Republicanos dobram aposta em guerras culturais

Foto: Thom Bridge/Independent Record via AP

Conservadores exploram teorias sobre gênero, orientação sexual e raça para ganhar votos

Por Annie Linskey

THE WASHINGTON POST - Os republicanos acreditam que encontraram uma vantagem nas guerras culturais. Durante suas campanhas, estão se mobilizando contra debates sobre a teoria crítica da raça e identidade de gênero nas escolas. Nas legislaturas estaduais e por meio de decretos executivos, eles estão tentando limitar procedimentos médicos para crianças transgênero e punindo grandes empresas que consideram politicamente corretas demais.

Eles obtiveram sucesso ao transformar em arma o movimento da esquerda de retirar financiamento da polícia, que advoga por realocar recursos para limitar o poder policial. E eles já estão acusando o presidente, Joe Biden, de atender às elites com nível universitário ao considerar o perdão das dívidas estudantis.

Em disputas de primárias anteriores às eleições de meio de mandato, marcadas para novembro, os candidatos republicanos estão travando batalhas contenciosas sobre gênero, orientação sexual e raça, em vez de promover os ataques já testados e aprovados, criticando inflação ou se valer dos baixos índices de aprovação de Biden.

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Muitos afirmam que esses temas ampliarão sua coalizão por afastar eleitores da classe trabalhadora socialmente conservadores. Esse foco ocorre no mesmo momento que um possível desmantelamento dos direitos ao aborto, um dos temas mais ardorosos das guerras culturais, pode vir a se tornar uma conquista emblemática para a direita. Um rascunho de decisão da Suprema Corte mostrou que, após meio século de ativismo, o tribunal parece disposto a anular o direito ao aborto nacionalmente.

“Ambos os partidos podem acabar do lado errado em relação a questões culturais”, afirmou Tony Fratto, estrategista político republicano, que foi subsecretário de imprensa da Casa Branca durante o governo do ex-presidente George W. Bush. “O ponto em que estamos neste ciclo é: os democratas se inclinaram ainda mais para a esquerda e parecem irracionais para o centro.”

Direitos LGBTQ

Os democratas argumentam que os republicanos já foram longe demais na outra direção, particularmente ao atacar direitos LGBTQ, que contam com amplo apoio do público, e ao banir livros de bibliotecas. Alguns conservadores reconhecem que o aborto é neste momento um tema complicado para as eleições de meio de mandato, e vários republicanos minimizaram, na semana passada, a decisão pendente da Suprema Corte. Mas inúmeros candidatos republicanos indicaram que continuarão a apelar firmemente para as guerras culturais no último trimestre.

“Seguimos comparecendo às brigas da guerra cultural armados com um belo discurso organizado em fichas”, declarou Mehmet Oz, um dos líderes nas primárias do Partido Republicano para a disputa pelo Senado da Pensilvânia, durante encerramento de um debate realizado semana passada.

“Temos de nos aprofundar nesses temas. Os progressistas estão dominando nossos meios de comunicação, eles controlam grande parte do governo, os escritórios corporativos são dominados pela ideologia ‘lacradora’, assim como nossas universidades.”

Democratas

Alguns democratas, enquanto isso, afastam-se explicitamente dessas lutas. “Você quer guerra cultural? Não sou seu candidato”, afirmou o deputado Tim Ryan em um vídeo publicado pouco antes dele vencer as primárias do Partido Democrata, em Ohio, para a disputa do Senado federal – um vídeo no qual ele também criticou a ideia de retirar o financiamento da polícia. “Você quer um lutador por Ohio? Estou dentro.”

JD Vance, o republicano que enfrentará Ryan em novembro, injetou uma dose pesada de ressentimento cultural em seu discurso de vitória nas primárias, na semana passada. Minutos depois de conquistar a nomeação republicana, ele reclamou que o Partido Democrata “se ajoelha para as corporações americanas e seus valores ‘lacradores’” e previu que os eleitores de Ohio se sentirão alienados pela esquerda.

Em uma breve entrevista enquanto fazia campanha no município de West Chester, em Ohio, Vance criticou a política identitária que, segundo ele, os políticos democratas estão defendendo. “A ênfase em raça, gênero e orientação sexual por parte da esquerda é uma distração que divide eleitores, que deveriam se unir contra a intenção de poderosos interesses em impedir a prosperidade das classes menos favorecidas”, afirmou Vance.

