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Flip 2022: escritora Saidiya Hartman descreve a beleza dos rebeldes

Pesquisadora americana mostra como jovens negras construíram um estilo alternativo de vida, após abolição da escravatura

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Foto do author Ubiratan Brasil

ENVIADO ESPECIAL / PARATY - A escritora americana e professora da Universidade de Columbia Saidiya Hartman abriu um sorriso ao ser informada de que o Brasil, ainda que timidamente, vem ganhando mais publicações que estudam com rigor a história da escravidão. “A informação ainda é a melhor forma de ensinamento”, comentou ela com o Estadão, em um café em Paraty, onde ela participa da 20ª edição da Flip, a Festa Internacional de Literatura de Paraty. “No Brasil, assim como nos Estados Unidos, a escravidão - com seu comércio de seres humanos - ajudou a moldar a sociedade.”

Saidiya é uma mulher atenta - em sua breve passagem pelo Brasil, ela tanto notou a fauna exuberante como a ausência de pretos em determinadas regiões das cidades. Sua mesa na Flip acontece às 19h deste sábado, quando vai discutir, ao lado de Rita Segato e Luiz Mauricio Azevedo, como a escrita constitui um espaço para revelar o protagonismo invisibilizado de populações oprimidas na construção do cotidiano.

A escritora americana Saidiya Hartman, que participa da 20 Flip, em Paraty. Foto Ubiratan Brasil Foto: Ubiratan Brasil/Estadão

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Sua obra começa a ganhar mais destaque no Brasil, especialmente com os recém lançados Perder a Mãe (Bazar do Tempo) e Vidas Rebeldes, Belos Experimentos (Fósforo) - com o primeiro, ganhou notoriedade nos campos acadêmico e da crítica especializada ao propor uma abordagem original e pessoal da história da escravidão; já o segundo relata como jovens negras construíram um estilo alternativo de vida, entre o fim do século 19 e o início do 20, em guetos da Filadélfia e de Nova York, longe dos moldes patriarcais.

“Vidas Rebeldes nasceu de um decisão de dar um tempo na escrita de textos sobre a escravidão - já tinha produzido duas obras antes, que tratavam de um assunto pesado e queria ver o outro lado, mais leve”, contou ela, enquanto se preparava para descobrir o sabor de uma salada de frutas tropicais. “Eu buscava outros limites, agora sobre como era ser livre.”

O livro começou a tomar forma quando Saidiya conheceu uma fotografia de Thomas Eakins que mostrava uma garota. Surgiu a intenção de tentar explicar sua vida. “Eu me perguntava como era a vida de uma jovem negra algumas décadas após a abolição legal da escravatura nos Estados Unidos (que aconteceu em 1863)”, diz a escritora que via na imagem a condensação de séculos de existência negra, uma imagem duradoura de cativeiro e mercantilização, e uma imagem que levantava questões sobre o significado da liberdade. “Em meu país, após a Guerra Civil (1861-1865), aconteceram muitas mudanças, especialmente envolvendo a escravidão. Essa história precisava ser reescrita.”

Imagem do livro 'Vidas Rebeldes, Belos Experimentos', de Saidiya Hartman, Foto: Editora Fósforo

Foi o início de uma extensa pesquisa em arquivos de reformatórios, transcrições de julgamentos, relatórios de assistentes sociais, registros de cobradores de aluguel e fotografias, mesmo aquelas que não traziam informação alguma (às vezes, apenas um nome). “Li muito, tomei inúmeras notas mas escrevi quase sem consultá-las - meu ponto de partida sempre foi um detalhe que poderia expressar bem o momento daquela vida.”

E, em meio a tragédias individuais, Saidiya percebeu que a persistência era um fator decisivo para a sobrevivência. Daí a ênfase na beleza, que permeia praticamente todo o livro.

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“Não apenas a beleza física, mas principalmente a que marca o ato de viver nas piores circunstâncias”, comentou a pesquisadora, que se apoiou em histórias de pessoas negras que praticavam o amor livre, as relações homossexuais e a maternidade solo. Uma beleza que marcava posição e também as distinguiam das pessoas brancas. “Muitas vezes, isso era considerado erradamente uma ostentação do mundo do crime, porque jovens trabalhadores negros não poderiam ser tão belos.”

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