Traffic usa clube 'laranja' para colocar jogadores no Palmeiras

Os palmeirenses Diego Souza e Lenny são, no papel, atletas de um clube que nem tem um time profissional

Juliano Costa, Jornal da Tarde

15 de janeiro de 2008 | 18h50

Rua Mari, 100, Barueri. Este é o endereço do Desportivo Brasil, clube no qual a Traffic registra seus jogadores para depois emprestá-los ao Palmeiras, numa manobra perfeitamente dentro das normas da Federação Paulista de Futebol (FPF), da CBF e da Fifa.   Veja também:  Luxa diz que Lenny tem de ser 'colocado no caminho'  Figueirense surpreende e elimina Palmeiras na Copa São Paulo   Diego Souza e Lenny, os últimos reforços palmeirenses, são, no papel, atletas de um clube que nem tem um time profissional - apenas equipes de juvenis e juniores. Nenhum dos 85 garotos que moram nos alojamentos do Desportivo jamais viu de perto Diego Souza ou Lenny - eles nunca foram à sede do clube em Barueri. E nem irão.   O Desportivo funciona como "laranja". Como a Fifa proíbe empresas de serem "proprietárias" de jogadores, a Traffic registra suas estrelas no clube de Barueri. Lenny, por exemplo, assinou contrato por três anos com o Desportivo para depois ser emprestado ao Palmeiras até dezembro. Se pintar uma oferta do exterior, a Traffic vende e repassa 30% do valor ao clube alviverde. Se não surgir nada, Lenny segue no Palestra Itália. É simples assim. Um negócio lucrativo para todos os envolvidos.   Mas, apesar de os contratos serem registrados na CBF com o nome e o endereço do Desportivo, os documentos de Lenny, Diego Souza e Gustavo (o primeiro a fazer parte da "parceria", contratado em maio) ficam na matriz da Traffic, uma mansão no Itaim, a poucos metros do Parque do Ibirapuera, um dos endereços mais valiosos de São Paulo. A casa já recebeu o apelido de "novo quartel-general" do Palmeiras - é lá que são tomadas algumas das principais decisões relativas ao departamento de futebol do clube.   Em Barueri, há pouco ou quase nada. Num modesto escritório, trabalham três pessoas, incluindo o ex-meia Pita, coordenador das equipes de base do Desportivo. Num pequeno armarinho, há só os documentos dos garotos que defendem as cores (verde e amarela) do Desportivo em torneios amadores.   "Se você sair aí na rua e perguntar o que é Desportivo Brasil, ninguém vai responder", reconhece Duílio Morais, administrador do clube. "É que o nosso propósito é apenas formar atletas jovens", emenda Marcelo Lucas, o supervisor.   A idéia, claro, é gerar lucro para a Traffic, a maior empresa de marketing esportivo da América Latina, com braço até em Miami, nos Estados Unidos. O projeto do Desportivo tem pouco menos de dois anos. O clube disputa os torneios sub-15 e sub-17 da Federação, mas precisou "alugar" a camisa do São Bento de Sorocaba para jogar a Copa São Paulo de Juniores - a FPF exige pelo menos dois anos de filiação para liberar a inscrição de um clube novo no torneio.   Ainda não deu tempo nem de a Traffic construir uma sede própria para o Desportivo - o local onde funciona o clube é, na verdade, o centro de treinamento Sportville, criado pelo técnico de vôlei José Roberto Guimarães, que já abrigou as equipes de base do São Paulo e serviu como concentração para o próprio Palmeiras antes da final da Libertadores de 1999.   A nova sede será erguida em Porto Feliz, perto de Sorocaba. Serão cinco campos oficiais e alojamentos para 180 jogadores. A obra deve ficar pronta em dezembro. Até lá, o Desportivo permanece em Barueri, emprestando seu nome, endereço e razão social para a Traffic registrar jogadores famosos e repassá-los ao Palmeiras. Tudo dentro da lei.

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