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Opinião|Pedir transparência de algoritmos não é o mesmo que regular a IA

Não misturemos alhos de bugalhos

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Atualização:

O gosto por alho e cebola é pessoal. A cebola é allium cepa, enquanto o alho é allium sativum, ou seja, são “primos”, mas com características tão diversas que é fácil separá-los. E alhos de bugalhos? Ensina a avoenga sabedoria popular que alhos e bugalhos não devem ser confundidos. Nunca vi um bugalho, mas sei que não se deve serví-lo à mesa… Esse prefácio algo caótico visa a apontar riscos na tentiva generalista de rotular (e, em seguida, regular) aplicações e sistemas como sendo de inteligência artificial (IA).

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O primeiro ponto a se levar em conta é que sistemas computacionais complexos e especialistas existem aos montes, e antes não ganhavam o epíteto de IA. Algoritmos fixos, fartamente usados em matemática e em computação, raramente se qualificariam. Isso não significa que não haja riscos importantes associados a eles, como, por exemplo, a falta de transparência nos métodos, objetivos e resultados buscados por quem os desenvolveu. Quando o objeto dos algoritmos somos nós mesmos, eles criam, à nossa revelia, uma “classificação” onde somos catalogados segundo critérios que fogem à luz. Mas pedir transparência de algoritmos não é o mesmo que “regular IA”.

Num sobrevoo simples, poderíamos chamar de IA os sistemas que emulam comportamento humano, com sofisticação e dinâmica suficientes para se amoldar a novas e imprevistas situações. O apelo comercial e tecnológico da expressão “IA” faz com que uma barafunda de aplicativos, além dos que, de fato, usam IA, “pulem no mesmo vagão” para ganhar modernidade, visibilidade e poder de mercado.

Quanto à regulação desse “novo mundo”, acompanhemos as diversas iniciativas por ai. A mais recente, a da Espanha, pretende criar uma “agência de supervisão” da IA. Será o momento? Silvio Meira, pesquisador na área, tem alertado para efeitos colaterais de uma eventual regulação açodada, feita sem conhecimento sólido da essência do ente que se quer regular. Dado o valor estratégico e financeiro da IA, freios mal definidos podem manietar a posição do Brasil na área. E não esqueçamos que já há sólida proteção de direitos fundamentais em nossa Constituição. Criar leis muito específicas, tirando vantagem do momento de apreensão em que vivemos, pode ser mais danoso que útil. Formular um marco ético-conceitual parece mais proveitoso. Não misturemos alhos com bugalhos...

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Criar leis muito específicas, tirando vantagem do momento de apreensão em que vivemos, pode ser mais danoso que útil para a inovação em inteligência artificial

Além dos modelos de programação, IA depende se equipamentos de processamento muito caros e difíceis de obter. Já temos centros de IA no país, e uma boa interlocução com os congêneres internacionais. Melhorar esse diálogo, buscar indicadores e medir os efeitos do uso de IA em diversos setores, parece caminho seguro, e que pode sugerir políticas e leis. Afinal, “o que não pode ser medido, não pode ser gerenciado”...

Nada disso muda o fato de que, com os impactos das tecnologias que rapidamente se expandem, o mundo já é outro. Retomo o brilhante fecho do artigo “O Inexorável”, de Eugênio Bucci, aqui no Estadão: “Olhe com ternura e compaixão para o mundo à sua volta, porque ele vai desaparecer num suspiro”.

OpenAI é a startup americana que desenvolveu o ChatGPT, robô de bate-papo de inteligência artificial lançado em novembro de 2022 Foto: Michael Dwyer/AP Photo
Opinião por Demi Getschko

É engenheiro eletricista

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