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Por que as autocracias fracassam; leia a análise de David Brooks

Em autocracias, decisões com frequência são tomadas dentro de um pequeno e restrito círculo. Fluxos de informação são deturpados pelo poder. Ninguém fala para o homem no comando o que ele não quer escutar

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Por David Brooks

THE NEW YORK TIMES - Joe Biden argumenta corretamente que a luta entre democracia e autocracia é o conflito que define nosso tempo. Então, qual sistema desempenha melhor sob pressão?

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Ao longo dos últimos vários anos, as autocracias pareceram ter tido vantagem. Na autocracia, o poder é centralizado. Líderes são capazes de responder a desafios rapidamente, deslocar recursos decisivamente. A China mostrou que autocracias são capazes de produzir prosperidade em massa. A autocracia avançou globalmente, e a democracia segue em declínio.

Em democracias, por outro lado, o poder é descentralizado, com frequência polarizado e paralítico. O sistema político americano ficou desacreditado e disfuncional. Um pretenso autocrata local conquistou a Casa Branca. Acadêmicos escreveram livros populares com títulos do tipo “Como as democracias morrem”.

Ainda assim, as semanas recentes têm sido reveladoras. Ficou claro que, quando se trata das funções mais importantes do governo, a autocracia apresenta fraquezas graves. Não é hora de triunfalismo democrático; é hora de analisar realisticamente a inépcia do autoritarismo e sua possível instabilidade. Quais são essas fraquezas?

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, faz discurso nacionalista em estádio lotado em Moscou. Foto: Ramil Sitdikov/ AFP

A sabedoria de muitos é melhor do que a sabedoria de megalomaníacos. Em qualquer sistema, uma característica essencial é: Como flui a informação? Em democracias, a formulação de políticas é normalmente feita, em maior ou menor medida, em público e milhares de especialistas apresentam fatos e opiniões. Muitos economistas afirmaram no ano passado que a inflação não seria um problema, mas Larry Summers e outros afirmaram que seria — e provou-se que eles estavam certos. Ainda cometemos erros, mas o sistema aprende.

Em autocracias, decisões com frequência são tomadas dentro de um pequeno e restrito círculo. Fluxos de informação são deturpados pelo poder. Ninguém fala para o homem no comando o que ele não quer escutar. O fracasso da inteligência russa em relação à Ucrânia foi estarrecedor. Vladimir Putin não tinha nenhuma ideia a respeito da vontade do povo ucraniano, não sabia como os ucranianos lutariam e nem como seu próprio Exército estava arruinado por corrupção e cleptocratas.

As pessoas almejam grandes realizações. Os seres humanos de hoje querem viver vidas plenas, ricas e aproveitar totalmente seu potencial. O ideal político liberal é que as pessoas devem ser livres o quanto possível para construir seu próprio ideal. Autocracias restringem a liberdade em nome da ordem. Por isso, muitos dos melhores e mais brilhantes russos estão fugindo da Rússia agora. O embaixador americano no Japão, Rahm Emanuel, aponta que Hong Kong está sofrendo uma devastadora fuga de cérebros. Segundo noticia a Bloomberg, “Os efeitos da fuga de cérebros em áreas como educação, assistência médica e até mesmo finanças deverão ser sentidos pelos moradores nos próximos anos”. Instituições americanas possuem agora quase tantos pesquisadores de alto nível em inteligência artificial vindos da China quanto naturais dos Estados Unidos. Quando têm chance, pessoas talentosas rumam para onde jaz a plenitude.

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O executivo vira gângster. Quem ascende na autocracia serve implacavelmente à firma, à burocracia. Essa implacabilidade o faz consciente de que outros poderão ser ainda mais implacáveis e manipuladores, então ele se torna paranoico e despótico. E com frequência personaliza o poder, para que ele seja o próprio Estado, e o Estado seja ele. Qualquer dissidência é tomada como afronta pessoal. Ele pode praticar o que estudiosos classificam como “seleção negativa”. Ele não contrata os mais inteligentes e mais qualificados, essas pessoas podem ser ameaçadoras. Ele contrata os mais obtusos e medíocres. E forma um governo de incapazes (vide os comandantes do Exército russo).

O etnonacionalismo é autoinebriante. Todo mundo cultua algo. Numa democracia liberal, o culto à nação (que é particular) é equilibrado com o amor aos ideais políticos liberais (que são universais). Com o desaparecimento do comunismo, o autoritarismo perdeu uma grande fonte de valores universais. Glória nacional é perseguida com fundamentalismo inebriante.

'Sabemos o que precisamos fazer, como fazer e a que custo. E vamos cumprir absolutamente todos os nossos planos', disse Putin sobre a invasão à Ucrânia. Foto: EFE/EPA/Ramil Sitdikov/ Sputnik

“Acredito na passionaridade, na teoria da passionaridade”, declarou Putin no ano passado. Ele continuou: “Temos um código genético infinito”. A passionaridade é uma teoria criada pelo etnologista Lev Gumilyov, que sustenta que cada nação possui um nível próprio de energia mental e ideológica, um espírito expansionista próprio. Putin parece acreditar que a Rússia é excepcional em front após front e está “em marcha”. Esse tipo de nacionalismo tresloucado ilude as pessoas, fazendo-as perseguir ambições muito além de sua capacidade.

Governar contra o povo é uma receita para o declínio. Líderes democráticos, pelo menos em teoria, servem aos seus eleitores. Líderes autocráticos, na prática, servem ao seu próprio regime e à sua longevidade no poder, mesmo que isso signifique negligenciar seu povo. Thomas Bollyky, Tara Templin e Simon Wigley ilustram como a expectativa de uma vida melhor diminuiu em países que viraram autocracias recentemente. Um estudo sobre mais de 400 ditadores de 76 países, de Richard Jong-A-Pin e Jochen Mierau, constatou que, a cada ano que a idade do ditador aumenta, o crescimento do país diminui 0,12%.

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Quando a União Soviética caiu, soubemos que a CIA havia superestimado a economia soviética e o poderio militar soviético. É simplesmente difícil demais administrar uma sociedade grande por meio de um poder centralizado.

Para mim, a lição é que, mesmo ao confrontarmos autocracias até aqui bem-sucedidas, como a China, deveríamos aprender a ser pacientes e confiar no nosso sistema democrático liberal. Ao confrontarmos agressores imperiais, como Putin, deveríamos confiar nas maneiras que estamos respondendo agora. Se constantemente, pacientemente e implacavelmente intensificarmos a pressão econômica, tecnológica e política, a fraqueza inerente ao regime crescerá cada vez mais. / TRADUÇÃO DE GUILHERME RUSSO

*David Brooks é colunista do The New York Times e autor dos livros “The Road to Character” e “The Second Mountain”.

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