“Com muita frequência, o que é definido como diversidade, equidade e inclusão é, na realidade, uma desculpa para empobrecer o povo americano”, disse Vance ao Washington Post. Ele notou que os democratas celebram o fato de Janet Yellen ser a primeira mulher a chefiar a Secretaria do Tesouro, em vez de debater se as ideias dela ocasionaram ou não inflação.

Cenário sombrio

Pesquisas retratam um cenário sombrio para os democratas a respeito de muitos alicerces da guerra cultural. Setenta e um por cento afirmam estar “muito” ou “extremamente” preocupados com a imigração ilegal, segundo pesquisa recente da Fox News, enquanto 73% afirmam estar “muito” ou “extremamente” preocupados com “o que é ensinado nas escolas públicas”, de acordo com a sondagem.

“A noção de guerra cultural na política americana remonta à resistência sulista à integração”, afirmou o professor de história Sean Wilentz, da Universidade Princeton, que se estendeu sobre a estratégia de Richard Nixon de atender a eleitores brancos insatisfeitos dos Estados do Sul.

“Isso é muito eficaz”, afirmou Wilentz. “Eles têm aperfeiçoado isso desde sempre, valendo-se de todo tipo de ressentimentos sociais, ressentimentos culturais, ressentimentos de classe e ressentimentos regionais. Trata-se de uma política de mobilização de ressentimentos.”

Conservadores exploram teorias sobre gênero, orientação sexual e raça para ganhar votos
Conservadores exploram teorias sobre gênero, orientação sexual e raça para ganhar votos Foto: Lucy Nicholson / REUTERS

O envolvimento dos democratas com políticas identitárias entrou no cálculo dos republicanos, argumentou Wilentz. “Tradicionalmente, o Partido Democrata é o partido da integração e da inclusão, não de identidades divididas”, afirmou.

Alguns democratas reconhecem que seu partido ainda não encontrou a melhor maneira de abordar questões de raça, identidade e uma série de outros temas relacionados a cultura.

“Os democratas precisam falar daquela promessa dos Estados Unidos, da natureza extraordinária do país, do senso de oportunidade e de esperança que os EUA representam para milhões”, afirmou o deputado Ro Khanna, democrata da Califórnia, cujos pais emigraram da Índia. “Depois temos de falar: olha, enormes desafios têm ocorrido. Um deles que cometemos 40 anos de erros afastando o emprego, nos livrando da manufatura.”

Diferencial

“Não acho que temos de fugir de questões de raça ou cultura”, acrescentou Khanna. “Acho que devemos dizer o seguinte: o que torna os Estados Unidos extraordinários é sermos uma nação que não é fundada sobre sangue, não é fundada sobre credo. O que torna os EUA extraordinários é que estamos a caminho de nos tornar a primeira democracia multirracial e multiétnica do mundo.”

Os republicanos nem sempre levaram vantagem em questões de guerra cultural. Em 2016, um projeto de lei da Carolina do Norte que obrigaria as pessoas a usar banheiros de acordo com o sexo biológico de nascimento levou a uma enorme reação contra os republicanos.

Retaliação

Grandes empresas, incluindo o PayPal, cancelaram planos de se mudar para o Estado ou expandir suas atividades por lá. O então governador, Pat McCrory (republicano), que sancionou a legislação, pagou o preço político por isso, tornando-se o primeiro governador da Carolina do Norte a perder a disputa pela reeleição na história, em um Estado que votou para Donald Trump ocupar a Casa Branca. Pesquisas de opinião mostraram que dois terços dos eleitores se opunham à lei.

Agora, os republicanos afirmam que a paisagem mudou. “Sinto que definitivamente o momento está do nosso lado”, afirmou Ralph Reed, fundador da Coalizão Fé e Religião e líder social conservador. “A esquerda se envolveu em uma quantidade enorme de políticas exageradas em todos os campos, e as questões culturais não são exceção.”

