agora, Raphael muda a chave e lança O Vilarejo, suspense que se revela um quebra-cabeça para o leitor. O livro será lançado hoje à noite, na loja da Companhia das Letras da Livraria Cultura, no Conjunto Nacional.

Trata-se de uma série de sete contos que se passam em um único espaço, uma pequena vila habitada por cimérios, povo que teria vivido na Antiguidade na região do Cáucaso. O momento da ação não poderia ser mais terrível: assolados por um conflito (provavelmente a 2ª Guerra Mundial), os habitantes vivem trancados em suas casas, passando por terríveis privações como a fome e sofrendo com o impiedoso frio. Vivendo assim em situação extremada, as pessoas aos poucos perdem a noção de civilidade e praticam atos que revelam as profundezas mais sombrias da alma humana.

Raphael Montes Foto: STEFNO MARTINO

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O que amarra as histórias é um prefácio assinado pelo próprio Raphael Montes – recurso ficcional que busca ressaltar uma suposta veracidade. Lá, o escritor conta ter adquirido, em um sebo carioca, o acervo que pertenceu a uma certa Elfrida Pimminstoffer, com destaque para três cadernos escritos a mão. Estava ali, no idioma cimério, o relato dos acontecimentos naquele vilarejo, divididos em capítulos segundo os sete pecados capitais: Asmodeus (luxúria), Belzebu (gula), Mammon (ganância), Belphegor (preguiça), Satan (ira), Leviathan (inveja) e Lúcifer (soberba). Na verdade, a trama se baseia na teoria do padre e demonologista Peter Binsfeld que, em 1589, conectou cada um dos pecados capitais a um demônio, supostamente um ser do mal responsável por invocar aquele respectivo pecado nos seres humanos.

“Comecei a escrever esse livro despreocupadamente, entre os lançamentos de Suicidas e Dias Perfeitos”, conta o escritor. “As duas primeiras histórias surgiram ainda sem a noção de que poderiam formar um livro. Foi só a partir da terceira é que comecei a arquitetar as tramas e o espaço.”

Foi uma novidade em sua forma de escrever – leitor de autores como Stephen King e H.P. Lovecraft, Raphael nunca escondeu o prazer que sentia com o terror gótico, embora ainda não tivesse se exercitado nesse estilo. Assim, aos poucos criou o universo daquele vilarejo onde todos os habitantes, mesmo em graus distintos, têm um pecado dentro de si, que aflora no momento de extrema tensão.

Ilustração O Negro Caolho, de Marcelo Damm, para o livro O Vilarejo, deRaphael Montes Foto:

“Logo, percebi que estava criando um romance fix up, o que é praticamente inédito por aqui”, comenta o escritor, referindo-se a um gênero novo, cuja tradução literal significa “correção” – trata-se de uma obra em que seu autor unifica histórias que se passem em um mesmo espaço ou com personagens interligados, formando uma coesão estilística.

Aos 24 anos, advogado de formação, o carioca Raphael Montes coleciona projetos e elogios. Ele é um dos roteiristas da minissérie SuperMax, que a Globo deve exibir em outubro. Serão 12 episódios, exibidos um a cada semana, a partir da ideia original de Fernando Bonassi e Marçal Aquino. A direção será de José Alvarenga Jr. e o elenco terá apenas dois nomes conhecidos, as atrizes Mariana Ximenes e Cléo Pires.

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Ele também participa de outra minissérie, Spinosa, que será exibida pelo canal GNT a partir de setembro. Trata-se de uma adaptação do livro Uma Janela em Copacabana, de Luiz Alfredo Garcia-Roza, com Nanda Costa como protagonista e Domingos Montagner como o famoso delegado Spinosa. A direção é de José Henrique Fonseca, filho de Rubem, um dos principais escritores brasileiros.Finalmente, uma obra de Raphael, Dias Perfeitos, será adaptada para o cinema com direção de Daniel Filho.

Já os afagos vêm de talentos distintos. Quando esteve em São Paulo, em setembro de 2013, para participar da Pauliceia Literária, o americano Scott Turow, um dos papas do moderno romance de suspense, conheceu a obra do jovem brasileiro e vaticinou: “Raphael certamente redefinirá a literatura policial brasileira e vai surgir como uma figura da cena literária mundial”. 

Agora, ao enveredar pelo suspense e mistério com O Vilarejo, Raphael despertou a atenção de Fernanda Torres, que o comparou a Stephen King. Em meio a tantos confetes, Raphael, organizado por natureza, já prepara o livro que pretende lançar no próximo ano. “Já estou na metade”, avisa. O futuro está apenas começando.

TRECHO: 

"Felika manda que as crianças comam depressa, antes que alguém nos arredores sinta o cheiro da comida. Depois de tanto tempo sem alimento, a família vizinha pode estar com o olfato aguçado e perceber que, ao contrário de todos, eles ainda têm o que comer. (...) Ela se julga esperta. Enterrou entre a neve e a terra todo o alimento, de modo que nada foi apreendido quando os guardas passaram semanas atrás fazendo a coleta. Escolheu com cuidado o local do esconderijo (...) e administra a guarnição restante para que não morram de fome até Anatole voltar.”

O VILAREJO

Autor: Raphael Montes

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Editora: Suma (96 págs.; R$ 29,90, impresso; R$ 19,90, e-book)

Lançamento: Livraria Cultura – Loja da Companhia das Letras. Avenida Paulista, 2.073.Tel.: 3170-4033.Terça-feira, 25/8, a partir das 18h30

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