1 milhão na 25

Óculos Doce Cabana, calcinhas com GPS e a dificuldade de encontrar um enfeite [br]nacional num dia de vaivém pelo maior centro de comércio popular do País

Christian Carvalho Cruz, O Estado de S.Paulo

12 de dezembro de 2010 | 00h56

Ainda pensava na morte de John Lennon, 30 anos naquela quarta-feira 8, quando o táxi o despejou no mormaço da realidade, que fica na esquina das Ruas Carlos de Sousa Nazaré e 25 de Março, região central de São Paulo. "Imagine que não exista o paraíso / É fácil se você tentar / Nenhum inferno abaixo de nós / Sobre nós só o firmamento / Imagine todas as pessoas / Vivendo pelo hoje." (Cabra bom esse John Lennon, um visionário do comércio popular em tempos natalinos). Também teve tempo de rir do sarcasmo da mulher, hora e meia antes, à mesa do café da manhã. "Não era você que não iria à 25 de Março nesta época do ano nem por 1 milhão de dólares?" Força de expressão e de trabalho, querida, só força de expressão e de trabalho. Mas ela tinha acordado disposta a vexá-lo. "Então aproveita e traz um enfeite para nossa árvore de Natal. E procura um nacional, já temos muitos made in China." Padre-nosso...

E então virou à direita na 25 e foi colhido por dois galalaus em camiseta regata que disputavam um relojão pela pulseira. Puxa daqui, puxa de lá. Eita, assalto! Nada. Controle de qualidade. Esticavam as tiras com todas as forças e preces querendo provar que não rebentam. "E o vidro não risca nem trinca, coisa boa", um deles vem demonstrar, açoitando o tampo do cebolão com uma chave. O nome é Oakley Holeshot, parece que faz sucesso nas letras do funk. Original? "Ô, amigo, isso é 25 de Março. Original aqui só meus olhos verdes. Mas a mercadoria é de primeira. E você paga menos que uma prestação do original, que vale uns R$ 2 mil. Faço R$ 150, vai?" O preço varia conforme a cara do freguês, podendo começar em R$ 200 "pros mais playboy" e baixar a R$ 50 "pros pessoal mais normal". A mágica de margem tão elástica está no preço de custo: R$ 20 a unidade, comprada ali mesmo, em algum recôncavo bem guardado e escondido da rua. As vendas são feitas "na abordagem, no fluxo", que ficar parado não ajuda a comprar o leitinho da neném. "Ontem, que Deus abençoe, ganhei R$ 680. Antes de trabalhar na 25 eu tinha salário de R$ 510 por mês numa fábrica de bloco. Aqui já conquistei casa ? simples, mas não é favela nem de aluguel ? e carro bom. Pago R$ 820 de financiamento de um EcoSport 2004", sorri, orgulhoso, mostrando o aparelho nos dentes.

Ouviu falar em até 1 milhão de pessoas zanzando todos os dias por aqueles 13 quarteirões. Na quarta-feira, feriado em Guarulhos e Diadema, podia ter até mais. A conta é empírica, conta de porta de botequim. Na verdade, porta de McDonald"s. Tem dois deles na 25, e cada um vende perto de 800 lanches no período das 6h às 17h. É tanta gente na fila, mas tanta gente, que o tradicional cheiro das batatinhas fritas mal consegue furar a barreira humana e alcançar a rua. Não quis entrar. Preferiu vislumbrar algum ISO 9000 nos odores do pedaço, até perceber que eles são bem poucos, afinal. Basicamente, a 25 cheira a papelão, das caixas que se amontoam por todo canto (são quatro caminhões de lixo todas as noites), e suor, da gente que não para de chegar do metrô São Bento, Ladeira Porto Geral abaixo. Tal qual os esbarrões, o suor é um negócio democrático na 25 de Março. Pobre, rico, remediado, ali todo mundo sua. Estão lá as testas gotejantes para provar. Os mais rodados, macacos-velhos de outros Natais e carnavais e Dias das Mães e Dias da Criança e voltas às aulas, sabem que caminhar pertinho da entrada das lojas pode ser um jeito de se manter hidratado. Porque, ao contrário do meio da rua, franqueada só aos pedestres, nesse meio metro de calçada se pode surrupiar parte da brisa soprada pelos ventiladores, nesgas da sombra dos toldos e, os mais sortudos, um pingo ou dois de água fria despencada dos aparelhos de ar-condicionado que enfeiam as fachadas. Só não vale abusar. Os cartazes escritos à mão deixam claro que "é proibido sentar ou ficar parado neste local" ? entendendo-se por "neste local" o degrau da porta da loja, ali bem diante da vitrine. Circulando, circulando.

