Guerra na Ucrânia expõe fracasso da grande reforma militar planejada pela Rússia; leia artigo

Foto: REUTERS/Vitalii Hnidyi
Por Neil MacFarquhar

Desempenho das forças russas na invasão tem sido tão fraco que surpreendeu a maioria dos analistas ocidentais

Por Neil MacFarquhar

THE NEW YORK TIMES - Os veículos do Exército estavam tão decrépitos que as equipes de mecânicos eram posicionadas a cada 25 quilômetros. Alguns oficiais estavam tão fora de forma que os militares orçaram em US$ 1,5 milhão os ajustes dos uniformes.

Era este o estado das Forças Armadas da Rússia mais de uma década atrás, quando o país invadiu a Geórgia, de acordo com o ministro da Defesa na época. As dificuldades, grandes ou pequenas, foram notórias o suficiente para fazer o Kremlin anunciar uma reforma completa de suas corporações militares, para constituir uma força mais enxuta, mais flexível e mais profissional.

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Mas agora, quase três meses após o início da invasão russa à Ucrânia, está claro que o Kremlin fracassou terrivelmente em criar uma máquina de combate eficaz. O desempenho das forças russas na Ucrânia tem sido tão fraco que surpreendeu a maioria dos analistas ocidentais, o que aventa a perspectiva de que a operação militar do presidente Vladimir Putin pode acabar em uma derrota para a Rússia.

Em imagem de dezembro de 2015, o navio Moskva, que foi atingido por forças ucrânianas no Mar Negro. Foto: Max Delany/AFP
Em imagem de dezembro de 2015, o navio Moskva, que foi atingido por forças ucrânianas no Mar Negro. Foto: Max Delany/AFP Foto: Max Delany/AFP

Segundo qualquer medida, apesar de terem capturado território no sul e no leste da Ucrânia, os militares russos sofreram um duro revés no país. Eles foram forçados a desistir do que esperavam ser uma blitzkrieg que capturaria toda a Ucrânia em poucos dias. O principal navio da esquadra russa no Mar Negro, o Moskva, foi afundado; os russos não conseguiram dominar os céus; e segundo algumas estimativas ocidentais, dezenas de milhares de russos morreram.

Esta guerra expôs o fato de que, para infortúnio da Rússia, grande parte da cultura militar e do comportamento herdados da era soviética perdura: inflexibilidade na estrutura de comando, corrupção nos gastos militares, sigilo sobre números de mortes e a repetição do mantra de que tudo vai conforme o planejado.

Os sinais de problemas eram ocultos sob a vista de todos. No verão passado, a Rússia realizou exercícios de guerra que, segundo o Ministério da Defesa, demonstrou sua capacidade de coordenar um acionamento de 200 mil soldados de diferentes batalhões, num esforço simulado de combater a Otan. Seria um dos maiores exercícios militares de todos os tempos, afirmou a pasta.

O tenente-general Yunus-Bek Evkunov, vice-ministro da Defesa, afirmou à imprensa que os exercícios demonstravam a capacidade da Rússia de acionar rapidamente forças conjuntas de uma maneira que “faria qualquer inimigo pensar duas vezes”.

O exercício foi completamente roteirizado. Ninguém cumpria o papel da força inimiga; as principais unidades envolvidas haviam ensaiado suas coreografias por meses a fio; e cada exercício começava e se encerrava em momentos determinados. O número de soldados envolvidos foi provavelmente metade do anunciado, afirmaram analistas militares.

“Trata-se basicamente do Exército soviético”, afirmou Kamil Galeev, analista independente especializado em Rússia e ex-pesquisador do Wilson Center, em Washington. “As reformas aumentaram a eficiência do Exército, mas foram feitas pela metade.”

Quando, após o conflito na Geórgia, em 2008, a Rússia tentou remodelar suas Forças Armadas, a ideia era rechaçar a rígida centralização do Exército da era soviética, supostamente capaz de reunir 4 milhões de soldados de maneira imediata. Em vez disso, os oficiais de campo assumiriam mais responsabilidades, as unidades aprenderiam a sincronizar suas capacidades e o arsenal migraria totalmente para a era da informática.

