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Como ‘7 a 1′ e ‘gol da Alemanha’ viraram expressões populares

Frases bradadas dramaticamente por Galvão Bueno ganharam a boca do povo em tom jocoso após vexame da seleção na Copa de 2014, no Mineirão

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Foto do author Bruno Accorsi
Atualização:

Perder por 7 a 1 para a Alemanha em casa, na semifinal da Copa de 2014, foi um choque para o torcedor brasileiro. O espanto, contudo, logo foi substituído pela troça de um povo acostumado a rir de si. O “lá vem eles de novo” bradado por Galvão Bueno durante a narração da partida e o “todo dia um 7 a 1 diferente” utilizado para lamentar diversos tipos de situações, inclusive políticas, ganharam a boca do povo com a ajuda da internet. É comum também o uso irônico de “mais um gol da Alemanha”.

Tais expressões foram forjadas em um clima que unia frustração desportiva e tensão política, enquanto a influência das redes sociais no mundo real crescia em ritmo alucinado. “Tem muito a ver com o momento, não só esportivo, também político e econômico do Brasil. A gente não estava passando por um período muito alvissareiro neste sentido. Tudo se somou, e tem o fato de a gente viver uma era digital, das redes sociais, isso foi muito divulgado. As redes sempre têm esse tom humorístico, jocoso, o que ajuda isso a virar piada, meme”, afirma Marcel Tonini, doutor em História Social pela USP e pesquisador do Museu do Futebol.

'Gol da Alemanha' virou expressão popular após o 7 a 1. Foto: Wilton Junior/Estadão

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Era o ano da eleição presidencial que iniciou a nova polarização brasileira, construída pela insatisfação de uma parcela da população com o governo petista de Dilma Rousseff. Movimentos nascidos durante os protestos de junho de 2013 começavam a se organizar e davam tom a outras manifestações, inclusive contra a realização da Copa do Mundo no País, por causa dos gastos públicos com o evento.

No fim de 2014, Dilma venceria Aécio Neves (PSDB), cujos eleitores iniciaram o movimento de apropriação da camisa da seleção brasileira como símbolo político durante as eleições. Depois da reeleição da petista, os apoiadores de Aécio, vestidos de amarelo, foram às ruas protestar contra o governo, e entre eles havia figuras como Ronaldo Fenômeno, exibindo em sua camisa a frase “A culpa não é minha, eu votei no Aécio.”

“O futebol funciona como uma espécie de palco, uma teatralização. A gente consegue verificar muitas de nossas aflições e contradições no futebol. É por isso que essas expressões vão aparecendo de maneira mais irônica, brincalhona, ou não, como a atual relação com a camisa da seleção brasileira”, comenta Flávio de Campos, coordenador do Núcleo Interdisciplinar de Pesquisas sobre Futebol e Modalidades Lúdicas (LUDENS) da USP.

“2013 e 2014 foram momentos muito interessantes do ponto de vista da construção de elementos que saíram do âmbito do futebol, viraram brincadeira, como ‘isso aí é um 7 a 1′, virou uma expressão, mas há outros elementos muito mais dramáticos, como quando a torcida cantava o hino a capela em tom de protesto, já estava virando um movimento da classe média brasileira”, conclui.

O contexto político ajudou as frases do 7 a 1 a caírem na boca do povo, mas não foi só isso que causou essa reação. Não é raro que expressões do mundo do futebol deixem o gramado e passem a ser utilizadas no cotidiano. Só com a palavra “bola”, os exemplos são muitos: bola fora, pisar na bola, bater um bolão, show de bola, entre outros. Ao passar perto de conseguir um objetivo e falhar, dizem “bati na trave”. Quando alguém é excluído ou esquecido, ficou para escanteio.

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“O futebol adquiriu um caráter popular e massivo no Brasil ao longo dos anos, de uma forma secular. É fruto de pesquisas das mais variadas áreas, já foram elaborados dicionários sobre futebol para trazer o significado dessas expressões em diferentes contextos, inclusive. Por se tratar de um esporte extremamente popular no mundo, especialmente aqui no Brasil, as expressões facilmente caem na boca das pessoas, e elas vão, inclusive, ganhando novos significados ao longo do tempo”, diz Tonini.

Torcida brasileira teve de usar o senso de humor para lidar com trauma do 7 a 1. Foto: Wilton Junior/Estadão

Pós-Maracanazo não teve o senso de humor do 7 a 1

A forma que o brasileiro lida com o 7 a 1 e os impactos socioculturais do resultado são opostos ao modo como foram vividos os anos depois do Maracanazo, como ficou conhecida a derrota para o Uruguai na final da Copa de 1950, no Maracanã. O revés intensificou o que Nelson Rodrigues chamou de complexo de vira-latas do povo brasileiro, no sentido de uma nação que se vê como inferior ao restante do mundo.

Naquela época, o Brasil ainda não era campeão do mundo e, como sede da Copa, esperava vender a ideia de “país do futuro”. A própria construção do Maracanã, erguido justamente após o País ser escolhido para sediar o evento, estava ligada ao desejo de mostrar um nação moderna e capaz. O então presidente da Fifa, Jules Rimet, chegou a comparar o estádio ao Coliseu, como forma de elogio por sua grandeza. A sensação do fracasso em campo, portanto, transcendeu o esporte e gerou consequências profundas.

“Até 1950, as duas potências da América do Sul eram Argentina e Uruguai tanto Uruguai. O Brasil estava tentando se firmar, precisava de uma conquista internacional de peso maior que Sul-Americanos, que Uruguai e Argentina tinham muito mais. Os uruguaios já tinha uma Copa. O Maracanazo tem um sentimento de frustração maior, de um país que ainda não havia conseguido ser reconhecido”, diz Campos.

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“Esperava-se que a vitória esportiva confirmasse a modernidade do Brasil, a pujança econômica, nesse ufanismo de que temos o maior estádio do mundo, né. O Brasil ainda ficou discutindo a derrota, sobretudo a derrota da nação. Então, somos um país que não tem futuro? Virou o oposto do que se esperava. Inclusive, em termos de composição da população, em termos raciais, o que antes era visto como algo positivo, voltou com uma carga racista muito grande: ‘somos um país miscigenado que não tem futuro’”, acrescenta Tonini.

Assim como no pós-7 a 1, originaram-se expressões ligadas ao jogo traumático, mas com conotação mais pesada. O ‘16 de julho’, data da realização da partida, por exemplo, era utilizado na imprensa esportiva como sinônimo de “grande derrota”. Já o ”Maracanazo”, termo mais conhecido, só começou a aparecer mais tarde, depois que pesquisadores tiveram acessos a jornais uruguaios e argentinos nos quais a palavra era mencionada para se referir ao título do Uruguai.

“Eu não sei dizer se é populares também se valiam dessa expressão, mas a ideia de ver os uruguaios como fantasmas, 1950 como uma tragédia, é como o uso da expressão 16 de julho se originou. Foram feitas pesquisas justamente para mostrar como gente tratava 1950 de uma outra maneira e como se trata hoje. Hoje, a gente vai falar de 1950 e sempre se refere como Maracanazo, mas por muito tempo a gente usou a expressão 16 de julho”, explica Tonini.

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