PUBLICIDADE

Foto do(a) blog

Cinema, cultura & afins

Opinião|Olhar 2024: A força brasileira em 'Tijolo por Tijolo', e mais um intenso filme suíço e um clássico do cinema negro americano

PUBLICIDADE

Foto do author Luiz Zanin Oricchio

CURITIBA - Nos primeiros passos da maratona do Olhar de Cinema, deparamos com um bom doc brasileiro, Tijolo por Tijolo, e um forte concorrente suíço, Os Paraísos de Diane. E, também, um filme histórico da realizadora negra norte-americana Kathleen Collins, Sem Chão (Losing Ground). Bom para um primeiro dia, após a gloriosa abertura do festival com Retrato de um Certo Oriente, de Marcelo Gomes, baseado na obra de Milton Hatoum.

 

PUBLICIDADE

Bem, vamos por partes. Em Tijolo por Tijolo, Victoria Álvares e Quentin Delaroche acompanham o cotidiano de Cris e sua família, moradores de Ibura, na periferia do Recife. Cris está grávida do quarto filho e pretende fazer laqueadura. Descobre que, para isso, o parto terá de ser uma cesariana. Ao mesmo tempo, seu marido cuida da ampliação da casa. Ele não é pedreiro de ofício, mas vê vídeos no YouTube com informações sobre a arte da construção.

Há muita coisa que comove no longa. Em particular, o duro da vida do brasileiro pobre, em luta permanente pela sobrevivência e também esperando por um futuro menos difícil. Depois, o nível de solidariedade que mostram em relação aos outros, como numa tragédia de deslizamento de terra causado pela chuva intensa. Também pela maneira criativa como usam as redes sociais e a internet. Albert, o marido, consulta informações sobre como erguer paredes. Ao mesmo tempo filma a família. Aliás, a família toda se filma e sobe os conteúdos em redes sociais. Cris tornou-se uma personalidade no Instagram, com seus vídeos de conselhos sobre a maternidade e outros assuntos. São todos ultra-conectados.

Gostei do filme porque não disfarça as dificuldades materiais, porém revela a potência dessas pessoas e sua capacidade de fazer limonada dos vários limões que a vida lhes oferece. Vão adiante, construindo suas vidas - tijolo por tijolo.

O suíço Os Paraísos de Diane (competitiva internacional), de Carmen Jaquier e Jan Gassamann, tem como personagem Diane (Dorothée de Koon), que dá à luz uma menina e sofre de uma espécie de síndrome pós-parto. Foge do hospital, abandona tudo e todos, e erra pela Europa em busca de alguma coisa que nem ela mesma sabe o que é.

Publicidade

 

A filmagem é bem rente à personagem, intensa, às vezes febril. Jamais a culpabiliza e nem procura penetrar sua psicologia. O ser humano, muitas vezes, é uma caixa fechada, enigmática até para si mesmo. Acompanhamos a sua deriva que, pela empatia, passa a ser nossa, nesse filme falado em muitas línguas, ambientado numa Europa em transe com sua impessoalidade que, em aparência, leva as pessoas a algum gênero de loucura pós-moderna.

Interessante fazer um paralelo entre esses personagens suíços, angustiados e com suas vidas materiais resolvidas, e os de Tijolo por Tijolo que, apesar de todas as carências, conseguem expressar seu humor e afeto. Nada de romantizar a pobreza, porém. Apenas assinalar diferenças entre duas "tecnologias" do viver.

Em Sem Chão (Losing Ground), Sara Rogers (Seret Scott) é uma professora de filosofia, casada com o pintor Victor (Bill Gunn). O relacionamento parece desgastado. Victor passa do abstrato ao figurativo enquanto Sara sente que, entre Hegel e Heidegger, vive num casulo abstrato e necessita da experiência do concreto.

 

Assim como o marido passa à representação da figura humana, a mulher procura saciar sua fome de real ao ser convidada como atriz para a realização de um filme.

A ideia central - o percurso da abstração à realidade, incluindo aí a questão sexual - parece brilhante. Assim como mostrar a sofisticação da comunidade artística negra dos Estados Unidos, o que vale por mil panfletos antirracistas.

Publicidade

A realização me parece um tanto irregular, caminhando de um início super instigante até a realização do "filme dentro do filme" numa metalinguagem que soa um tanto artificial, em alguns aspectos.

Sem Chão é celebrado como uma das primeiras realizações dirigidas por uma cineasta afro-americana. A biografia de Kathleen Collins (1942-1988) diz que foi diretora, roteirista, professora e escritora de contos e peças. Em seus trabalhos aborda questões raciais e de gênero. Sem Chão é considerada sua obra-prima. Morreu jovem, aos 46 anos. É preciso conhecer sua obra.

 

Opinião por Luiz Zanin Oricchio

É jornalista, psicanalista e crítico de cinema

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.