Muitos tradicionalistas resistiram à mudança, preferindo o antigo modelo de uma força massiva e concentrada. Mas outros fatores também contribuíram para a incapacidade de transformação dos militares russos. As taxas de natalidade despencaram nos anos 90 na Rússia, o que diminuiu o número de homens que poderiam ser convocados para o serviço militar. Este fator -- associado aos baixos salários de sempre -- adiou metas de recrutamento. E a corrupção endêmica incapacitou os esforços.

Soldado ucraniano caminha sobre destroços de veículo de combate russo. Foto: Vadim Ghirda/AP
Soldado ucraniano caminha sobre destroços de veículo de combate russo. Foto: Vadim Ghirda/AP 

Mas o problema fundamental foi que a cultura militar da União Soviética perdurou, apesar da falta de homens e meios para lhe dar sustentação, afirmam analistas.

“O Exército soviético foi projetado para treinar milhões de homens e preencher inúmeras divisões com estoques infinitos de equipamentos”, afirmou Michael Kofman, diretor de estudos russos do CNA, um instituto de pesquisa em Arlington, Virgínia. “Foi projetado para a 3.ª Guerra Mundial, a guerra contra a Otan que jamais ocorreu.”

Por fim, o esforço de mudança empacou, gerando uma versão híbrida de Exército que se coloca em algum ponto entre uma mobilização massiva e uma força mais flexível, afirmaram analistas. O Exército russo ainda privilegia artilharia em detrimento de tropas de infantaria capazes de tomar e manter território.

A maneira roteirizada com que os russos travam a guerra, exibida nos exercícios do verão passado (Hemisfério Norte), é reveladora. “Ninguém é desafiado em relação à capacidade de pensar no campo de batalha”, afirmou William Alberque, diretor com base em Berlim do programa de controle de armas do Instituto Internacional para Estudos Estratégicos. Em vez disso, os oficiais são testados em relação à sua capacidade de seguir instruções, afirmou ele.

Militares russos em ensaio para o desfile militar do Dia da Vitória em Moscou, em 28 de abril
Militares russos em ensaio para o desfile militar do Dia da Vitória em Moscou, em 28 de abril 

A Rússia gostaria que o mundo visse seu Exército da maneira como ele é exibido na parada anual do Dia da Vitória: uma máquina bem azeitada de soldados em boa forma física vestidos em uniformes impecáveis, marchando em uníssono e empunhando armamentos ameaçadores.

“Eles usam as forças militares como uma máquina de propaganda”, afirmou Gleb Irisov, de 31 anos, ex-tenente da Força Aérea que deixou a corporação em 2020, depois de cinco anos de serviço. Posteriormente, ele trabalhou como analista militar da agência estatal de notícias TASS, até largar o emprego e deixar a Rússia porque se opõe completamente à invasão.

Graduados comandantes militares argumentam que as recentes forças expedicionárias, especialmente as enviadas para a Síria, obtiveram e compartilharam treinamento de combate real, mas analistas afirmam que essa alegação é inflada.

Os soldados russos não encararam nenhum adversário real na Síria; essa guerra transcorreu principalmente como uma operação de Força Aérea, na qual os pilotos podiam sobrevoar seus alvos o quanto quisessem. A Rússia não combate num grande conflito terrestre desde a 2.ª Guerra.

Além disso, os líderes russos exageraram os sucessos de seu país. Em 2017, Serguei Shoigu, o ministro da Defesa da Rússia, gabou-se em uma cúpula entre ministros homólogos organizada nas Filipinas, afirmando que seu país havia “liberado” 503.223 quilômetros quadrados na Síria. O problema é que a área que Shoigu afirmou ter libertado de militantes é mais de duas vezes maior do que a Síria inteira, segundo noticiou o meio de imprensa independente Proekt.

Com aproximadamente 900 mil soldados, pouco mais de um terço deles atuando em tropas terrestres, as Forças Armadas russas, afirmam analistas, não são consideradas tão grandes, levando em conta o vasto território que elas têm obrigação de defender, que cobre 11 fusos horários. Mas a meta de recrutar 50 mil soldados profissionais por ano, anunciada inicialmente uma décadas atrás, não foi atendida — então, um recrutamento anual de constritos com idades entre 18 e 27 anos ainda persiste.

