‘É preciso uma mudança social’, diz psiquiatra sobre o apoio para mães puérperas

Foto: Pixabay

Depois de anos de envolvimento com a paternidade e maternidade à distância, é hora de uma psiquiatra especializada em saúde mental feminina seguir seu próprio conselho

Por Dra Pooja Lakshmin

Depois de anos de envolvimento com a paternidade e maternidade à distância, é hora de uma psiquiatra especializada em saúde mental feminina seguir seu próprio conselho.

Não sou alguém que sonhou com a maternidade quando menina. Muito pelo contrário. Aos 30 e poucos anos, tive um pesadelo recorrente em que estava grávida sem saber e o feto parecia um parasita invadindo meu corpo.

Crescer na cultura do sul da Ásia, que valoriza a gestação e as responsabilidades maternais das mulheres acima de tudo, foi um dos motivos do meu medo. Eu também me divorciei no final dos meus 20 anos. Ser mãe não parecia estar no meu destino e eu estava bem com isso.

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Apesar dessas experiências de vida, tornei-me uma médica especializada em saúde mental materna. Depois de minha residência em psiquiatria e da escolha de me concentrar na psiquiatria perinatal, minha terapeuta sugeriu gentilmente que minha decisão talvez fosse um mecanismo de enfrentamento saudável - uma maneira de eu “experimentar” a maternidade a uma distância confortável. Havia algo me puxando para perto da maternidade, mas o papel não parecia seguro para mim - até agora.

Atualmente, estou grávida de 34 semanas. Estou chegando à maternidade aos 38 anos. Meu parceiro e eu tivemos o privilégio de fazer essa escolha de nos tornar pais mais tarde, usando a tecnologia de reprodução assistida para conceber. E sei que minha carreira e experiências de vida me proporcionaram uma melhor compreensão do que eu tinha medo e a capacidade de me preparar melhor para a maternidade.

"Ambivalência na maternidade é normal", diz psiquiatra especialista em puerpério.
"Ambivalência na maternidade é normal", diz psiquiatra especialista em puerpério. 

A ambivalência sobre a maternidade é normal

Em termos psicanalíticos, pode-se dizer que estive “em conflito” por muitos anos. Na vida cotidiana, muitas vezes também chamamos isso de “ambivalência” - a sensação de ter duas emoções contraditórias ao mesmo tempo.

No trabalho, ajudei minhas pacientes a buscar alívio da depressão e da ansiedade pós-parto, com o auxílio de psicoterapia e, às vezes, medicação. Simultaneamente, vi minhas amigas passarem pelo caos da maternidade precoce. Em um caso, uma amiga da faculdade me visitou em meu minúsculo apartamento em Washington, D.C., e ficamos reféns do horário de cochilo de seu filho em um grau cômico, incapazes de entrar no meu quarto ou acender as luzes por 48 horas.

Eu me perguntava por que alguém iria querer passar por tantas dificuldades. Eu conhecia os dados e escrevi sobre as dificuldades da maternidade - ter um filho nos Estados Unidos não era uma proposta atraente para mim.

Mas eu ainda queria manter minhas opções em aberto. Aos 35 anos, meu parceiro e eu nos consultamos com um especialista em fertilidade para discutir sobre o congelamento de meus óvulos. Ele e eu aprendemos que o sucesso do congelamento de óvulos era mais difícil de prever em uma mulher de 30 e poucos anos. Para a maior probabilidade de sucesso em conceber aos 30 e poucos anos, precisaríamos não apenas congelar embriões, mas também testá-los geneticamente - o que é mais caro e demorado do que congelar óvulos.

Foi durante o ano de pesquisa sobre como congelar meus óvulos e fazer embriões que comecei a perceber os aspectos positivos da maternidade em meu trabalho clínico. Eu havia cuidado de pacientes suficientes para ver que mesmo aquelas que sofriam de transtornos perinatais graves de humor e ansiedade melhoravam com o tratamento. Em uma sessão, uma paciente que havia experimentado um episódio depressivo durante a gravidez descreveu o prazer que sentiu quando sua filha agarrou seus dedos pela primeira vez e, mais tarde, reconheceu seu rosto e começou a balbuciar. Ao testemunhar essas mulheres absorvendo os prazeres da maternidade apesar dos tempos sombrios, fiquei menos temerosa e mais curiosa sobre como me sentiria no papel.

Logo depois, meu parceiro e eu começamos a tentar ter um bebê. Depois de sete tediosos meses, engravidei, apenas para ter um aborto espontâneo no primeiro trimestre no Dia de Ação de Graças em 2020. A perda foi emocional e fisicamente dolorosa, mesmo com um bom sistema de apoio.

Mas olhando para trás, a parte que se destaca para mim foi o quão feliz eu estava por estar grávida por aquelas poucas semanas. Essa alegria inesperada me deu clareza de que estávamos fazendo a escolha certa.

