Volume de serviços recua 0,3% em setembro e corrobora perspectiva de PIB mais fraco no 3º trimestre

Setor acumulou perda de 1,6% nos últimos dois meses de quedas consecutivas, eliminando parte da expansão de 2,2% vista entre maio e julho, segundo IBGE

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Por Daniela Amorim e Daniel Tozzi Mendes
5 min de leitura

RIO E SÃO PAULO - O setor de serviços manteve em setembro a tendência errática que vem exibindo ao longo do ano. O volume de serviços prestados no País recuou 0,3% em relação a agosto, após já ter diminuído 1,3% no mês anterior, segundo os dados da Pesquisa Mensal de Serviços divulgados nesta terça-feira, 14, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O resultado de setembro ficou próximo às estimativas mais pessimistas de analistas do mercado financeiro ouvidos pelo Projeções Broadcast, que previam desde uma queda de 0,4% a uma alta de 1,5%, com mediana positiva de 0,4%.

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O recuo em setembro corrobora a perspectiva de um desempenho mais fraco para o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro no terceiro trimestre, avaliou a XP Investimentos. Dados de indicadores antecedentes da atividade econômica compilados pela corretora indicam uma contração de 0,3% no PIB do período, fechando o ano com alta de 2,8%.

A economista Marcela Kawauti, da consultoria Pezco Economics, também espera um PIB próximo da estabilidade ou ligeiramente negativo no terceiro trimestre, mas avalia que o resultado não enseja preocupação à frente. O setor de serviços, que vinha sendo o principal responsável pela manutenção da atividade econômica em ritmo aquecido, está passando por um processo de acomodação, mas que acontece em um patamar bastante elevado, argumentou.

Restaurantes e salões de cabeleireiro são exemplos de estabelecimentos do setor de serviços Foto: DANIEL TEIXEIRA / ESTADÃO

“Tanto é assim que temos uma queda de 2,6% no nível dos serviços quando comparamos com dezembro de 2022, recorde da série histórica. Então o que vemos é uma acomodação, só um pouco menor que o nível de 2022, que foi um período de bastante estímulo à atividade”, justificou Kawauti.

A economista considera “natural” essa desaceleração da atividade econômica, dado o impacto defasado da política monetária contracionista, e vê chance de recuos no PIB tanto no terceiro quanto no quarto trimestres, o que configuraria um quadro de recessão técnica. “Mas se ocorrer, deve ser algo bem brando, com recuos muito próximos de 0,1%, por isso reforçamos que não enseja preocupação com a atividade”, ponderou a economista da Pezco, que mantém estimativa de alta de 3,3% para o PIB de 2023.

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O setor de serviços acumulou uma perda de 1,6% nos últimos dois meses de quedas consecutivas, eliminando parte da expansão de 2,2% vista entre maio e julho. Nos primeiros nove meses de 2023, na série com ajuste sazonal, o setor de serviços registrou expansão em cinco deles, recuando em quatro oportunidades: janeiro, -3,4%; fevereiro, 0,9%; março, 1,1%; abril, -1,8%; maio, 1,5%; junho, 0,1%; julho, 0,6%; agosto, -1,3%; e setembro, -0,3%.

Há predomínio de taxas positivas, mas as taxas negativas acabaram tendo magnitude maior, indicando perda de fôlego, avaliou Rodrigo Lobo, gerente da Pesquisa Mensal de Serviços do IBGE.

“Os serviços mostram, de fato, algum tipo de redução no ritmo frente ao final do ano passado”, reconheceu Lobo.

O pesquisador frisa que a redução de ritmo foi puxada pelos dois principais motores que impulsionaram o setor de serviços após o choque inicial da pandemia: transporte de cargas e tecnologia da informação.

No caso do transporte de cargas, a safra agrícola recorde no País turbinou o desempenho no primeiro semestre do ano, quando há maior movimentação de insumos e principais produtos colhidos, elevando assim a base de comparação para o segundo semestre. “O comércio eletrônico já não tem mais aquele vigor (dos meses de pandemia), e contribui menos para o transporte de cargas”, acrescentou.