Putin não apelou para uma convocação militar em massa que poderia colocar na guerra todos os homens adultos e saudáveis de seu país. Se ele tivesse feito isso, não encontraria a infraestrutura necessária para treinar civis massivamente que deixou de existir. O consenso é que a maior parte das tropas terrestres que a Rússia possui já foi acionada na Ucrânia.

Corrupção desenfreada drena recursos

“Cada militar rouba a mesma quantidade de fundos alocados apropriadamente para sua patente”, afirmou o major-general aposentado Harri Ohra-Aho, ex-chefe de inteligência da Finlândia que ainda atua como conselheiro do Ministério da Defesa.

A corrupção é tão generalizada que, em alguns casos, acaba inevitavelmente nos tribunais.

Em janeiro, o coronel Evgeni Pustovoi, ex-diretor do departamento de aquisições de veículos blindados, foi acusado de ajudar a desviar mais de US$ 13 milhões, forjando contratos de compra de baterias entre 2018 e 2020, segundo a agência TASS.

Em fevereiro, uma corte militar especial de Moscou despojou o então major-general Alexander Ogloblin de sua patente e o sentenciou a 4 anos e 6 meses de prisão, em razão do que foi qualificado pela acusação como fraudes “em escala especialmente larga”. As autoridades o acusaram de desviar cerca de US$ 25 milhões superfaturando vastamente os gastos em contratos do Estado para aquisição de satélites e outros equipamentos, segundo informou o website de notícias de negócios BFM.RU.

Contratos enormes não são a única tentação. A combinação entre salários baixos — um oficial graduado ganha cerca de US$ 1.000 por mês — e orçamentos cada vez maiores é uma receita para todo tipo de fraude, afirmam analistas, o que ocasiona problemas em cadeia.

Comandantes ocultam a baixa quantidade de exercícios que conduzem, embolsando os recursos destinados para as operações, afirmou Irisov, o analista. Isso exacerba falhas em habilidades militares básicas, como navegação e tiro, apesar da Força Aérea manter padrões de segurança de voo.

“É impossível conceber a escala das mentiras dentro das Forças Armadas”, afirmou Irisov. “A qualidade da produtividade militar é extremamente baixa por causa da corrida para desviar recursos.”

Um a cada 5 rublos destinado às Forças Armadas é roubado, afirmou em 2011 o procurador-chefe da Justiça Militar, Sergei Fridinski, à Rossiyskaya Gazeta, o jornal oficial do governo.

Irisov afirmou que encontrou numerosos exemplos de equipamentos inferiores — como o celebrado sistema de defesa aérea Pantsir, incapaz de derrubar pequenos drones israelenses sobre a Síria; lâmpadas de fabricação russa instaladas nas asas dos jatos SU-35 que derretem quando as aeronaves atingem velocidades supersônicas; e caminhões novos que quebram depois de dois anos de uso.

Em geral, os armamentos russos ficam atrás dos equipamentos militares similares de fabricação ocidental em termos de tecnologia computacional, mas são operacionais, afirmaram analistas. Contudo, parte da nova produção foi limitada.

Por exemplo, os tanques T-14 Armata, a “próxima geração” de veículos de combate lançada em 2015, não foram acionados na Ucrânia porque pouquíssimas unidades foram fabricadas, afirmaram os analistas.

A Rússia injetou bilhões de dólares em suas Forças Armadas, produzindo sob o Programa Estatal de Armamento uma torrente de novos aviões, tanques, helicópteros e outros equipamentos. O gasto militar russo não ficou abaixo de 3,5% do produto interno bruto do país durante a maior parte da década passada, de acordo com dados do Instituto Internacional para Estudos Estratégicos, período no qual a maioria das nações europeias teve dificuldade para investir 2% do PIB na área. E este é apenas o montante público do orçamento militar da Rússia.

Esse tipo de investimento financeiro ajudou a Rússia a garantir os poucos ganhos que tem alcançado na Ucrânia.

Johan Norberg, analista especializado em Rússia da Agência Sueca de Pesquisa em Defesa, afirmou que a Rússia e suas Forças Armadas são amplas demais para se esperar que consertem todos os seus problemas, mesmo em uma década. A guerra na Ucrânia revelou que as Forças Armadas russas “não são gigantes, mas tampouco são minúsculas”, afirmou ele. / TRADUÇÃO DE GUILHERME RUSSO


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