Na capital da Somália, dentista cria sozinho único serviço de ambulância de graça

Foto: Malin Fezehai/The New York Times
Por Abdi Latif Dahir

Cansado de ver vítimas carregadas em carrinhos de mão, ele usou suas economias para comprar veículos para fazer o transporte de pacientes

Por Abdi Latif Dahir

THE NEW YORK TIMES - No caminho de ida e volta do trabalho em uma clínica odontológica, o dr. Abdulkadir Abdirahman Adan ficou escandalizado com uma cena demasiadamente comum: somalianos mortos ou gravemente feridos sendo transportados para os hospitais em carrinhos de mão de madeira.

Isso foi em 2006, na capital da Somália, Mogadíscio, quando forças do governo estavam envolvidas em uma guerra brutal contra combatentes islâmicos que deixou milhares de mortos e um número muito maior de mutilados na onda de violência.

Continua após a publicidade

Continua após a publicidade

O dr. Adan, que tinha acabado de voltar à cidade após um período de estudos no exterior e aberto sua clínica odontológica no maior mercado aberto da cidade, sentiu-se impotente diante do derramamento de sangue. Mas pensou que poderia fazer algo para ajudar as vítimas ainda vivas a obter tratamento mais rapidamente, e para garantir que os mortos fossem tratados com dignidade. “Perguntei a mim mesmo, ‘como posso ajudar meu povo?’”, disse em entrevista no seu consultório.

Seu primeiro passo foi modesto: alugou um miniônibus, pintou-o de azul e branco, cores da bandeira da Somália, pagando aos proprietários alguns dólares por dia pelo transporte dos feridos até a segurança. As pessoas telefonavam para o dr. Adan ou para os celulares dos donos do ônibus, direcionando-os para quem deles necessitava. Mas essa abordagem só era capaz de ajudar um punhado de vítimas por dia, e a violência na cidade não parava de se intensificar. “Pensei que as coisas melhorariam, mas a situação só piorava”, disse.

Homem investiu toda sua poupança nos veículos

Em questão de meses, o dr. Adan investiu toda a sua poupança – cerca de US$ 2.400 – na compra de uma van, com algum financiamento adicional proporcionado por uma campanha organizada por ele pedindo aos universitários que doassem US$ 1 para salvar uma vida. E assim teve início a Ambulância Aamin: o primeiro e, até hoje, único serviço gratuito de ambulância operando na capital, com mais de 3 milhões de habitantes.

Abdulkadir Abdirahman Adan atende paciente em sua clínica em Mogadíscio, capital da Somália
Abdulkadir Abdirahman Adan atende paciente em sua clínica em Mogadíscio, capital da Somália Foto: Malin Fezehai/The New York Times

Dezesseis anos mais tarde, a Ambulância Aamin – em somali, “Aamin” significa “confiança” – agora conta com uma frota de 22 veículos e uma equipe de 48 motoristas, enfermeiros, paramédicos, operadores de rádio e seguranças. “Quem precisar de uma ambulância pode nos chamar, atendemos 24 horas por dia”, disse o dr. Adan, de 48 anos. “E o serviço é gratuito.”

Desde a fundação da Ambulância Aamin, foram poucos os períodos prolongados de paz em Mogadíscio, com o grupo terrorista Al Shabab, ligado à Al-Qaeda, realizando ataques frequentes.

O mais mortífero deles ocorreu em 2017 – um atentado usando dois caminhões-bomba que matou 587 pessoas –, mas o grupo ainda é uma ameaça constante. Na semana passada, o presidente americano, Joe Biden, autorizou o envio de centenas de soldados americanos ao país em uma missão de combate ao terrorismo.

Os funcionários da Ambulância Aamin são frequentemente os primeiros a chegar no local de um ataque, muitas vezes minutos após a explosão de uma bomba. “Quase sempre chegamos antes da polícia”, disse o dentista.

Isso significou que o dr. Adan e sua equipe são frequentemente os primeiros a serem procurados por jornalistas que buscam confirmar o número de vítimas e checar os fatos da ocorrência.

Mas essa velocidade também expõe a equipe ao risco: às vezes o Shabab detona um segundo explosivo na área de um ataque, com o objetivo específico de atingir as equipes de ajuda.

O enfermeiro Abdulkadir Abdullahi, que trabalha para a Aamin, já viu uma explosão desse tipo durante a retirada de feridos. “Quando pensamos que já é seguro, descobrimos que estamos enganados”, disse Abdullahi.

A resposta a ataques terroristas está longe de ser a única missão do serviço. Também é feito o transporte de crianças doentes, gestantes em trabalho de parto, vítimas de acidentes e quem mais precisar de atendimento urgente. Por meio da linha direta no número 999, a equipe atende mais de 35 chamadas por dia.

O grupo também participa de campanhas de saúde pública, incluindo a divulgação de informações a respeito da covid-19 e a oferta de treinamento em primeiros socorros. TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

Encontrou algum erro?Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Publicidade