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Opinião|Olhar 2024: 'Caminhos Cruzados', a melhor atração do dia

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Foto do author Luiz Zanin Oricchio

Diário crítico (4)

CURITIBA - Na maratona de ontem, o melhor foi o longa Caminhos Cruzados, de Levan Akin (na competitiva internacional).

 

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Akin, sueco de ascendência georgiana, cria uma bela história com Lia que, cumprindo desejo de sua irmã, vai atrás de sua sobrinha Tekla, uma mulher trans que foi para a Turquia e não deu mais notícias.

Caminhos Cruzados toma, assim, o contorno de um road movie. Lia, professora aposentada da Geórgia, une-se a seu jovem vizinho Achi e vão procurar Tekla em Istambul. Lá, depois de muitos contratempos, encontrarão apoio em Evrin, uma advogada dedicada à luta pelos direitos de pessoas trans. Mas será o suficiente para encontrar Tekla? É atrás dessa resposta que o filme se movimenta.

Obra de boa fatura cinematográfica, Caminhos Cruzados registra uma Istambul inesperada, avesso de cartão postal, cidade de desvalidos, em suas ruelas e cortiços, porém cheia de vitalidade e encanto. Pelo menos para quem acha que conhecer uma cultura é mais do que buscar belas paisagens.

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Entra em cena, em primeiro plano, o fator humano, com seu cortejo de crianças de rua e becos de prostituição. Nesses há perigo, sordidez e também espaço para a solidariedade. Boas interpretações e acurado senso fotográfico fazem o encanto desse filme, que nos abre uma janela de honesta visibilidade para outra cultura.

O desfecho é aberto e nem por isso deixa de ser emocionante, embora possa deixar alguns espectadores um tanto desorientados.

Também interessante é o documentário Eu Não Sou Tudo Aquilo que Quero Ser, de Klára Tasovská. O filme aborda o trabalho e a trajetória da fotógrafa checa Libuse Jarcovjákové. A narrativa baseia-se nos diários de Libuse e, as imagens, em suas fotografias de uma beleza sombria e inquietante. Quer dizer, o movimento do filme é feito através de fotos estáticas. Funciona muito bem, e nada tem de novo - o clássico La Jetée, de Chris Marker, usa essa mesma técnica.

Texto e fotos nos dão a saber uma vida igualmente inquietante de mulher insubmissa, que não se amolda aos preceitos rígidos da sociedade em que vive, em especial depois da intervenção soviética de 1968. Libuse, na verdade, vive mil vidas. Trabalha em uma gráfica, embriaga-se à noite, fica grávida e aborta duas vezes, casa-se, consegue sair do pais e instalar-se no Japão, muda-se para Berlim, torna-se conhecida e joga tudo no lixo, testemunha a queda do Muro de Berlim, etc. Hoje é fotógrafa famosa e disputada, com exposições nas principais capitais do mundo. Sua imagem, de pessoa autodestrutiva e angustiada não parece das mais simpáticas. Mas a força das imagens prevalece.

Já o brasileiro Quem é Essa Mulher?, de Mariana Jaspe (na competitiva brasileira), deixa a desejar. No entanto, seu ponto de partida enche o espectador de expectativa. Trata-se da busca pela história daquela que teria sido a primeira mulher negra a se tornar médica no Brasil, a baiana Maria Odília Teixeira.

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O filme é conduzido pelo ponto de vista de Mayara, historiadora que faz de Maria Odília objeto de sua dissertação de mestrado. Na abordagem, promove-se o "encontro" entre duas mulheres negras - a médica e a historiadora - separadas por um século e envolvidas na mesma luta de emancipação. Maria Odília nasceu em 1884, portanto quatro anos antes da Abolição. Mayara é uma jovem mulher.

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No entanto, essa dupla abordagem faz o documentário perder seu foco. Não se detém apenas nos desafios da pesquisa mas registra a vida da pesquisadora, suas relações familiares, emoções, incertezas, etc. A história da médica, tão importante para o nosso conhecimento da luta pela emancipação da mulher negra, acaba deslocada na obra. Ficamos querendo saber mais. Pena.

Pior ainda foi Greice, de Leonardo Mouramateus (na competitiva brasileira), uma espécie de filme infanto-juvenil, apenas uma boa distração para uma Sessão da Tarde. Greice (Mandyra) é uma jovem que estuda em Portugal e vira-se com trambiques. Por exemplo, numa tarde de calor apresenta-se como produtora de uma celebridade para poder usufruir de uma piscina numa mansão em Lisboa.

Mete-se em dificuldades inesperadas e precisa sair do país. Volta para Fortaleza, sua cidade natal, mas a mãe pensa que a filha continua em Lisboa. Precisa encontrar um jeito de renovar o passaporte para poder voltar a Lisboa. E aplica mais alguns pequenos golpes, nada graves, para conseguir o visto no consulado. E por aí vai. Um pequeno filme de entretenimento, que, embora longo, se vê com facilidade e se esquece sem qualquer dificuldade.

Opinião por Luiz Zanin Oricchio

É jornalista, psicanalista e crítico de cinema

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