Modern Love: Da Rússia com sentimentos contraditórios

Foto: Brian Rea

Implorei ao meu marido para sair de Rostov do Don. Agora eu daria tudo para estar lá com ele

Por Melani Robinson

THE NEW YORK TIMES - LIFE/STYLE - Dezessete anos atrás, meu marido e eu moramos por um tempo em Rostov do Don, na Rússia, que ficava a uma curta distância de carro da fronteira de Mariupol, na Ucrânia, a cidade que atualmente está sendo dizimada pelas forças russas.

Vendiam cerveja em carrinhos na rua perto do nosso prédio e, muitas noites, enquanto esperava meu marido voltar do trabalho, eu ficava na nossa varanda do 11º andar e gritava “Svinya” (porco) para os homens abaixo. Não para todos os homens, é claro, apenas para os barulhentos e bêbados que cambaleavam para longe da multidão para se aliviar na parede do prédio adjacente.

Quando as únicas lembranças de um casamento são um período ruim vivido a dois.
Quando as únicas lembranças de um casamento são um período ruim vivido a dois.  Foto: Brian Rea/The New York Times

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Morávamos em uma rua bem conservada com árvores maduras, grama cortada e calçadas de pedra onde as pessoas se reuniam ao entardecer para socializar, beber e passear. Meu marido, Neal, e eu planejamos morar lá por cinco anos enquanto ele implementava um modelo de varejo americano em uma grande empresa russa.

Foi também onde fiz a transição de uma mulher independente para alguém que monitorava o xixi público enquanto esperava um homem.

Seis meses antes, o empregador anterior de Neal nos EUA, onde ele era um alto executivo, havia eliminado seu cargo. Ele ficou atordoado por estar desempregado e ser responsável pelas mensalidades da faculdade de seus dois filhos de seu primeiro casamento, pagamentos de pensão alimentícia, dívidas de divórcio, além de uma nova esposa recentemente desempregada: eu. Também estava abalada, pois tinha acabado de vender minha casa, largado meu emprego e me mudado de uma costa para outra para ficar com ele. Nós vivemos separados nos primeiros dois anos de nosso relacionamento.

Quando Neal descreveu a oferta de emprego, ele enfatizou a grande recompensa monetária no final, dizendo: “Estaremos bem”.

A Rússia não era um lugar que eu imaginava começar meu casamento, mas entendi que a necessidade de Neal de trabalhar era dupla: sua carreira tinha sido a validação de seu valor, e tínhamos contas a pagar.

Nosso avião pousou perto da meia-noite e na manhã seguinte, Neal começou a trabalhar como se tivesse algo a provar. Doze a 14 horas por dia, sete dias por semana tornou-se seu padrão enquanto eu comecei a explorar Rostov do Don sozinha. Poucos moradores falavam inglês, e eu falava mal algumas palavras em russo, e era provavelmente por isso que os caixas me olhavam de forma estranha quando eu perguntava “Skolka” (quanto), e lhes entregava um bloco de notas e uma caneta para anotar a quantia em rublos. O alfabeto cirílico era assustador, mas os números eram os mesmos.

Nos primeiros dois meses li os 15 livros que levei na mala para a Rússia e teria saboreado cada página se soubesse que os livros em inglês eram escassos e o acesso à internet em nosso prédio era esporádico. No começo, eu me forçava a sair da cama todas as manhãs para me movimentar em nosso apartamento silencioso, limpando as coisas que havia limpado no dia anterior. Por alguns meses, eu não me incomodei.

Certa tarde, fui ao supermercado, esqueci meu bloco de notas e voltei para pegá-lo. Achei a administradora do prédio em nosso apartamento, vasculhando as gavetas da cômoda. Apesar de sua expressão inicial de surpresa, ela me respondeu bruscamente enquanto explicava que era uma inspeção de rotina no apartamento. Enquanto eu descrevia furiosamente o incidente para Neal naquela noite, ele colocou o cotovelo na mesa da cozinha, descansou a palma da mão sob o queixo e cochilou.

Solitária, isolada e sem rumo, eu ansiava por companhia, mas nossas conversas no jantar rapidamente se tornaram meus monólogos.

“Desculpe, amor, mas eu falo o dia todo”, disse Neal enquanto empurrava sem entusiasmo seu frango assado favorito ao redor do prato. O frango no forno foi a única coisa produtiva que fiz naquele dia, e eu disse a ele que sua falta de apetite era sádica.

A administradora do prédio insinuou que eu deveria me sentir honrada porque nosso novo vizinho era o chefe dos Cossacos. Eu tinha tantas perguntas, mas presumi que os uniformes haviam sido atualizados. Eu atualizava Neal regularmente. Descrevia com que frequência o vizinho estava em casa, a nuvem de fumaça pungente que seu cigarro deixava em nosso saguão compartilhado e a maneira como ele entrava e saía de seu apartamento como um fantasma. Quando semanas se passaram e eu não o vi, exceto pelo olho mágico, disse a Neal que nosso vizinho estava me evitando.

“Você fica tempo demais sozinha. Muito, muito tempo,” ele disse no mesmo tom calmo que uma vez eu o ouvi usar para persuadir nosso gato em pânico, Emmitt, a voltar para dentro depois que ele escapou dos laços da vida doméstica.

