Economia e políticas públicas

Opinião | Trump: primeiros sinais da ofensiva comercial

Para economista Lia Valls, ainda há dúvida se aumentos de tarifas serão específicos ou generalizados. Brasil tem menos a temer no front tarifária, mas há outros problemas que podem surgir com o novo mandato de Trump.

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Foto do author Fernando Dantas

Para a economista Lia Valls Pereira, especialista em comércio internacional, ainda parece haver dúvidas dentro do governo Trump sobre se a prometida guerra comercial, especialmente em relação à China, se dará com aumento de tarifas de setores e produtos específicos, ou de forma generalizada.

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A Representação de Comércio dos EUA (USTR, em inglês) já foi instruída para identificar países e setores que estão prejudicando os interesses norte-americanos no comércio internacional.

Lia, pesquisadora associada do IBRE-FGV, recorda que, no primeiro mandato de Trump, esse processo, que normalmente antecede a imposição de medidas protecionistas por parte dos Estados Unidos, foi relativamente demorado. Por isso, agora, Trump informou que quer que a maioria dos resultados das investigações da USTR esteja pronta até o início de abril.

Segundo a pesquisadora, se houver a escolha de imposição generalizada de tarifas, Trump pode apelar para a Lei de Poderes Econômicos em Emergência Internacional (IEEPA).

Em relação ao Brasil, a guerra tarifária não parece ser uma preocupação tão grande quanto a de outros alvos já apontados pelo novo presidente dos EUA, como China, Canadá e México. Lia aponta (usando os números de 2023) que o Brasil, que tem um pequeno déficit comercial com os Estados Unidos, recebe 2,2% das exportações totais norte-americanas e é responsável por 1,3% das importações dos EUA.

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Entre os produtos que o Brasil exporta para os Estados Unidos, o que tem mais potencial de sofrer aumentos tarifárias, na visão de Lia, é o siderúrgico, no qual os produtores norte-americanos são conhecidos por sua capacidade de fazer lobby em prol de proteção contra a acirrada competição internacional.

Afora o aço (e, possivelmente, carnes), a economista assinala que a pauta de exportações do Brasil para os Estados Unidos é bastante variada, e inclui produtos, como petróleo, café e aviões, que não parecem em princípio estar no radar da ofensiva protecionista de Trump.

Mas a preocupação do Brasil com a nova era que se abre nos Estados Unidos, com o segundo mandato de Trump, não se limita à questão tarifária, lembra Lia. Mesmo dentro das ameaças geopolíticas recentes de Trump, como a relativa ao Canal do Panamá, a pesquisadora nota que o Brasil, como membro da OEA, certamente teria de confrontar os Estados Unidos diante de qualquer tipo de agressão ou ação mais direta contra outro membro da organização.

Trump também vem criticando o BRICS, grupo do qual o Brasil faz parte, com destaque para a iniciativa de reduzir o papel do dólar com moeda hegemônica do comércio internacional. O presidente dos EUA atacou especificamente esse último objetivo, ao qual o atual governo brasileiro deu destaque nos últimos tempos em termos de sua agenda internacional.

Lia aponta ainda, como possível incômodo a Trump, a aproximação do Brasil com a China, com 37 acordos assinados entre os dois países quando da visita recente de Xi Jinping. A pesquisadora nota que nesse pacote de acordos - parte significativa dos quais são memorandos de entendimento - chama a atenção a abertura do mercado de sorgo chinês ao Brasil. Sobretaxas chinesas na importação do produto a partir dos Estados Unidos foram impostas no primeiro mandato de Trump, como retaliação à ofensiva americana de guerra comercial. Agora, ao abrir seu mercado ao sorgo brasileiro, a China já pode estar se preparando para o novo ataque comercial norte-americano.

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Fernando Dantas é colunista do Broadcast e escreve às terças, quartas e sextas-feiras (fojdantas@gmail.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 21/1/2025, terça-feira.

Opinião por Fernando Dantas
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