PUBLICIDADE

Foto do(a) blog

O mundo gira aqui

Os impactos da ciência no desenvolvimento do Brasil

PUBLICIDADE

Foto do author Andrea Tissenbaum

 Foto: Jeswin Thomas, via Unsplash

Fomento à interação com cientistas de todo o mundo é fundamental para crescimento, geração de conhecimento, inovação  e inserção no ambiente global.

PUBLICIDADE

"Todos os avanços tecnológicos propiciados pela ciência tem um impacto imenso na economia. Conforme vamos nos tornando uma sociedade mais desenvolvida, temos mais acesso, produzimos conhecimento, e criamos infraestrutura mais adequada. A experiência com a produção das vacinas da COVID-19 é um excelente exemplo disso. Os pesquisadores, no processo de aprendizado, melhoram como seres humanos, têm subsídios para pensar e criticar o que está ao seu redor e prover melhorias. Na ciência o ato de discordar é básico".

A fala, do matemático Tiago Pereira da Silva, professor da Universidade de São Paulo, sem dúvida é contundente. De origem muito humilde, a ciência se encarregou de fazer o pesquisador viajar pelo mundo. Formado em física pela Universidade de São Paulo - USP, Tiago fez seu doutorado em dinâmicas não-lineares na Universidade de Potsdam, Alemanha. No período de pós-doutorado passou pelo Imperial College London, na Inglaterra, o Instituto de Matemática Pura e Aplicada no Rio de Janeiro, a Universidade Humboldt de Berlim, Alemanha, e o Centro Helmholtz para a Dinâmica da Mente e Cérebro, no mesmo país.

"O acesso ao conhecimento transforma a sociedade em um lugar melhor, mais crítico. Mas para desenvolver esse conhecimento, o relacionamento com o mundo é fundamental. Se ficamos ensimesmados, isolados, é difícil evoluir. É que o olhar de fora aponta para a qualidade do que estamos fazendo e impacta o nosso crescimento, produz um choque de realidade. No mês em que comemoramos o Dia da Ciência (8 de julho), o que acho mais espetacular é que ela não tem fronteiras", reforça o pesquisador.

Tiago também explica que apesar de termos um excelente treino, a matemática não é boa em todo o país porque o nível de conhecimento oscila muito. "Temos centros de excelência em varias instituições de ensino e fazemos um esforço grande com os medalhistas de matemática. No entanto há bolsões onde o domínio desse conhecimento deixa muito a desejar, impactando o desenvolvimento do aluno e, por conseguinte, o futuro da pesquisa".

Publicidade

Em outros países como a Alemanha, França e Estados Unidos, o acesso mais universal ao conhecimento científico e à sua produção estimula o interesse dos estudantes. A ciência é reconhecida como geradora de soluções para a vida cotidiana, um importante canal de respostas aos desafios atuais. Não é à toa que a chamada "STEM Education", focada nas ciências, tecnologia, engenharia e matemática é tão valorizada. A abordagem STEM não só promove a criatividade e o pensamento crítico, como motiva e inspira os jovens a usar o conhecimento adquirido para experimentar e inovar.

"Em 2013 e 2014 eu estava na Europa e nesse momento o Brasil estava bem, muitos pesquisadores que estavam fora voltaram. Hoje o clima é diferente, há grandes cortes de financiamento, os programas não tem bolsas de estudo. Apesar das principais agências estarem estão tentando combater essa situação por meio da internacionalização dos pesquisadores e seus projetos, a falta de perspectiva é grande. Os jovens, em início de carreira, estão sem direção, sem saber se serão absorvidos pelo mercado de trabalho".

Além de colocar em risco o desenvolvimento do país, a atual ausência de fomento à pesquisa científica produz um perigoso isolamento. Em um passado não tão distante, o Brasil enviava estudantes totalmente financiados para se aprimorarem no exterior. Sim, o universo acadêmico é internacional por premissa e sair da zona de conforto para se tornar competitivo no mundo de um modo geral, fundamental. Por todas essas razões, fomentos à pesquisa e ao processo de internacionalização são tão essenciais, eles estimulam nossa inserção no âmbito global. Se professores e pesquisadores se mantiverem nos lugares onde estudaram, não haverá mobilidade e troca de conhecimento, como em outras partes do mundo.

Tiago explica que conversar com outros pesquisadores, compartilhar o que você esta fazendo e ouvir o que eles pensam é chave para a evolução da nossa ciência. Sua experiência fora do Brasil trouxe um grande diferencial à sua vida. "Do lado pessoal eu vim de uma família pobre e consegui seguir carreira. Tenho claro que uma das poucas maneiras de você conseguir sair do lugar e transitar em novos ambientes ou grupos é a Educação. Aprendi outro idioma, a cada dia era exposto a algo novo, e ganhei uma visão diferente do mundo, afinal, os problemas do seu país são comuns a outros lugares. Do ponto de vista técnico, pude trabalhar com os melhores cientistas da minha área e me colocar em uma categoria profissional melhor. E, apesar de ser possível nos desenvolvermos estudando aqui, a interação com esse "mindset" (mentalidade) global é necessário para entender o que está acontecendo. Ela nos coloca em contato com o que os grandes cientistas estão fazendo e no que estão pensando".

A retomada aos incentivos para pesquisa e desenvolvimento científico é urgente. Uma internacionalização boa, facilita o acesso a grandes potencias de diferentes áreas e insere o Brasil no mapa do mundo, garantindo o compartilhamento de conhecimento. Trata-se de criar um "network" de cientistas sem fronteiras que não permite que as pessoas se isolem. "Você passa a fazer parte de uma rede, trabalhando com pessoas de outras origens e culturas, se reconhecendo na produção e projetos de outros profissionais".

Publicidade

Atualmente, Tiago está envolvido em um projeto interdisciplinar na USP, que envolve outros grupos de pesquisa com larga experiência internacional do IMPA, FGV, UFAL e Unicamp, no qual modelos matemáticos ajudam a otimizar distanciamento social na pandemia. O mecanismo de controle, permite simular quando, por quanto tempo e qual o nível de distanciamento deve ser implantado em cada localidade, a fim de evitar o colapso do sistema de saúde.

A pesquisa é apoiada pelo Instituto Serrapilheira, primeira instituição privada, sem fins lucrativos, de fomento à ciência no Brasil, criado para valorizar o conhecimento científico e aumentar sua visibilidade. No intuito de fomentar uma cultura de ciência no país, o instituto atua em duas frentes: Ciência e Divulgação Científica.

Andrea Tissenbaum, a Tissen, escreve sobre estudar fora e a experiência internacional. Também oferece assessoria em educação e carreiras internacionais

Entre em contato: tissenglobal@gmail.com

Siga o Blog da Tissen no Facebook e Twitter.

Publicidade

 

 

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.