Às vésperas das eleições, empresários colombianos ameaçam demitir trabalhadores que votarem em Petro

Foto: RAUL ARBOLEDA
Por Redação

O esquerdista Gustavo Petro lidera as pesquisas de intenção de votos para as eleições de 29 de maio; observadores eleitorais apontam pressão de empresários

Por Redação

BOGOTÁ - A menos de duas semanas das eleições na Colômbia, a organização de observação eleitoral do país pediu que as autoridades investiguem as denúncias de empresários que estariam coagindo seus funcionários a votarem em candidatos de sua preferência. No caso de maior repercussão, um empregador ameaçou demitir os trabalhadores que votassem no candidato da esquerda, Gustavo Petro, que lidera as intenções de voto.

Na última terça-feira, 17, a Missão de Observação Eleitoral (MOE) - iniciativa formada por organizações não-governamentais, grupos indígenas e sindicatos para observar as eleições - publicou uma nota denunciando “atos criminosos de algumas empresas” frente às eleições de 29 de maio.

“Em vista das denúncias recebidas de irregularidades por algumas empresas e seus empregadores, em relação ao voto livre, nós da Missão de Observação Eleitoral Regional Bogotá rejeitamos o ato criminoso e apelamos às autoridades para que procedam às respetivas investigações e sanções”, escreveu. A entidade descreveu três casos em que foram reportadas irregularidades.

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Empregadores dizendo que, se um determinado candidato vencer, encerrarão as atividades e deixarão todos desempregados. Empregadores que prometem impedir os empregados de ir votarem no domingo da eleição. Proselitismo político a favor de um candidato no local de trabalho.

O candidato presidencial colombiano pelo Pacto Historico, de esquerda, Gustavo Petro
O candidato presidencial colombiano pelo Pacto Historico, de esquerda, Gustavo Petro Foto: Luisa Gonzalez/Reuters

O caso mais emblemático foi o do empresário e um dos fundadores do partido governista Centro Democrático Sergio Araújo Castro que ameaçou demitir os funcionários que votassem por Petro.

“Meus trabalhadores possuem plena autodeterminação e têm o direito de votar livremente em quem quiserem. Mas também tenho plenos direitos sobre minhas empresas, portanto, um funcionário que vote no Petro não se encaixa no meu esquema de negócios e simplesmente precisa sair”, escreveu no Twitter na última segunda-feira, 16, despertando reações de repúdio.

Imediatamente, usuários passaram a apontar indícios de crime eleitoral na fala do empresário. Castro “está confessando abertamente a prática do crime de coação ao eleitor, o qual é punível com pena entre 4 e 9 anos de prisão”, escreveu a congressista pelo partido de centro-esquerda Allianza Verde Cathy Juvinao. O que Castro respondeu com “criminosos não trabalham comigo. Ponto”.

Gustavo Petro respondeu à postagem: “Não, senhor Sérgio, um funcionário que vota em mim não precisa ser demitido de sua empresa porque se for o caso, você comete um crime contra a liberdade do eleitor e o direito político fundamental de escolha.”

Castro é um dos fundadores do Partido do Centro Democrático, juntamente com o ex-presidente Álvaro Uribe, e foi um de seus diretores. Em 2018, ele apoiou o atual presidente Iván Duque durante a campanha presidencial, quando este enfrentou Petro.

O próprio já foi candidato a prefeito e ao Senado, apoiado por Uribe, mas não alcançou o cargo. Ele renunciou ao partido em 2021.

A nota da Missão de Observação Eleitoral pontua que a coação é considerada um crime eleitoral, bem como impedir que trabalhadores possam ir votar e fazer propagandas políticas em local de trabalho. “Reiteramos que o sufrágio livre deve ser respeitado e em hipótese alguma pode ser restringido, e convidamos os cidadãos colombianos a continuar denunciando este e outros crimes e irregularidades eleitorais”, finaliza.

Ainda nos últimos dias, Castro continuou defendendo a sua posição afirmando ser parte da “liberdade de expressão”. “Existe uma figura chamada demissão sem justa causa que implica indenização. É prerrogativa do empregador e é lícito”, disse.

