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'É PRECISO DIVERSIFICAR A ECONOMIA BRASILEIRA'

Para economista, o País tem de aplicar bem a 'riqueza súbita' das commodities

Por ALESSANDRA SARAIVA e RIO

Nem a crise europeia será capaz de frear a tendência de alta nos preços das commodities - mercadorias básicas produzidas pelo Brasil - nos próximos anos. Um arrefecimento de preços no curto prazo, por causa da crise, será apenas temporário, prevê o diretor do Instituto de Estudos de Política Econômica da Casa das Garças, Edmar Bacha. Mas Bacha alerta que, apesar de a primeira impressão apontar para cenário favorável para o Brasil, cuja economia permanece fortemente dependente das commodities, o impacto também poderá ser negativo.Em entrevista ao Estado, o economista, notabilizado pelo título de "pai do Plano Real", destaca que a demanda dos países asiáticos continuará pressionando os preços dos produtos. Ele cita o petróleo como a bola da vez entre as commodities brasileiras, mas critica o modelo para a exploração do pré-sal brasileiro, defendendo um incentivo à entrada de empresas estrangeiras no setor. No fim de dezembro, ele tratou detalhadamente do tema em análise escrita em coautoria com o brasilianista americano Albert Fishlow. Bacha ressalta as dificuldades do Brasil em aproveitar a onda de alta das commodities para promover o crescimento sustentável de sua economia. Isso pode conduzir a dois perigos: avanço da inflação e moeda supervalorizada. E também vai cobrar seu preço nas taxas de crescimento. "No longo prazo, não vejo como cresceremos mais de 4% (ao ano)", afirmou o economista.A tendência ascendente na procura e nos preços das commodities vai continuar? Sim. Estamos vivendo em uma era "asiocêntrica". Outro dia, li que o Fernando Henrique (ex-presidente da República, Fernando Henrique Cardoso) mencionou isso, usando outra palavra, "asiáticocêntrica". Não sei qual o termo mais correto, mas este conjunto de países asiáticos, com enormes populações e com renda recente, tem enorme escassez de recursos naturais. Mas esta tendência se sustenta mesmo se a China crescer menos? Não podemos nos esquecer que, depois da China, temos a Índia, com um terço da renda per capita da China, e que tem muito caminho para se expandir, com população superior a um bilhão de pessoas. Em que sentido isso poderia afetar preços no Brasil, e em outros mercados latino-americanos, no curto prazo? No curto prazo, a depender do que aconteça na Europa, pode ser que haja queda relativa dos preços em relação ao que eles alcançaram em meados de 2011. Podemos perceber que as commodities estão em queda neste período de aprofundamento da crise europeia, e de perspectiva de redução da taxa de crescimento da China. Mas isso é temporário. Como ocorreu com a oscilação de preços das commodities na crise em 2008? Havia, com a crise, a percepção de que aquele ciclo de crescimento nos preços das commodities iniciado no século 20 seria interrompido. Mas, em meados de 2010, houve recuperação dos preços. A inclinação da economia brasileira para commodities não poderia levar a uma gradual desindustrialização? Não acho que o perigo seja a desindustrialização. Acho que o perigo é que não saibamos administrar a riqueza dos recursos naturais que já temos. Uma riqueza que será maior no futuro com a exploração do petróleo na camada pré-sal. A questão, no nosso futuro imediato, é como vamos administrar isso sem cair na chamada "maldição dos recursos naturais", que outros países latino-americanos, como Venezuela e Argentina, caíram. Quando se tem uma riqueza súbita, que não é fruto do trabalho prévio ou da acumulação de capital, nem de melhora em recursos humanos, mas sim em função de descoberta de recursos minerais ou de aumento súbito de preços da produção agrícola, é uma benesse. E, quando você tem benesses, como sabemos de nossas experiências individuais, você pode decidir parar de trabalhar e gozar a vida, por assim dizer. Isso é um perigo. No Brasil, já temos miniexemplos disso. Existem estudos empíricos de prefeituras, que, beneficiadas por royalties do petróleo, tiveram desempenho muito pior do que outras sem esse benefício... Porque se acomodaram... Isso. Um grande exemplo mundial de uma postura como esta é a Nigéria, que teve dissipação da riqueza do petróleo por meio de corrupção extraordinária. E nesta disputa por royalties do petróleo no Brasil, o Lula (ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva) tem uma frase que eu gosto muito: que os Estados estão disputando o pirão antes de pescar o peixe. Mas se tudo continuar como está, e as commodities continuarem subindo, qual seria o impacto para a inflação doméstica? Bom, se você não faz a coisa certa, duas coisas ruins podem acontecer. Uma é a inflação. E outra é que, para