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China terá de fazer reformas, diz Banco Mundial

Para banco, modelo está esgotado e país terá de se habituar a ritmo de crescimento mais baixo, com repercussão na economia global

Por Jamil Chade/GENEBRA
Atualização:
AP Photo/Mark Schiefelbein 

O modelo econômico da China está esgotado e o país precisa passar por uma reforma, inclusive no seu setor financeiro, hoje com forte intervenção estatal. O alerta é do Banco Mundial e de economistas, que indicam que a segunda maior economia do planeta vai viver um “novo normal” nos próximos anos. As taxas de expansão de mais de 10%, como se viu na última década, não se repetirão e o impacto pode ser global. 

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Nas últimas semanas, a China viveu uma turbulência inédita em seu mercado acionário. Depois de as ações triplicarem em apenas 12 meses, a bolha estourou. Dezessete bancos locais tiveram de emprestar US$ 209 bilhões para que o governo interviesse nas bolsas. Ao fim, as perdas no mercado de ações chegaram a US$ 4 trilhões, com queda de mais de 30% no valor dos ativos. 

Para analistas, a turbulência é um sinal de que reformas precisam ser feitas. Em um estudo preparado para projetar o futuro da economia da China, especialistas chineses e em Washington indicaram que o país está se adaptando para viver nos próximos anos um nível de crescimento mais baixo. Para 2015, a projeção é de expansão de 7,1%. Para 2017, essa taxa cairia para 6,9%. “Esse será o novo normal para a segunda maior economia do mundo”, aponta o Bird. 

Mas mesmo essa nova taxa de expansão exigirá reformas substanciais. O tom da entidade surpreendeu pela franqueza. “A estrutura econômica da China está sendo lentamente transformada”, disse a instituição. “De um lado, a atividade econômica continua limitada pela capacidade excessiva das indústrias pesadas, queda no crescimento das exportações e maior controle sobre empréstimos”, apontou. “O mercado imobiliário continua fraco, com excesso de oferta e, na maioria das cidades, queda no preço das propriedades”, indicou o levantamento, apontando que esse impacto começou a ser sentido até nos salários. 

Para que a China possa continuar crescendo, o banco sugere uma melhor alocação de créditos na economia para financiar o que pode ter sentido em termos de mercado, e não apenas ao que politicamente possa ser relevante. Isso, porém, vai exigir uma reforma no setor financeiro. “O modelo de crescimento liderado por investimentos ajudou a economia chinesa a decolar. Mas reformas são necessárias agora para permitir que o sistema financeiro possa apoiar setores que mantenham um crescimento razoável no médio prazo”, sugeriu o Banco Mundial. 

Distorcido

O alerta do Banco Mundial chegou a provocar uma crise entre a entidade e o governo da China. Numa primeira versão do estudo, que circulou em alguns meios restritos e no governo, o ataque era ainda mais duro. O Bird acusava o setor financeiro de estar “distorcido pelo papel do Estado” e que existia um risco de colapso depois de três décadas de crescimento. O Banco Mundial ainda acusava a China de manter “uma propriedade perversa e controle sobre bancos e outras instituições financeiras”, incluindo a influência do Partido Comunista na escolha dos executivos do setor. 

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Para a entidade, “o fraco desempenho do setor financeiro” era resultado de um segmento que é “reprimido, com grandes custos para ser mantido e potencialmente instável”. O informe não pediu a privatização das bolsas. Mas foi considerado como um ataque frontal ao regime chinês. 

Diante da pressão de Pequim, a entidade retirou de circulação o capítulo que tratava do setor financeiro, sob a alegação de que não havia sido revisado “de maneira correta”. Na última sexta-feira, o presidente do Banco Mundial, Jim Yong Kim, foi obrigado a declarar em público na China que sua instituição não reconhecia aqueles comentários como “legítimos”. “Aquele trecho em particular não reflete a visão do Banco Mundial”, disse.  Com ou sem a censura de Pequim, a realidade é que dezenas de entidades e empresas apontam para a nova realidade da China e esperam por reformas. Segundo a Fitch, a Índia pode ter em 2015 o primeiro ano desde 1999 com expansão da economia acima do que será registrado pela China. 

Freio na economia

A desaceleração é sentida em diversos setores. Segundo a Associação Chinesa de Fabricantes de Automóveis, o mercado doméstico vai ter expansão de apenas 3% em 2015, e não de 7% como se previa. Em junho, as vendas da GM cresceram apenas 0,4%, mesmo depois de a empresa reduzir em 20% o preço de mais de 40 marcas no país. No caso da Ford, a queda nas vendas chegou a 3% no mês passado, enquanto a Jaguar anunciou que vai cortar o preço de seus produtos.

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No setor da mineração, os dados oficiais apontam para queda de 1% nas importações no primeiro semestre. Esse, segundo os analistas, seria reflexo da desaceleração no setor de construção, no excesso de capacidade das indústrias e das perdas já registradas pelo segmento. “A queda da importação na China indica que o consumo de aço no país pode ter atingido seu pico em 2014”, alertou a Mysteel Research, entidade que acompanha o setor. O impacto dessa queda sobre o preço, segundo a Rio Tinto, pode ser duradouro. Para a gigante do setor, os novos valores no mercado devem perdurar até 2020. 

A Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) confirma que a desaceleração não é temporária. Nesta semana, seus economistas alertaram que a perda de ritmo na economia da China poderia ser sentida pelos próximos três trimestres. Na Organização Mundial do Comércio (OMC), o alerta é para o risco de a desaceleração afetar um quarto das economias do mundo. No total, 43 países têm a China como seu maior mercado comprador. Em 1990, esse número era de apenas dois. Alguns países já estão sofrendo desde 2014: as exportações da África do Sul para a China recuaram 32%; as do Brasil, 12%; e as da Austrália, 11%.

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