Os republicanos parecem mais encorajados a enfrentar grandes empresas em relação a temas culturais depois dos quatro anos da determinação de Trump em romper com o empresariado americano. O governador da Flórida, Ron DeSantis, confrontou o grupo Disney em relação a uma legislação parental a que o conglomerado empresarial se opôs e atacou seus privilégios fiscais.

Legislação

Pouco depois, o senador Marco Rubio (republicano da Flórida) apresentou uma legislação mirando também o que ele chamou de “corporações lacradoras”.

“Nosso código fiscal deve ser pró-família e promover a cultura da vida”, afirmou Rubio em um comunicado a respeito do projeto de lei. A legislação proibiria empresas de reivindicar benefícios fiscais se suas funcionárias viajarem para realizar abortos ou relativos a assistência de afirmação de gênero para filhos de empregados.

Alguns conservadores afirmam que a narrativa de sua guerra cultural reverbera de maneira particularmente positiva entre um eleitorado crucial. “O voto hispânico é o aglutinador da política americana nesse momento”, afirmou Reed.

Um exemplo é o tema da imigração, no qual os republicanos têm ganhado terreno consistentemente. Entre os hispânicos, 57% apoiaram a manutenção das restrições à imigração determinadas pela ordem conhecida como “Título 42″, que impediu muitos imigrantes de cruzar a fronteira sul dos EUA durante a pandemia de coronavírus, de acordo com uma pesquisa recente da Fox News. Biden sinalizou que essas restrições serão suspensas este mês.

Alienação

Os democratas arriscam alienar essa parte de sua coalizão em relação a outros temas. Sessenta por cento dos eleitores hispânicos apoiam leis que banem discussões sobre orientação sexual ou política de gênero nas escolas em classes abaixo da 4.ª série, de acordo com uma pesquisa Fox News recente. Líderes democratas se opõem a essas medidas.

Reed afirmou que considera a legislação de direitos parentais uma “promoção de oferta de dois produtos pelo preço de um” para os republicanos, pois ela tem apelo tanto entre eleitores de minorias quanto entre mães suburbanas com filhos em idade escolar, argumentou ele.

Mensagem

Com o destino de Roe vs. Wade em jogo, o Partido Republicano enfrentou certa dificuldade em forjar uma mensagem. Por exemplo, enquanto republicanos da Louisiana pressionam para criminalizar o aborto, o Comitê Nacional Republicano para o Senado, maior braço de campanha dos republicanos, tentou se afastar dessa política e, num documento sobre o discurso de seu partido, orientou seus membros explicitamente a dizer: “Os republicanos não quereM jogar médicos e mulheres na cadeia. Mães não devem ser punidas pela lei”.

Marjorie Dannenfelser, presidente da Susan B. Anthony List, uma das principais oponentes do direito ao aborto, reconheceu o silêncio dos congressistas republicanos, mas afirmou que os líderes do partido têm, na realidade, sido mais francos do que o normal.

Cinco ou seis anos atrás, congressistas republicanos “não aceitariam convites (da imprensa)” para discutir o direito ao aborto, pois preferiam evitar completamente o tema, afirmou Dannenfelser. “Eles tinham medo até de pronunciar essa palavra.”

Pureza ideológica

Alguns democratas afirmam que seus correligionários não estão lutando com força suficiente pelo tema. “Onde diabos está meu partido? Onde está o Partido Democrata?”, perguntou na semana passada o governador da Califórnia, Gavin Newsom, durante uma visita ao escritório da ONG Planned Parenthood, em Los Angeles.

Em geral, Fratto descreveu uma dinâmica que muitos congressistas democratas notaram em privado: que testes de pureza ideológica sobre temas como direitos de pessoas transgênero nas escolas ou direitos LGBTQ não deixam margem para discussão.

“O problema com muitos desses temas é que, se você não quiser aderir às visões dos extremos ideológicos, você não é puro o suficiente, então você perderá prestígio”, afirmou Fratto. “Existe a impressão de que é necessário ir além, ao ponto de se tornar algo que, para o americano médio, parece francamente estranho.”

Fratto reconheceu que o debate sobre gênero é uma “questão complicada” nos Estados Unidos. No entanto, afirmou ele, “a maioria das pessoas trata disso com simplismo”. / TRADUÇÃO DE GUILHERME RUSSO


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