Quanto à menor demanda por serviços de tecnologia da informação, Lobo explica que houve intensos investimentos de empresas nesse segmento durante a pandemia. Após uma espécie de adequação das companhias às suas necessidades de digitalização, a demanda por esse serviço se estabilizou em um patamar ainda elevado, porém inferior ao ápice da série histórica.

“A gente percebe um comportamento um tanto errático do setor de serviços em 2023, em função da perda de ritmo de alguns serviços”, resumiu Lobo, acrescentando que há uma base de comparação elevada. “Você crescer sobre um mês de base de comparação mais elevada é mais difícil.”

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Na passagem de agosto para setembro, três das cinco atividades de serviços registraram retração: serviços profissionais, administrativos e complementares (-1,1%), informação e comunicação (-0,7%) e transportes (-0,2%). Por outro lado, houve avanços nos serviços prestados às famílias (3,0%) e nos outros serviços (0,8%).

O crescimento nos serviços prestados às famílias foi impulsionado pelo salto de 16,3% no subsetor de outros serviços prestados às famílias, puxado pela realização de um grande festival de música em São Paulo, atribuiu o IBGE.

“Tem uma empresa selecionada na amostra da pesquisa que promoveu um grande espetáculo musical no período”, explicou Lobo, referindo-se ao festival The Town, no Autódromo de Interlagos. “Essa receita não aparece em São Paulo porque a empresa é sediada no Rio, e não em São Paulo”, acrescentou, justificando que o crescimento de receita mencionado foi então contabilizado no Rio de Janeiro, onde fica a sede da empresa.

Acima do pré-pandemia

Em setembro, o setor de serviços operava em patamar 10,8% superior ao de fevereiro de 2020, antes do agravamento da crise sanitária no País. O setor funciona 2,6% abaixo do pico registrado em dezembro de 2022, que foi o mais elevado da série histórica da pesquisa iniciada em 2011 pelo IBGE.

Os transportes estavam 5,0% abaixo do ápice visto em março de 2023, enquanto os serviços de informação e comunicação operavam 1,9% aquém do recorde de outubro de 2022. Os serviços profissionais, administrativos e complementares estavam 13,8% abaixo do ápice de março de 2012. O segmento de outros serviços estava 15,1% aquém do auge de janeiro de 2012, e os serviços prestados às famílias estavam 11,4% abaixo do pico de maio de 2014.

Lobo ressaltou que o setor de serviços é muito heterogêneo e diversificado, envolvendo tanto serviços prestados às famílias quanto a empresas, presenciais e remotos. Portanto, cada segmento pesquisado teria uma explicação diferente para a dinâmica de sua trajetória atualmente.

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“É preciso tomar cuidado com essa relação feita de forma simplista entre juros (altos) e serviços”, recomendou.

Segundo ele, a relação entre as taxas de juros e o setor de serviços não fica muito clara na média global dos serviços prestados.

“Porque ela (taxa de juros) estava em patamares elevados e não impediu que os serviços crescessem de forma consistente (após o choque provocado pela pandemia)”, argumentou Lobo, lembrando que os juros altos podem ajudar o desempenho dos serviços financeiros, deixando as famílias mais inclinadas a poupar, ao mesmo tempo em que retraem o consumo de serviços prestados às famílias, por exemplo.

O volume de serviços prestados no País recuou 1,2% em setembro de 2023 ante setembro de 2022, interrompendo assim uma sequência de 30 meses de taxas positivas consecutivas. O índice de difusão — que mostra o porcentual de serviços com crescimento em relação ao mesmo mês do ano anterior — passou de 50,6% em agosto para 47,6% em setembro, o primeiro mês abaixo de 50% desde março de 2021.

“Desde março de 2021 a gente não tinha predomínio de taxas negativas (na comparação com o mesmo mês do ano anterior)”, frisou Rodrigo Lobo.

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