Foi circular. E notou que o ritmo da circulação é o de um ordeiro anda-e-para-anda-e-para, uma espécie de procissão da gastança. Está assim desde o ano passado, quando a Polícia Militar chegou para ficar e varrer os ambulantes sem licença. Só que eles continuam lá, a brincar de gato e rato. Brotam de repente, com seus saquinhos pretos cheios de óculos de sol, meias-calças ou garrafas d"água e se escafedem ao menor sinal de uma farda cinza. Os que podem contratam um olheiro, profissional encarregado de girar em torno do próprio eixo tentando ver, antes de ser visto, uma dupla de PMs se aproximar. "Qualquer modelo é dez! Eu tenho réplica! Eu tenho Gucci, tenho Prada, tenho "Doce Cabana". Armação fashion só na minha mão. Qualquer modelo é dez", tenta não gritar muito alto o camelô dos artigos "feitos pra proteger teus olhos e te deixar bonita". Em segundos o sujeito, miúdo, é cercado por consumidoras com ganas de devorá-lo vivo. Elas querem muito aqueles óculos. Querem demais. As notas de R$ 10 vão e vêm num emaranhado de braços e mãos. "Não tem mais igual ao que você está usando, moço?", pede uma, apontando o modelo do vendedor. "Fica com o meu, te faço R$ 8", ele é ligeiro, esfrega as lentes na camiseta. "Taí, senhora, limpou tá novo, pode levar." E a senhora leva, transbordando de alegria, como se tivesse ganhado sozinha na Mega-Sena.

Então o marreteiro fecha o saco, pede um minutinho, um minutinho por favor, e um minutinho por favor mais irritado, cava uma fenda entre as compradoras e corre, agora gritando como se deve: "Ó os cara aí!". A polícia vinha atravessando a rua. Se o pagassem, apreenderiam a mercadoria e a levariam para o posto avançado da Prefeitura montado num contêiner na transversal Lucrécia Leme. "O movimento está fraco hoje", diz um dos fiscais da equipe formada por nove agentes, quatro motoristas, dois caminhões e duas Kombis. A média é de cem apreensões por dia. O recorde, 300. "Já são 13 e 15 da tarde e temos 48 apreensões só. Fraco de tudo. E a maioria é perê", confere a planilha, meio frustrado. Perê? "Perecível. Garrafinha de água. Aqui não pode vender nada sem autorização, nem água."

Quem fica danado com isso é o Pedro Rei, o camarada mais elegante da 25. Camisa vermelha, gravata preta e branca, sapatos tinindo de graxa e topete de gumex. Tudo bem que o aperto da polícia acabou com os tiroteios e reduziu os assaltos em 70%. Mas por que diacho o Pedro Rei, único músico de rua da rua, não pode vender a sua voz ali? A 25 é tão sem música... Quase não há rádio ligado. Ninguém assovia. Nem os papais-noéis eletrônicos desejando "Merry, Merry Christmas" o irritam o suficiente. De modo que o que predomina mesmo é o murmúrio da multidão. E, vez ou outra, um promotor gaiato tentando fisgar os passantes com ofertas artificiais: "Olha aí pessoal, chegou a calcinha com GPS! Cartão da loja aqui comigo. Chegou a calcinha com GPS!" Então, nessa secura musical, o Pedro Rei com seu dó de peito e violão, cantando Milionário e Zé Rico na calçada, é uma flor no deserto. Ele afina a voz chupando limão e Halls e comete Sonhei com Você, esticando as vogais e sorrindo para as moças que passam. "De repetente em menos de um minuto / Você se transformou num vulto e logo desapareceu." Sozinho nesse mundo aos 54 anos, o Pedro Rei vem cantar na 25 para poder almoçar. Nem sempre consegue, e então ele filosofa. "O povo aqui não valoriza a arte, valoriza é a aquisição, o comprar, o possuir. Se fosse diferente não teriam coragem de me jogar moeda de 50 centavos, ah vá tomar banho!"

Mais brabos que o Pedro Rei só os chineses do Shopping 25 de Março e do Saara Shopping. Eles falam o essencial pro bom andamento dos negócios, em português amarrotado: "tlês vezes no cheque", "galantia tlinta dias" e "non oliginal, réplica". Pelo menos não mentem. Mas algo o intriga: por que há tantas lojas de bonés dentro dessas galerias? Estandes e mais estandes de bonés, só bonés. Tem muito mais bonés do que cabeças perambulando por entre os corredores apertados. Quem tenta explicar é um peruano ex-artesão saído de Cuzco que hoje levanta R$ 3 mil por mês vendendo bonés na 25. "O bom de São Paulo é que sempre tem alguém querendo comprar alguma coisa." No que o Tiago Rodrigo, recepcionista do Hotel Girassol, do outro lado da rua, concorda. O que os hóspedes fazem à noite? Dormem feito pedra depois de rodar tanto? "Que nada", responde o Tiago Rodrigo, "pedem táxi para ir no shopping, desses shoppings mesmo, fora da 25, sabe?" Sabe.

Mas vai dando 5 horas, a CET libera o acesso dos carros à rua, as portas das lojas vão baixando, a rota agora é Ladeira acima. Ainda tem gente chegando, falando em "comprar só uma lembrancinha pra minha mãe, é dois palito". Se correr dá tempo, sempre dá. O que não deu foi para achar o tal penduricalho nacional para a árvore deste ano. Tinha desistido fazia tempo, na segunda loja em que o vendedor gargalhou quando ele perguntou por algum enfeite de Natal feito no Brasil. "Hahaha! Imagine", foi o que ouviu.

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