“Vamos para casa”, eu disse.

Em vez disso, ele sugeriu que eu trabalhasse com ele, lidando com tarefas de recursos humanos, principalmente. O trabalho me mantinha ocupada, mas havia uma ansiedade palpável irradiando dos funcionários, e eu não precisava de um tradutor para entender o porquê.

O dono da empresa tinha um estilo que alguns poderiam dizer que criava uma atmosfera tóxica no local de trabalho. Por exemplo, depois de receber um relatório desfavorável durante uma reunião, ele se levantou e ficou gritando obscenidades, além de arremessar seu laptop pela janela de vidro da sala de conferências do segundo andar.

Falei novamente com Neal sobre ir embora. Ele queria esperar um pouco.

Quando meu marido começou a assumir as operações do dia-a-dia, o dono da empresa deslocado muitas vezes me chamava ao seu escritório para iniciar novos projetos. Às vezes, ele mudava a conversa enquanto se perguntava em voz alta por que eu queria trabalhar quando podia viajar pelo país ou passar o tempo como sua esposa fazia, aproveitando os muitos sanatórios próximos (que, nos antigos estados soviéticos, são como spas com tratamentos médicos) .

Ocasionalmente ele insinuava que eu tinha uma opinião desfavorável de sua empresa e dele. Ambos são verdade, mas eu nunca tinha contado a ninguém, exceto ao meu marido, em particular.

Foi o inverno mais frio em décadas no que descobrimos ser uma das partes mais quentes do país. Os canos do nosso prédio congelaram e estouraram sobre o elevador, tornando-o inutilizável. Todas as noites subíamos 11 lances de escadas de cimento gelado até nosso apartamento, muitas vezes carregando água engarrafada pois tínhamos sido aconselhados a beber esse tipo de água e cozinhar com ela.

Podíamos ver nossa respiração dentro de casa enquanto nos aconchegávamos no sofá sob camadas de cobertores. A sala de estar ficava laranja por conta dos quatro aquecedores elétricos portáteis que comprei quando nossos radiadores pararam de funcionar. Assistíamos ao único canal que tínhamos em inglês: Animal Planet. Meerkat Manor foi a nossa grande noite.

Pouco antes de dormir, tomávamos banho juntos, pois nosso aquecedor de água dava para apenas um banho. Neal saía primeiro, com o vapor saindo de seu corpo, e vestia uma roupa de baixo térmica. Ele abria uma toalha, eu entrava nela e me enxugava rapidamente. Enquanto eu vestia calças de flanela, ele segurava outra toalha sobre meus ombros, e enquanto eu abotoava a parte de cima, ele pegava os chinelos e os colocava nos meus pés.

Para dormir, tínhamos almofadas de aquecimento sob as cobertas, dois edredons de plumas e três cobertores de lã. Eu sempre dizia a mesma coisa quando ele enrolava seu corpo no meu antes de adormecer: “Eu te amo” e depois “Temos que sair daqui”.

Estávamos lá há mais de um ano quando o dono da empresa novamente mencionou minha opinião negativa sobre ele. Mas nessa ocasião, ele me repetiu exatamente o que eu havia dito: “Você acha que sou cruel, inseguro e que tenho ciúmes de Neal”.

Quando ele sorriu e acenou com a cabeça, senti uma onda de adrenalina ao perceber sua capacidade de me citar com precisão. Neal também se convenceu de que o apartamento que sua empresa forneceu havia sido grampeado pela própria empresa depois que o dono repetiu as exatas palavras depreciativas que Neal me disse sobre ele enquanto estávamos sozinhos em casa.

Esse foi o golpe final. Finalmente estávamos de acordo: era hora de ir embora.

Voamos da Rússia para Nova York para o que chamamos de férias, mas Neal tinha agendado duas entrevistas de emprego. A primeira parada nos Estados Unidos foi uma consulta com seu ortopedista para a dor ciática relacionada ao estresse que muitas vezes surgia, mas desta vez não havia diminuído.

Depois de muitos exames, incluindo uma tomografia, tivemos um diagnóstico que tornou todo o resto insignificante. Era um câncer com metástase para os ossos da parte inferior das costas. Neal começou o tratamento, mas a doença rapidamente se espalhou para o fígado e os pulmões.

Ele morreu quatro meses depois.

Eu tinha certeza, desde o momento em que vi Neal pela primeira vez em um bar do aeroporto de Pittsburgh, que passaria minha vida com ele. Com a mesma certeza, acreditei que nosso tempo na Rússia se reduziria a apenas um pontinho em nossa vida juntos, uma lembrança ruim no espelho retrovisor. Imaginei brindes e risos nas festas de aniversário de um casamento que sobreviveu ao nosso começo difícil.

Em vez disso, essas memórias que eu desejava diminuir representam a maior parte de nossa história. Aquela cidade então em ruínas que eu queria tão desesperadamente deixar, em um país que agora é o pária do mundo, tornou-se, para mim, um lugar de saudade - de poder passar um dia, uma hora, ou mesmo apenas mais um momento ali com Neal. /TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES

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