The Economist: Putin ameaça o mundo com uma nova corrida nuclear

Foto: Jung Yeon-je/AFP
Por The Economist

Presidente russo usa seu poderoso arsenal nuclear para subverter a ordem atômica internacional

Por The Economist

Há quase 120 dias, Vladimir Putin lançou sua invasão à Ucrânia alertando para a possibilidade de um ataque nuclear. Após exaltar o arsenal atômico da Rússia e prometer subjugar a Ucrânia, ele ameaçou países que se sentissem tentados a interferir com consequências “que vocês jamais viram em toda sua história”. Desde então, a TV russa passou a atormentar seus espectadores com conversas de armagedon.

Captura de vídeo divulgada pelo Ministério da Defesa da Rússia em 19 de fevereiro de 2022 mostra um míssil balístico intercontinental Yars sendo lançado durante um exercício de treinamento em um local indefinido na Rússia
Captura de vídeo divulgada pelo Ministério da Defesa da Rússia em 19 de fevereiro de 2022 mostra um míssil balístico intercontinental Yars sendo lançado durante um exercício de treinamento em um local indefinido na Rússia Foto: Russian Defence Ministry / AFP

Mesmo que Putin jamais use a bomba na Ucrânia, ele já abalou a ordem nuclear. Depois de suas ameaças, a Otan limitou o apoio que estava preparada para oferecer, com duas implicações ainda mais preocupantes por terem sido afundadas pelos tambores da campanha de guerra convencional da Rússia. Uma delas foi que Estados vulneráveis que veem a guerra através do olhar da Ucrânia sentirão que a melhor defesa contra um agressor com armas nucleares é ter o próprio armamento atômico. A outra é que outros Estados com armas nucleares acreditarão que são capazes de se beneficiar copiando as táticas de Putin. Se isso ocorrer, algum país certamente concretizará sua ameaça em algum lugar. Este não pode ser o legado devastador desta guerra.

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A ameaça nuclear já vinha crescendo antes da invasão. A mistura de normas, tratados, garantias mútuas, lisonjas, persuasão, mecanismos técnicos, medo e tabu que impediu o mundo de ver armas nucleares usadas contra exércitos ou cidades desde 1945 parecia bastante irregular mesmo antes de Vladimir Putin, presidente da Rússia, alertar, no dia 24 de fevereiro, que quem atravessasse o caminho da Rússia arriscaria “consequências… como vocês nunca viram em toda a sua história”.

Em termos de controle de armas, quase todos os pactos entre os Estados Unidos e a Rússia caducaram. Moscou estava desenvolvendo novas armas, como o Poseidon, não cobertas pelos acordos que permanecem. O arsenal nuclear da China está se expandindo rapidamente. Quanto a impedir a disseminação das armas, décadas de pressão internacional não conseguiram impedir que a Coreia do Norte adquirisse armas nucleares e aumentasse sua sofisticação e a gama de alvos contra os quais poderiam ser usadas.

O único acordo de não proliferação notável feito na última década, no qual o Irã limitou seu programa nuclear em troca de alívio de sanções, estava por um fio, com a república islâmica mais perto de uma bomba do que nunca. Agora está ainda mais perto. E a falta de progresso em direção ao desarmamento por parte de EUA, Reino Unido, China, França e Rússia, os Estados com armas nucleares que fazem parte do Tratado de Não Proliferação Nuclear (NPT), continuava a erodir a legitimidade do regime que o tratado estabeleceu.

China, Coreia do Norte têm expandido e melhorado seus arsenais nucleares

A Coreia do Norte possui dezenas de ogivas. O Irã, afirmou a ONU esta semana, conseguiu suficiente urânio enriquecido para fabricar sua primeira bomba. Apesar do pacto Novo Start limitar mísseis balísticos intercontinentais da Rússia e dos EUA até 2026, o acordo não cobre armas como torpedos atômicos. O Paquistão está aumentando rapidamente seu arsenal. A China está modernizando suas forças nucleares e, afirma o Pentágono, as expandindo.

Míssil de longo alcance iraniano 'Kheibar Shekan'; Teerã estaria a 'semanas' de conseguir desenvolver uma arma nuclear, acredita o governo americano
Míssil de longo alcance iraniano 'Kheibar Shekan'; Teerã estaria a 'semanas' de conseguir desenvolver uma arma nuclear, acredita o governo americano Foto: Sepah News via AP

Toda essa proliferação reflete o enfraquecimento da repulsa moral que restringe o uso de armas atômicas. À medida que as memórias de Hiroshima e Nagasaki desvanecem, as pessoas deixam de entender como a detonação de uma pequena bomba em campo de batalha, do tipo que Putin poderia acionar, é capaz de desencadear a escalada para a aniquilação mútua de cidades inteiras. EUA e União Soviética conviveram com a possibilidade de um impasse nuclear de apenas dois lados. Há um alarde insuficiente diante da perspectiva de várias potências nucleares com dificuldades para manter a paz.