Como eu tinha 37 anos na época, decidimos fazer a fertilização in vitro e, após cerca de um ano de injeções de hormônios e vários procedimentos médicos, engravidei novamente. O bebê que agora cresce dentro de mim não parece um parasita ou um alienígena e toda vez que sinto um chute, tenho um choque de excitação.

Mas isso não significa que minha ambivalência desapareceu. Minha carreira exige que eu me dedique ao meu trabalho de uma maneira muito singular. Quando eu for mãe, não terei esse luxo.

Estou conhecendo a próxima versão de mim

Recentemente, passei uma hora do meu sábado tentando encontrar lençóis de bebê que se encaixassem no berço de nossa lista de presentes. Por que os produtos para bebês não são padronizados? Esse foi mais um exemplo da carga mental da maternidade, postei no Instagram.

Recebi um fluxo de recomendações sobre os “melhores” lençóis de bebê para comprar. Em vez de alívio, me senti enfurecida - as respostas só provaram ainda mais o meu ponto. A pressão para realizar a maternidade, pesquisar todos esses produtos e mostrar que você se importa com cada pequeno detalhe pode parecer opressiva, sem contar que em casais heterossexuais cisgêneros, essa expectativa geralmente é reservada para as mães.

Durante a transição para a maternidade, precisei seguir alguns dos meus próprios conselhos.

Crie o hábito de gastar energia mental consigo mesma

Em vez de decorar um quarto de bebê ou ler livros para pais, estou usando esse tempo para priorizar meu bem-estar, sabendo que todas as escolhas que faço a serviço da minha própria saúde mental ajudarão esse bebê. Tendo sofrido anteriormente de depressão e ansiedade, estou em alto risco de um transtorno de humor pós-parto. Manter a medicação, dormir o suficiente e criar uma rede de apoio social são três intervenções baseadas em evidências para prevenir a ansiedade e a depressão pós-parto. Estou tomando preventivamente um inibidor seletivo de recaptação de serotonina durante a gravidez (com o acompanhamento de meus médicos). Também contratei uma doula pós-parto e entrei em contato com um fisioterapeuta do assoalho pélvico para auxiliar minha recuperação. Colocar tempo e recursos em minha própria saúde mental não é egoísta - é o que mais importa.

No entanto, sou extremamente afortunada: tenho um parceiro que me apoia e um seguro de saúde que me permite consultar um terapeuta e faço parte de uma família com duas rendas estáveis. Meus amigos próximos, todos com filhos, até se ofereceram para fazer uma lista de presentes para o bebê. O que me leva ao meu segundo ponto.

Reconhecer a necessidade de mudança sistêmica

Muitas famílias não estão em posição de privilégio para fazer as escolhas que tenho disponíveis para mim durante este período vulnerável. A intervenção aparentemente simples de garantir que eu consiga dormir um pouco como uma nova mãe está fora do alcance de muitos em um país onde menos de 5% dos pais tiram mais de duas semanas de licença e uma em cada quatro mães retorna ao trabalho em duas semanas. As mulheres negras e latinas têm ainda mais dificuldade em obter apoio à saúde mental no início da maternidade.

Como escrevi no passado, precisamos de uma ampla mudança social. Por exemplo, um estudo sueco descobriu que, quando os pais recebiam licença-paternidade flexível remunerada, houve uma redução de 26% na prescrição de medicamentos contra a ansiedade para mães no pós-parto.

Dito isso, ao lado da luta pela mudança social, pequenas escolhas podem ajudá-la a ter uma sensação de controle ao viver em um sistema desigual. O peso da maternidade é muito grande para carregar por conta própria. Diga sim quando amigos ou familiares oferecerem refeições em seu pós-parto em vez de recusar a ajuda por reflexo. Estabeleça limites no tempo que você gasta pesquisando produtos e, em vez disso, coloque essa energia em atividades que sirvam ao seu bem-estar.

Abra-se para a emoção diante do medo

O dia de meu parto está se aproximando e ainda passo tempo na terapia falando sobre minha apreensão. Estou chegando à maternidade armada com o conhecimento do que acontece quando as coisas dão terrivelmente errado e com as ferramentas para me manter emocionalmente saudável. Eu sei que serei transformada pela experiência. Às vezes eu apenas questiono se vou gostar da nova versão de mim mesma.

Talvez eu tenha medo de quanto amor possa sentir por esse bebê, diz minha terapeuta. Talvez ela esteja certa. Estou apavorada e animada para conhecer esta próxima versão de mim mesma, da mesma forma que estou apavorada e animada para conhecer nosso filho.

A Dra Pooja Lakshmin é uma psiquiatra certificada pelo conselho especializado em saúde mental da mulher e professora assistente clínica na Faculdade de Medicina da Universidade George Washington. Ela é a fundadora e CEO da Gemma, uma plataforma de educação digital focada na saúde mental, impacto e equidade das mulheres, e autora de um livro sobre a tirania do autocuidado a ser publicado em 2023. /TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES

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