Contemporâneos reconhecem os 'pais'

A literatura latino-americana contemporânea não renegou a figura do pai, a despeito de alguns jovens autores parricidas, como lembra o escritor chileno Antonio Skármeta na entrevista ao Estado. Entre os maiores talentos da nova literatura argentina, Martín Kohan, de 45 anos, não teve medo de abordar um tema que Julio Cortázar (1914-1984) já havia tratado de passagem no conto Circe, publicado em Bestiário (1951), e retomado em outras narrativas. Em seu novo livro, Segundos Fora (Companhia das Letras, tradução de Heloisa Jahn, 256 pags., R$ 39,50), Kohan usa os mesmos personagens do conto Circe, de Cortázar - o americano Jack Dempsey e o argentino Luis Ángel Firpo em disputa pelo título de campeão mundial de pesos pesados, em setembro de 1923 - para falar de injustiça, preconceito e comoção social.

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

13 de abril de 2012 | 22h00

Outro autor que não nega o pai é o colombiano Héctor Abad, de 54 anos, que perdeu o verdadeiro em 1987 (assassinado por paramilitares num crime político que chocou a Colômbia). Ele fala no domingo, 15, na 1.ª Bienal Brasil do Livro e da Leitura, em Brasília, revelando por que Ovídio - “pai” de Dante, Shakespeare e Milton - é o modelo direto de seu Livro de Receitas para Mulheres Tristes, lançado pela mesma editora (tradução de Sérgio Molina e Rubia Prates Goldoni, 144 págs., R$ 32). Ele também poderia ser associado, sem escândalo, a outro falecido argentino, Manuel Puig (1932-1990) e a Cortázar. Tanto Kohan como Abad, contudo, são vozes originais que apenas não esquecem os mestres do passado e são gratos a esses “pais”. Ambos falaram ao Sabático sobre seus livros, recém-publicados no Brasil.

Kohan diz que sempre identificou na disputa entre os boxeadores Firpo e Dempsey, da qual o último saiu vencedor, “uma espécie de altíssima concentração épica e significativa” nos 17 segundos que o americano passou fora do ringue, em 1923. “A façanha, a vitória aparentemente assegurada, a ressurreição, a ilegalidade, a possibilidade da derrota, tudo isso se passou em menos de 20 segundos, quase como um sonho”, observa Kohan, aceitando o desafio de reconstruir essa história épica de humilhação argentina num exercício rigoroso de concentração narrativa. Nele, o escritor evoca outro acontecimento histórico do mesmo ano, a apresentação da primeira sinfonia de Gustav Mahler no Teatro Colón, em Buenos Aires, com a Filarmônica de Viena regida por Richard Strauss. Entre os dois eventos ele inclui uma trama policial ambientada nos dois territórios, o da cultura de massas (o boxe) e o da alta cultura (o da música erudita).

Os segundos de Dempsey fora do ringue, desconsiderados pelo árbitro, foram interpretados por Kohan como um episódio que resume o imaginário argentino, traduzido em disputa esportiva - “a certeza de vencer e preponderar, logo seguida pela queda e derrota inesperadas, junto à suspeita de que há ou deveria haver algo nebuloso e conspiratório em tudo isso.” Kohan vê mais do que uma semelhança com os diversos contos que Cortázar escreveu sobre boxe - entre eles Torito, que até rendeu uma tese da acadêmica argentina Ana Maria Risco sobre sua proximidade com Segundos Fora. Ele compara essa fixação de ambos pelo boxe com a obsessão que Jorge Luis Borges tinha pela luta de facas (“cena paradigmática em que dois homens se enfrentam para encontrar seus destinos e descobrir quem são”). No livro, há outra disputa declarada: a de um jornalista esportivo com um repórter cultural, que devem escrever um texto para marcar o cinquentenário de um jornal de província. Um quer emplacar a pauta do boxe. Outro, a do concerto de Strauss.

A antinomia entre cultura de massas e alta cultura não é esquemática em Kohan. Ela tem um propósito claro: registrar o processo histórico que culminou na sangrenta ditadura argentina (a história se passa em 1973, na cidade de Trelew, um lugar onde, um ano antes, o regime militar perpetrou uma execução coletiva, lembra o autor). Héctor Abad, a respeito da linguagem híbrida a que seus contemporâneos recorrem, lembra que “nos tempos de escassa liberdade política, havia uma grande criatividade textual”. A modernidade, “ainda que tenha nos presenteado com Steve Pinker e Bill Bryson como exemplos de divulgação científica”, lembra Abad, “se esqueceu da versatilidade e das possibilidades infinitas da literatura”. Ele sugere que os autores se voltem para o passado, releiam panfletos e novelas filosóficas como as de Voltaire.

Em Livro de Receitas para Mulheres Tristes, Abad segue o próprio conselho, tirando do limbo gêneros desprezados pela literatura para falar da angústia, da velhice, do luto e da ética amorosa, misturando esses temas tão sérios com outros mais triviais. “Esse livro de receitas é um regresso a gêneros literários que a modernidade esqueceu, como os poemas de Ovídio - eu acabara de ler A Arte de Amar quando o comecei.” Abad estava doente, em casa, e via o mundo de sua cama. Então, resolveu cruzar o dístico elegíaco de Ovídio com patacoadas de livros de autoajuda que não servem para nada e que Abad usa de modo sarcástico. “Meu livro tampouco serve para alguma coisa, no sentido utilitário da palavra, ainda que muitas pessoas se consolem com o fato de saber que não há consolo.”

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