Outros casos

Em outra publicação no Twitter, a também congressista pelo Allianza Verde Katherine Miranda publicou uma carta assinada por Sergio González Villa, o gerente de uma cooperativa de laticínios em que convidava seus trabalhadores a votarem contra “um mal chamado mudança”, mas sem apontar candidatos específicos.

A carta, no entanto, possuía as mesmas cores utilizadas na campanha de Federico Gutiérrez Zuluaga, ex-prefeito de Medellín e candidato pelo Creemos Colombia. “Num ato de responsabilidade com o país que nos permitiu fazer negócios e crescer como seres livres, geradores de trabalho e bem-estar para milhares de pessoas, venho até você como Associado e Trabalhador da Cooperativa para pedir sentido nas próximas eleições presidenciais”, escreveu.

Em entrevista a uma rádio local, o empresário disse que a carta não faz referência a nenhum candidato em específico e não é uma posição oficial da empresa. Sobre as cores, Villa disse que foi a equipe de comunicação que colocou e não associou a um candidato.

Semanas antes, o dono de uma empresa de moda Mario Hernandez declarou apoio em Federico Gutiérrez e garantiu que concede aos seus trabalhadores total liberdade para escolher o voto. Porém, dias depois, ele postou um vídeo nas redes em que trabalhadores de um campo de golfe carregavam sacolas com slogans de campanha de seu candidato.

Ele questionava em quem eles votariam, o que responderam “Fico”, apelido de Federico Gutiérrez. O empresário ainda questionava o motivo deles votarem em Fico, o que eles hesitam em responder “pela mudança”, e Hernandez completa: “Para que haja trabalho, haja liberdade e haja democracia.”

O jornal espanhol El País ainda aponta o caso de um gerente de uma empresa de couro que fez um discurso no qual desenhava aos funcionários um cenário catastrófico caso Petro seja eleito.

Petro é o favorito nas disputas

Apesar de haver caído alguns pontos percentuais nas últimas pesquisas de intenções de voto, o candidato Gustavo Petro mantém a liderança com 41% dos apoios, segundo pesquisa daempresa Invamer divulgada nesta sexta-feira, 20.

Seguido pelo direitista Federico Gutiérrez, que tem 27,1% das intenções, Petro se afasta da possibilidade de obter mais de 50% dos votos necessários para evitar uma votação em 19 de junho com o segundo maior número de votos.

O candidato que mais cresceu na reta final da corrida presidencial foi o independente Rodolfo Hernández, engenheiro de 77 anos e ex-prefeito de Bucaramanga. Hernández passou de 13,9% para 20,9% na intenção de votar, embora outras pesquisas registrem um aumento ainda maior que o colocaria muito perto do segundo lugar.

Em todos os cenários, Petro é projetado como vencedor do segundo turno. A pesquisa, que consultou 2 mil pessoas entre 13 e 18 de maio, tem margem de erro de 1,5%.

Se vencer, Petro será o primeiro esquerdista a governar a Colômbia com a promessa de mudar a tradição política de um país historicamente governado por elites liberais e conservadoras.

Sua campanha exigiu na segunda-feira uma auditoria externa do software que será usado nas eleições, dadas as inconsistências na contagem preliminar nas últimas eleições legislativas de março que, em princípio, subtraíram cerca de 400 mil votos da coalizão de esquerda, diferença corrigida posteriormente no escrutínio.

É a terceira vez que o ex-prefeito de Bogotá concorre à presidência, em 2018 perdeu a votação para Duque.

Gutiérrez, que aspira a uma coalizão de forças de direita, partidos tradicionais e evangélicos, na qual se conta o partido no poder, pediu a formação de uma frente comum para impedir a ascensão política de Petro.

As eleições ocorrerão em meio a um ressurgimento da violência que castiga cerca de 290 dos 1.200 municípios do país, segundo a Ouvidoria.

Recentemente, a campanha do esquerdista denunciou um suposto atentado a Petro, levando-o a cancelar sua agenda de campanha. Nas redes, ele denunciou que a suspensão dos atos foi motivada por planos para assassiná-lo./Com informações da AFP



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