15 minutos de plateia

Invertendo a frase de Warhol, nestes dias os famosos foram apenas espectadores

11 Junho 2009 | 10h28

O HOMEM QUE COMEU DE TUDO Crítico da Vogue americana, famoso por seus livros (O Homem que Comeu de Tudo e Deve Ter Sido Alguma Coisa que eu Comi) em que mergulha até o cansaço nos temas que o fascinam, investigador detalhista de produtos, Jeffrey Steingarten não aceitou convites que o desviassem de sua obrigação autoimposta: comer de tudo. Seguiu resoluto a missão, com disciplina espartana. Não deixou de provar nada que viu, lambeu os dedos, mastigou o que passou a sua frente. Num dos jantares, assim que o serviço começou, olhou para o prato da vizinha e, demonstrando certa inquietação, perguntou: "Por que sua porção é maior que a minha?". No sábado, em plena feijoada, provou todas as sobremesas do bufê. Mas seu maior apetite é por informação. Pergunta e anota sem parar. Sempre que pode, tenta contextualizar o que come. Faz perguntas em profusão, sobre a cultura local, música e literatura. No intervalo entre um prato e outro pediu uma entrevista com o chef do Mugaritz. Steingarten provou ser também um glutão de sons: observava atento as pessoas conversando em português. "O português é uma das línguas mais bonitas que já ouvi na vida, se não for a mais bonita", disse. Recomendou aos repórteres que tivessem sempre à mão um mapinha das carnes para entender todos os cortes, elogiou a comida baiana ("o mais interessante grupo de receitas que comi no Brasil") e resmungou nas palestras em que não serviam nada para provar ("queria umas carnes..."). Vítima de uma crise de dor de dente, foi ao dentista na sexta-feira ("consultório impressionante") e ignorou a recomendação de não misturar antibióticos com caipirinha ("una más, por favor", pediu arriscando um portunhol, e engoliu o comprimido). FRANÇOIS SIMON VEIO E FOI (QUASE) INCÓGNITO François Simon, crítico gastronômico do jornal francês Le Figaro, aceitou de bom grado participar do Paladar - Cozinha do Brasil, desde que um detalhe fosse respeitado: sua identidade deveria permanecer em segredo durante todo o evento. Após quase 30 anos visitando restaurantes da França e do mundo todo, Simon não é assim tão desconhecido, mas quer preservar o pouco de anonimato que lhe resta. Numa entrevista concedida ao Paladar sugeriu ser representado como um frango assado enfeitado com um ramo de estragão, ao lado de, se possível, uma taça de vinho italiano. A recomendação precisa e elegante diz muito a respeito da personalidade desse francês excêntrico, considerado o crítico mais influente da Europa, senão do mundo. "Quando descobri que estava sentada à frente do mítico crítico do Figaro, tive arrepios", tuitou a também lendária Gael Greene, de São Paulo. Simon desembarcou em São Paulo na quarta-feira passada com nova identidade. Poucas horas depois visitou o Maní - tão incógnito quanto possível para alguém que usa uma gravata perigosamente vistosa e levemente bufante. Jantou satisfeito no restaurante de Helena Rizzo e elogiou em seu blog as maniocas, o signature plat da casa e a sobremesa café padoca. Nos outros dias comeu no Aizomê, Tordesilhas, Mocotó. Assim que aquele francês de ar estranho deixou o D.O.M., o chef Alex Atala ligou para perguntar: "Quem acabou de sair daqui é quem imagino que seja?" Era sim. No Paladar - Cozinha do Brasil o crítico assistiu à palestra Que Fruta é Essa?, empolgou-se com a culinária do centro do Brasil, de Simon Lau, e com a aula dos amargos. Provou tudo, fez anotações e perguntas. Circulou pelas salas de aula com certa diligência, esmeradamente perfumado, comme il faut, e sem perder a postura dândi pela qual é conhecido. FEIJOADA, MOCOFAVA, BRIGADEIRO E UMA CRÍTICA GASTRONÔMICA FAMINTA Há 40 anos a crítica de restaurantes americana Gael Greene janta fora quase todos os dias da semana. Só descansa aos domingos, quando prepara um jantar frugal em casa. Convidada a participar do Paladar - Cozinha do Brasil, ela encarou a maratona de workshops, almoços e jantares com disposição invejável e apetite de quem sempre topa experimentar uma coisinha mais. Foi nesse espírito que provou e adorou a mocofava e as caipirinhas de Rodrigo Oliveira, a feijoada de d. Nelsa e Mara Salles, entre tantas outras experimentações. No último domingo ela voltou para Nova York para participar do Citymeals Street Food Festival, evento organizado pelo Citymeals on Wheels, organização que fornece alimento a idosos com problemas de locomoção e da qual é co-fundadora, com James Beard. ARTE E PAISAGEM PAULISTANA PARA MASSIMO BOTTURA Na Itália, quando se fala sobre a região de Módena, imediatamente saltam à memória dois ícones: o aceto balsâmico e a Osteria Francescana, o restaurante 2 estrelas Michelin comandado por Massimo Bottura. O chef é considerado um dos maiores cozinheiros vanguardistas do país. De suas caçarolas, pinças e gadgets saem pratos altamente cerebrais, contemporâneos e esculturais. Aficionado por arte e pela gastronomia, sua passagem por aqui não poderia ficar incógnita. O chef fez logo amizade com Anissa Helou, jornalista e ex-marchande de arte. Foi com ela ao Masp ver a exposição do artista brasileiro Vik Muniz. Saiu com o amigo Alex Atala para conhecer os grafites paulistanos. Ficou instigado com a culinária japonesa e suas derivações brasileiras. Fez questão de ir aos restaurantes Kinoshita e Jun Sakamoto - deste, saiu maravilhado, com o livro do chef na mão. De tanto que gostou da estadia no país, prometeu voltar no próximo ano com os amigos Pascal Barbot e companhia. DE TABULE E COALHADA PARA PIRARUCU, PALMITO FORMIGA Anissa Helou não perde para Jeffrey Steingarten no quesito comer de tudo. A escritora libanesa que vive em Londres, colaboradora do jornal Financial Times, provou palmito fresco, jurubeba, azeite-de-dendê e até as controversas formigas da d. Brazi. "Vou ficar com esse gosto na boca até amanhã de manhã", comentou, meio arrependida, entre um gole e outro de água. "O sabor é muito forte." Anissa não parou de trabalhar: postou em seu blog, no Twitter e deu uma escapada para conhecer o Masp. Ainda marcou encontro com um primo paulistano que descobriu por acaso, numa troca de e-mails.

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