prevenir a inflação, a moeda supervaloriza. E aí sim, se provoca desindustrialização indesejada. Você está forçando uma situação que não é sustentável em horizonte de médio prazo. E, na hora em que precisar da indústria de volta, ela não estará mais lá. A grande solução é usar esta oportunidade, de commodities em alta, para aumentar a taxa de poupança e investir não somente em infraestrutura; mas também na diversificação da economia, e na melhoria da educação. Porque então, em algum momento, teremos uma economia sólida que não dependeria mais somente de commodities. Temos exemplos, no mundo, desse tipo de postura, como Estados Unidos, Suécia, Finlândia. Hoje, estes países não têm dependência exclusiva de recursos naturais, mas utilizaram bem esses recursos para se desenvolver, via educação, tecnologia e poupança doméstica. O Brasil não tem administrado corretamente seus recursos naturais? Até o momento, acho que estamos indo bem. Mas o problema é que não estamos usando as oportunidades que foram criadas para aumentar a taxa de poupança no País. O perigo para o futuro é um cenário em que, quando ocorrer a exploração do petróleo do pré-sal, se gaste recursos de maneira desmedida, ao invés de usar esse dinheiro para preparar o País para o futuro. Isso conduziria a taxas de crescimento insatisfatórias na economia? Temos problemas sérios. A qualidade da educação é péssima. E nós somos um país muito pouco inovador. Além de tudo, a taxa de poupança do País é muito baixa. E estes são os três grandes ingredientes para o crescimento sustentável: poupança, tecnologia e educação. E não estamos desenvolvendo os três satisfatoriamente para podermos contemplar um futuro em que os nossos recursos naturais se tornem tão desimportantes para nós, quanto hoje eles o são para os Estados Unidos, por exemplo. Nos próximos anos, que setor poderia nortear crescimento no Brasil? O petróleo, com certeza. Mas eu sou muito crítico do modelo que o governo adotou para o setor. Há um ônus excessivo sobre a Petrobrás, que não está aguentando desenvolver os projetos que tem atualmente. E o governo está requerendo, em relação ao pré-sal, que a empresa esteja presente em todas as explorações com 30%, e seja a única operadora. Isso exige mais da empresa do que ela pode entregar. Os preços das ações da Petrobrás não param de cair, apesar de toda a riqueza que ela vai administrar. Ou seja, o mercado financeiro concorda com o que eu digo: que o governo impõe sobre a Petrobrás um ônus que ela é incapaz de administrar, ao invés de usar, de maneira inteligente, seu poder de regulação, permitindo que um número maior de empresas participe do pré-sal. Deveriam voltar para o modelo anterior, antes da descoberta do pré-sal, que dava ao governo controle suficiente. Com a participação maior de empresas estrangeiras no pré-sal? Não tem problema nenhum. Qual o problema? Elas iam operar sob nossas regras. Com o atual modelo brasileiro, qual a perspectiva? Do jeito que estamos indo, nossa economia está condenada a crescer sempre 4% ao ano. E, neste ano e no próximo, menos que isso. Mas no longo prazo, não vejo crescimento maior que 4%. Qual a sua proposta para disciplinar a gestão de recursos como o petróleo?Os bons exemplos de administração de recursos naturais hoje são Noruega e Chile. Esses dois países constituíram fundos soberanos, que não permitem sobrevalorização da moeda porque o dinheiro fica no exterior, e os governos usam apenas os rendimentos, e não o valor do principal dos fundos, para gastos. Gastos voltados para promoção de diversificação de atividades na economia. Poderia ser uma solução para o Brasil? Os royalties poderiam ser depositados em um fundo, cujo valor principal não seja utilizado a não ser em emergências, ou para se defender de períodos voláteis quando os preços caem subitamente. O Chile fez isso em 2008: gastou parte do fundo estudantil quando os preços do cobre diminuíram profundamente. O fundo está lá para isso e pode ser usado como componente anticíclico. Um instrumento que reduz impacto de volatilidade de preços, com recursos para promover outras atividades que diversifiquem a economia. Isso funcionaria com outras commodities além de petróleo, no Brasil? O petróleo é muito específico, porque gera renda em nível que não existe em outras atividades. O minério até poderia ser taxado. Mas a atividade agrícola é muito pulverizada e não gera esse tipo de renda extraordinária. Existem aqueles que querem taxar todas as commodities aqui no Brasil. Mas isso é uma besteira, é matar a galinha dos ovos de ouro. É o que a Argentina fez. E a Argentina é um exemplo patético de como, pela má administração de recursos naturais, se faz com que um país rico se transforme em um país pobre.

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