‘O calor envelhece’: Cientistas estudam efeitos do aumento das temperaturas no corpo humano

Pesquisadores estão investigando como a vida em um planeta mais quente sobrecarregará nossos corpos e procurando proteções que, ao contrário do ar-condicionado, não piorem o problema

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Por Raymond Zhong
5 min de leitura

THE NEW YORK TIMES - LIFE/STYLE - Quando W. Larry Kenney, professor de fisiologia da Universidade Estadual da Pensilvânia, começou a estudar como o calor extremo prejudica os seres humanos, sua pesquisa se concentrou em trabalhadores dentro da usina nuclear de Three Mile Island, onde as temperaturas chegaram a quase 74 graus Celsius.

Pesquisadores apontam que aumento das temperaturas provocado pelo aquecimento global pode afetar corpos humanos. Na imagem de arquivo, forte onda de calor é registrada no Rio de Janeiro em 2019. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Nas décadas que se seguiram, Kenney analisou como o estresse térmico afeta uma série de pessoas em ambientes intensos: jogadores de futebol, soldados em trajes de proteção, corredores de longa distância no Saara.

Ultimamente, no entanto, sua pesquisa se concentrou em um assunto mais mundano: pessoas comuns. Fazendo coisas do dia a dia. Enquanto as mudanças climáticas assam o planeta.

Alertas de calor e de calor excessivo estavam em vigor no início de junho em grande parte do interior leste dos Estados Unidos, após um fim de semana de calor recorde no sudoeste do país.

Com ondas de calor severas agora afetando partes do globo com uma regularidade assustadora, os cientistas estão investigando as maneiras pelas quais a vida em um mundo mais quente nos adoecerá e nos matará. O objetivo é entender melhor quantas pessoas a mais serão acometidas por doenças relacionadas ao calor e quão frequente e grave será seu sofrimento. E entender como proteger melhor os mais vulneráveis.

Uma coisa é certa, dizem os cientistas: as ondas de calor das últimas duas décadas não são bons prognósticos dos riscos que enfrentaremos nas próximas décadas. A ligação entre as emissões de gases de efeito estufa e temperaturas sufocantes já é tão clara que alguns pesquisadores dizem que em breve pode não haver mais sentido em tentar determinar se as ondas de calor mais extremas de hoje poderiam ter acontecido há dois séculos, antes que os humanos começassem a aquecer o planeta. Elas não poderiam ter ocorrido.

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E se o aquecimento global não for desacelerado, a onda de calor mais quente que muitas pessoas já experimentaram será simplesmente uma nova norma de verão, disse Matthew Huber, cientista climático da Universidade de Purdue. “Não vai ser algo de que você possa escapar.”

O que é mais difícil para os cientistas definirem, disse Huber, é como essas mudanças climáticas afetarão a saúde e o bem-estar humanos em larga escala, particularmente nos países em desenvolvimento, onde um grande número de pessoas já está sofrendo, mas os dados de qualidade são escassos. O estresse térmico é produto de tantos fatores - umidade, sol, vento, hidratação, roupas, condicionamento físico - e causa tantos danos que projetar efeitos futuros com precisão é complicado.

Também não houve estudos suficientes, disse Huber, sobre viver em tempo integral em um mundo mais quente, em vez de apenas experimentar um verão ocasional mais rigoroso. “Não sabemos quais são as consequências a longo prazo de acordar todos os dias, trabalhar três horas em um calor quase mortal, suar como um louco e depois voltar para casa”, ele disse.

A crescente urgência dessas questões está atraindo pesquisadores, como Kenney, que nem sempre se consideraram cientistas climáticos. Para um estudo recente, ele e seus colegas colocaram homens e mulheres jovens e saudáveis em câmaras especialmente projetadas, onde pedalavam uma bicicleta ergométrica em baixa intensidade. Em seguida, os pesquisadores aumentaram o calor e a umidade.

Eles descobriram que as pessoas começaram a superaquecer perigosamente em temperaturas de “bulbo úmido” muito mais baixas - uma medida que leva em consideração tanto o calor quanto o abafamento - do que eles esperavam com base em estimativas teóricas anteriores de cientistas climáticos.

Efetivamente, sob condições de banho de vapor, nossos corpos absorvem o calor do ambiente mais rápido do que podemos suar para nos refrescar. E “infelizmente para os humanos, não bombeamos muito mais suor para acompanhar”, disse Kenney.