A invasão da Ucrânia colabora para esse mal-estar. Mesmo se Putin estiver blefando, suas ameaças corroem garantias de seguranças concedidas a Estados não nucleares. Em 1994, a Ucrânia entregou as armas atômicas soviéticas que mantinha em seu território em troca de compromissos de Rússia, EUA e Reino Unido de que não seria atacada. Ao tomar a Crimeia e apoiar separatistas nas regiões do Donbas em 2014, a Rússia quebrou de maneira flagrante essa promessa. Os americanos e os britânicos, que praticamente não fizeram nada, também quebraram suas promessas.

Isso dá uma razão extra para Estados vulneráveis adquirirem armas atômicas. O Irã pode considerar que renunciar à bomba não lhe valeria nenhum benefício duradouro e ter a bomba neste momento não lhe causaria tantos problemas quanto no passado. Se o Irã testar uma bomba, como Arábia Saudita e Turquia responderiam? Coreia do Sul e Japão, que detêm conhecimento para se armar independentemente, colocarão menos fé nos compromissos do Ocidente em protegê-los em um mundo mais perigoso.

A estratégia de Putin de sinalizar com ameaças atômicas é ainda mais corrosiva. Nas décadas seguintes à 2.ª Guerra, as potências nucleares consideraram acionar armas atômicas em batalha. Mas nas últimas cinco décadas, tais alertas foram apenas para países que, como o Iraque e a Coreia do Norte, ameaçavam usar armas de destruição em massa. Putin é diferente, pois invoca ameaças atômicas para ajudar suas forças invasoras a vencer uma guerra convencional.

E elas parecem ter funcionado. É verdade que o apoio da Otan à Ucrânia tem sido mais robusto do que o esperado. Mas a aliança tem hesitado em enviar armamentos “ofensivos”, como aeronaves. Apesar de o presidente dos EUA, Joe Biden, ter enviado vastas quantidades de armas, na semana passada ele se opôs a fornecer mísseis capazes de atingir alvos dento da Rússia. Outros na Otan parecem pensar que a Ucrânia deveria estabelecer um acordo com a Rússia, porque infligir uma derrota sobre Putin poderia colocá-lo contra as cordas, com consequências nefastas.

Dano causado pelo presidente russo é de difícil reparação

Essa lógica estabelece um precedente perigoso. A China poderia impor condições similares caso ataque Taiwan, argumentando que a ilha já é parte do território chinês. Mais Estados poderão concentrar mais armamentos de batalha, o que desdenharia do Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares, sob o qual eles estão sujeitos a trabalhar pelo desarmamento.

O dano causado por Putin será difícil de reparar. O Tratado sobre a Proibição de Armas Nucleares, que entrou em vigor no ano passado e foi firmado por 86 países, pede sua abolição. Mas países armados temem ficar mais vulneráveis, mesmo que o desarmamento coletivo possa fazer sentido.

É importante perseguir controles de armamentos com verificação escrupulosa. A Rússia pode ser relutante, mas está empobrecida. Bombas nucleares custam caro, e o país precisa reconstruir suas forças convencionais. Os EUA poderiam aposentar seus mísseis terrestres sem comprometer sua segurança, em troca de cortes da Rússia. Ambos os lados podem concordar sobre especificidades técnicas, como não atacar o comando nuclear, controles e infraestrutura de comunicações em um conflito convencional. Em última instância, o objetivo deveria ser atrair a China.

Essas negociações serão mais fáceis se a tática nuclear de Putin fracassar – ele poderá começar garantindo que não atacará a Ucrânia. Biden escreveu na semana passada que os EUA não detectaram preparativos. Mas países como China, Índia, Israel e Turquia, com acesso ao Kremlin, deveriam alertar Putin a respeito de sua fúria caso, Deus nos livre, ele realmente vier a usar uma arma nuclear.

Vladimir Putin participa virtualemnte de reunião da Organização de Cooperação de Xangai (SCO) em Dushanbe, Tajiquistão, em setembro de 2021
Vladimir Putin participa virtualemnte de reunião da Organização de Cooperação de Xangai (SCO) em Dushanbe, Tajiquistão, em setembro de 2021 Foto: Alexei Druzhinin, Sputnik, Kremlin Pool / via AP

Poupar a Ucrânia de um ataque nuclear é essencial, mas não basta. O mundo deve garantir que Putin não prospere com sua atual agressão como prosperou em 2014. Se Putin acreditar mais uma vez que suas táticas funcionaram, ele fará mais ameaças nucleares no futuro. Se ele também concluir que a Otan pode ser intimidada, convencê-lo a recuar será mais difícil. Outros aprenderão com seu exemplo. A Ucrânia, portanto, precisa de armas mais avançadas, mais ajuda econômica e mais sanções sobre a Rússia para fazer o Exército de Putin bater em retirada.

Países que consideram esta guerra apenas um combate europeu passageiro negligenciam a própria segurança. E não poderiam estar mais errados aqueles argumentando em nome da paz, afirmando que a Ucrânia precisa alcançar uma trégua com a Rússia neste exato momento para não acabar atolada numa guerra que é incapaz de vencer, contra um inimigo que já perdeu o ferrão. Se Putin pensar que a Otan perdeu sua determinação, a Rússia poderá continuar perigosa. E se Putin for convencido de que suas ameaças nucleares representam a diferença entre a derrota e qualquer resultado que preserve sua reputação, a Rússia poderia ficar ainda mais perigosa. TRADUÇÃO DE GUILHERME RUSSO

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