Crítica da Guerra na Ucrânia, premiê da Estônia quer fim de diálogo com Putin

Foto: Toms Kalnins/EFE/EPA

Kaja Kallas viveu repressão soviética e vê mesma brutalidade contra Kiev

Por Steven Enlanger

THE NEW YORK TIMES - Kaja Kallas, agora com 44 anos, cresceu na União Soviética, que anexou seu país, a Estônia, após a 2ª Guerra.

Ela se lembra da ocupação soviética e de uma visita a Berlim Oriental em 1988, quando tinha 11 anos – seu pai lhe disse para “respirar o ar da liberdade” de Berlim Ocidental. E ela se lembra das histórias de 1949, quando sua mãe, Kristi, então bebê, foi deportada para a Sibéria em um vagão de gado com sua avó e bisavó e viveu lá, no exílio, até os 10 anos – parte do esforço de Moscou para acabar com a elite da Estônia.

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Talvez não seja de se admirar que Kallas, agora primeira-ministra da Estônia, tenha se tornado uma das vozes mais duras da Europa contra a Rússia por sua guerra na Ucrânia.

Junto com a Letônia e a Lituânia – países também anexados pela União Soviética – a Estônia é uma das menores e mais vulneráveis nações da Europa. Mas a história recente desses países deu a eles posição e credibilidade especiais para pressionar seus irmãos europeus maiores a adotar uma linha dura contra o presidente russo, Vladimir Putin, e apoiar a Ucrânia em sua luta pela liberdade.

Em uma entrevista concedida em Tallinn, capital da Estônia, Kallas deixou claro que o destino da Ucrânia deve ser decidido pelos ucranianos. Mas simplesmente pedir a paz com Putin seria um erro neste estágio, ela acredita, uma forma de recompensa por sua agressão. Ela argumenta vigorosamente que a Rússia deve ser vista como uma perdedora, para que a história não se repita em outros lugares.

Assim como os soviéticos não apenas ocuparam, mas também anexaram a Estônia, Letônia e Lituânia – e assim como os russos anexaram a Crimeia em 2014 – Moscou, Kallas e outros alertam, fará o mesmo com grandes partes do sul e leste da Ucrânia se tiver a chance, com graves consequências.

“A paz não pode ser o objetivo final”, disse ela. “Tivemos paz após a 2ª Guerra, mas as atrocidades contra nosso povo começaram ou continuaram”, disse ela, citando deportações em massa, assassinatos de membros da elite do país e tentativas de “apagar nossa cultura e nossa língua”.

Nos territórios da Ucrânia ocupados pelos russos, “veremos tudo isso”, disse ela. Portanto, argumenta, “uma paz que permita que a agressão valha a pena” é inaceitável.

Mesmo entre os obstinados líderes bálticos, Kallas, uma advogada, recebeu muitos elogios por suas advertências de que a invasão russa da Ucrânia marca um ponto de virada na história europeia e deve ser derrotada a todo custo e sem concessões.

Kallas tornou-se a primeira primeira-ministra da Estônia em janeiro de 2021, depois de atuar como legisladora nos parlamentos estoniano e europeu. Ela lidera o Partido Reformista, o maior do país, desde 2018. Seu pai, Siim Kallas, também foi primeiro-ministro e depois comissário europeu.

De cima para baixo, os premiês da Estônia, Kaja Kallas, Letônia, Krisjanis Karins, e Lituânia, Ingrida Simonyte se preparam para encontro em Riga, Letônia
De cima para baixo, os premiês da Estônia, Kaja Kallas, Letônia, Krisjanis Karins, e Lituânia, Ingrida Simonyte se preparam para encontro em Riga, Letônia Foto: Toms Kalnins/ EFE

Ela presidiu um governo de coalizão que forneceu apoio inicial à Ucrânia e mais apoio per capita, da pequena nação de 1,3 milhão de pessoas, do que qualquer outro país do mundo.

Kallas tem sido uma dura crítica dos esforços contínuos de outros líderes, como Emmanuel Macron, o presidente da França, para manter contatos com Putin enquanto a Ucrânia luta por sua soberania e existência como Estado independente.

