Âncoras afegãos colocam máscara em solidariedade a colegas mulheres

Foto: EFE/EPA/STRINGER

Ordem do Taleban às apresentadoras faz parte de um pacote de regras mais amplas que exigem que todas as mulheres do Afeganistão se cubram da cabeça aos pés

Por Miriam Berger
Atualização:

THE WASHINGTON POST - Após o Taleban ordenar que todas as apresentadoras de TV cobrissem o rosto enquanto estivessem no ar, colegas do sexo masculino passaram a adotar máscaras faciais em protesto.

A ordem do Taleban às âncoras da TV que entrou em vigor no sábado faz parte de um pacote de regras mais amplas que exigem que todas as mulheres do Afeganistão se cubram da cabeça aos pés. Se recusar a cumprir essas normas pode ser perigoso para as afegãs.

“Estamos profundamente tristes hoje”, disse Khpolwak Sapai, vice-diretor da ToloNews do Afeganistão, em um post no Facebook no domingo, um dia após o decreto do Taleban entrar em vigor.

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Bakhtiar, apresentador da Tolo TV, passou a usar máscara em solidariedade às colegas obrigadas a cobrir o rosto. Foto:  EFE/EPA/STRINGER
Bakhtiar, apresentador da Tolo TV, passou a usar máscara em solidariedade às colegas obrigadas a cobrir o rosto. Foto: EFE/EPA/STRINGER  Foto: EFE/EPA/STRINGER

Ele compartilhou fotos de funcionários masculinos e femininos sentados juntos em um escritório cheio de telas, todos usando máscaras pretas.

É um ato simples, mas que pode custar caro sob o Taleban. O grupo extremista chicoteou, espancou e deteve jornalistas arbitrariamente desde que retomou o poder em todo o país em agosto.

A comunidade internacional se recusou a reconhecer formalmente o governo taleban por causa de seu mau tratamento às mulheres, bem como sua repressão a minorias religiosas e liberdades políticas.

O Taleban, citando uma interpretação fundamentalista da lei islâmica, proibiu as mulheres de viajar sem guardiões do sexo masculino e limitou o acesso de mulheres e meninas à educação e ao emprego.

Mas à medida que a economia do Afeganistão continua a desmoronar e suas crises humanitárias crescem, os líderes do grupo têm pedido aos doadores internacionais que se reengajem e enviem ajuda, argumentando que eles mudaram desde a última vez em que estiveram no poder, na década de 90.

No entanto, essa mensagem é refutada por um decreto emitido em 7 de maio ordenando que as mulheres se cubram da cabeça aos pés enquanto estiverem em público - como era exigido quando o Taleban governou pela última vez - de acordo com um comunicado da missão das Nações Unidas no Afeganistão.

“Esta decisão contradiz inúmeras garantias sobre respeito e proteção de todos os direitos humanos dos afegãos, incluindo os de mulheres e meninas, que foram fornecidas à comunidade internacional por representantes do Taleban.”

A princípio, o decreto não se aplicava ao grupo de mulheres jornalistas do Afeganistão que atingiram a maioridade nas duas décadas de liberdades florescentes após a expulsão inicial do Taleban.

Mas na quinta-feira, o Ministério do Vício e da Virtude do Taleban disse que estava estendendo a decisão para incluir apresentadoras e âncoras a partir de 21 de maio. O ministério disse à agência Reuters que as máscaras cirúrgicas podem contar como cobertura facial.

No sábado, as âncoras de notícias se recusaram brevemente a obedecer. Mas no domingo, elas estavam apresentando as notícias com o rosto coberto depois que o Taleban aumentou a pressão sobre as empresas de mídia, informou a Tolo News.

“Fui chamado ao telefone ontem e me disseram em palavras estritas para fazer isso”, disse Sapai, da Tolo News, à agência France Presse. “Então, não é por escolha, mas pela força que estamos fazendo isso.”

O Taleban já havia exigido que as mulheres tivessem a cabeça coberta com um véu enquanto estivessem no ar.

“Tudo bem sermos muçulmanos, usarmos hijab, escondermos o cabelo, mas é muito difícil para um apresentador cobrir o rosto por duas ou três horas consecutivas e falar assim”, disse Farida Sial, apresentadora da Tolo News, à BBC. “Eles querem apagar as mulheres da vida social e política”, acrescentou.

Fotos de jornalistas afegãos, homens e mulheres, usando máscaras circularam online sob a hashtag inglesa #freeherface.

“A regra viola descaradamente os direitos das mulheres à liberdade de expressão, bem como autonomia pessoal e crença religiosa”, disse a Human Rights Watch, com sede em Nova York, em comunicado na segunda-feira.

O ex-presidente afegão Hamid Karzai disse à CNN na sexta-feira que as apresentadoras de televisão devem se recusar a cumprir a regra, pois “não é uma tradição afegã”.

Desde a tomada do poder pelo Taleban, cerca de 230 meios de comunicação fecharam e mais de 6,4 mil jornalistas perderam seus empregos, de acordo com uma pesquisa de dezembro da Repórteres Sem Fronteiras e da Associação de Jornalistas Independentes do Afeganistão. As jornalistas mulheres foram as mais atingidas, com 1 em cada 4 deixando de trabalhar.

Os Estados Unidos estão em “diálogo” sobre direitos de gênero com Amir Khan Muttaqi, ministro das Relações Exteriores do governo liderado pelo Taleban, disse o representante especial dos EUA para o Afeganistão, Thomas West, em um tuite no sábado.

West disse que ele e Rina Amiri, a enviada especial dos EUA para mulheres, meninas e direitos humanos afegãos, conversaram com Muttaqi no sábado e “transmitiram uma oposição internacional unificada às restrições contínuas e crescentes sobre os direitos e o papel das mulheres e meninas na sociedade”.

Âncora da Tolo TV Khatereh Ahmadi, assim como outras jornalistas afegãs, passou a apresentar as notícias com o rosto coberto. Foto: Ebrahim Noroozi/AP
Âncora da Tolo TV Khatereh Ahmadi, assim como outras jornalistas afegãs, passou a apresentar as notícias com o rosto coberto. Foto: Ebrahim Noroozi/AP Foto: Ebrahim Noroozi/AP

Washington retirou suas últimas tropas do Afeganistão em 30 de agosto, duas semanas depois de o Taleban assumir o controle de Cabul.

“Acredite em mim, perdemos nosso caminho”, disse Benazir Baktash, uma apresentadora de televisão local de 26 anos em Cabul, ao The Washington Post após o anúncio de 7 de maio.

O Taleban está “ocupado com questões muito pequenas, e há muitas outras coisas a serem feitas pelo país”, disse ela. “Eles deveriam tomar decisões para diminuir a pobreza e ajudar as pessoas a encontrar empregos.”

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