O calor é a mudança climática em seu aspecto mais devastadoramente íntimo, devastando não apenas paisagens, ecossistemas e infraestrutura, mas as profundezas dos corpos humanos individuais.

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Mulher tenta fugir do calor se molhando em fonte no centro de Praga em julho de 2013. Com mudanças climáticas temperaturas registradas em ondas de calor podem se tornar norma durante o verão. Foto: REUTERS/David W Cerny

As vítimas do calor muitas vezes morrem sozinhas, em suas próprias casas. Além da insolação, ele pode causar colapso cardiovascular e insuficiência renal. Isso danifica nossos órgãos e células, até mesmo nosso DNA. Seus danos são multiplicados em pessoas muito idosas e muito jovens, e em pessoas com pressão alta, asma, esclerose múltipla e outras condições.

Quando o mercúrio está alto, não somos tão eficazes no trabalho. Nosso pensamento e funções motoras são prejudicados. O calor excessivo também está associado a maior ansiedade, depressão e suicídio.

A consequência para o corpo pode ser surpreendentemente pessoal. George Havenith, diretor do Centro de Pesquisa em Ergonomia Ambiental da Universidade de Loughborough, na Inglaterra, relembrou um experimento anos atrás com um grande grupo de pessoas. Elas usaram as mesmas roupas e realizaram o mesmo trabalho por uma hora, em um calor de 35° C e 80% de umidade. Mas no final, a temperatura corporal deles variou de 37,8°C a 39,2°C.

“Muito do trabalho que estamos fazendo é tentar entender por que uma pessoa acaba em um lado do espectro e a outra no outro”, ele disse.

Durante anos, Vidhya Venugopal, professora de saúde ambiental da Universidade Sri Ramachandra em Chennai, na Índia, vem estudando o que o calor faz com os trabalhadores das siderúrgicas, fábricas de automóveis e olarias da Índia. Muitos deles sofrem de pedras nos rins causadas por desidratação grave.

Um encontro uma década atrás a marcou. Ela conheceu um metalúrgico que trabalhava de 8 a 12 horas por dia perto de uma fornalha há 20 anos. Quando ela perguntou quantos anos ele tinha, ele disse de 38 a 40.

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Ela tinha certeza de que tinha entendido mal. Metade de seu cabelo era branco. Seu rosto era enrugado. Ele não parecia ter menos de 55 anos.

Então ela perguntou quantos anos tinha seu filho e quantos anos ele tinha quando se casou. A matemática deu certo.

“Para nós, foi um ponto de virada”, disse Venugopal. “Foi quando começamos a pensar que o calor envelhece as pessoas.”

Dado o número de pessoas que não têm acesso a condicionadores , que estão tornando o planeta mais quente ao consumir grandes quantidades de eletricidade, as sociedades precisam encontrar proteções mais sustentáveis, disse Ollie Jay, professor de calor e saúde da Universidade de Sydney.

Jay estudou as respostas do corpo ao sentar-se perto de um ventilador elétrico, usar roupas molhadas e usar uma esponja com água. Para um projeto, ele recriou uma fábrica de roupas de Bangladesh em seu laboratório para testar formas de baixo custo de manter os trabalhadores protegidos, incluindo telhados verdes, ventiladores elétricos e intervalos de água programados.

Os seres humanos têm alguma capacidade de se aclimatar a ambientes quentes. Nossa frequência cardíaca diminui; mais sangue é bombeado a cada vez. Mais glândulas sudoríparas são ativadas. Mas os cientistas entendem principalmente como nossos corpos se adaptam ao calor em ambientes controlados de laboratório, não no mundo real, onde muitas pessoas podem entrar e sair de casas e carros com ar condicionado, disse Jay.

E mesmo no laboratório, induzir tais mudanças requer expor as pessoas a tensões desconfortáveis por horas por dia durante semanas, disse Jay, que fez exatamente isso com esse grupo.

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“Não é particularmente agradável”, ele disse. Dificilmente há uma solução prática para a vida em um futuro sufocante - ou, para as pessoas em alguns lugares, um presente cada vez mais opressivo. Mudanças mais profundas na adaptabilidade do corpo só ocorrerão na escala de tempo da evolução humana. /TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES

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