Ela enfatizou que apenas o governo ucraniano e seu presidente, Volodmir Zelenski, deveriam negociar com Putin, que ela considera um criminoso de guerra.

“A conversa tem de acontecer entre Zelenski e Putin, porque eles fazem parte da guerra e sua pele está em jogo”, disse ela. Os ucranianos “são os únicos que podem dizer qual é o seu espaço de manobra”, disse ela, “porque são eles que sofrem”.

Primeira-ministra da Estônia, Kaja Kallas, em entrevista coletiva em 22 de abril; para ela, ucranianos devem decidir sobre diálogo com Rússia. Foto: TOMS KALNINS/EFE
Primeira-ministra da Estônia, Kaja Kallas, em entrevista coletiva em 22 de abril; para ela, ucranianos devem decidir sobre diálogo com Rússia. Foto: TOMS KALNINS/EFE  Foto: TOMS KALNINS/EFE

Há alguns na Europa, incluindo importantes executivos de negócios, que querem que a guerra na Ucrânia termine o mais rápido possível, devido aos fortes aumentos nos preços da energia, grãos, óleo de cozinha e inúmeros outros itens que levam a uma inflação recorde, em parte causada pelas duras sanções da Europa à Rússia.

Mas Kallas tem pouca paciência para tal pressão sobre a Ucrânia, especialmente porque apenas os ucranianos estão lutando pelo que ela considera os valores e a segurança de toda a aliança transatlântica.

De qualquer forma, ela disse, por que falar com Putin só para conversar? “Não vejo sentido em conversar com ele porque nada saiu disso”, disse ela. “As ligações estavam acontecendo antes mesmo da guerra, e então o pior aconteceu, Bucha e Mariupol aconteceram, não houve resultados.”

Se houver uma solução diplomática, disse ela, “é claro que isso cabe à Ucrânia dizer”. E até agora, ela disse, Putin se recusou a falar com Zelenski.

Ela elogiou a unidade ocidental até agora e o aumento do fornecimento de armas para a Ucrânia, após um início lento. “Mas enquanto a guerra continuar, não fizemos o suficiente e temos que ver o que mais podemos fazer”, disse.

Um acordo parcial que permita à Rússia renovar sua ofensiva mais tarde não é sustentável, disse ela. “Só vejo uma solução como uma vitória militar que pode acabar com isso de uma vez por todas, e também punir o agressor pelo que ele fez.” Caso contrário, ela disse, “voltamos para onde começamos – você terá uma pausa de um ano, dois anos e então tudo continuará”.

Esse tem sido o erro do Ocidente com Putin há anos, disse ela, citando a guerra na Geórgia em 2008, a anexação da Crimeia e a guerra no Donbas que está em andamento desde 2015.

Ela reconhece que Zelenski “está em uma posição muito difícil”. Por um lado, “você é o líder do país e vê o sofrimento do seu povo, você quer que isso pare”. Mas, por outro, “você tem a opinião pública dizendo que a Ucrânia está ganhando esta guerra e que não deve dar nenhum território à Rússia”.

Encontrar o equilíbrio será difícil, disse ela, mas cabe a Zelenski fazê-lo. “Cabe à Ucrânia decidir onde estão seus limites”, ninguém mais, disse.

É importante que a União Europeia e a Otan mantenham a porta aberta para a Ucrânia, disse ela, dados os já notáveis sacrifícios que fez para proteger os valores e interesses ocidentais. Os ucranianos conquistaram o direito de provar que podem se qualificar, disse ela, e o Ocidente “não deve ser intimidado por nada que a Rússia esteja dizendo ou ameaçando”.

Kallas citou Lennart Meri, o primeiro presidente da Estônia após o colapso da União Soviética, que disse que “a Europa não é uma geografia – é um conjunto de valores e princípios”. Portanto, “se a Ucrânia escolheu esse caminho e está literalmente lutando por isso, não é sábio afastar esse país”.

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