''70% das espécies de peixes já foram exploradas além da conta''

Ativista italiano criou certificação após lutar contra morte de golfinhos em redes de pesca

Andrea Vialli, O Estado de S.Paulo

31 de dezembro de 2010 | 00h00

O italiano Paolo Bray milita pelos mares há muitos anos. Ele foi ativista e diretor para a Europa do projeto Dolphin Safe, do Earth Island Institute, que tinha o objetivo de reduzir a mortalidade de golfinhos causada pela pesca do atum nos oceanos. Após o projeto conseguir reduzir em 95% a matança dos cetáceos, Bray criou a certificação Friend of The Sea, hoje uma das mais representativas na Europa e Ásia, que já está certificando companhias brasileiras. Leia trechos de sua entrevista ao Estado.

Quando foi criada a Friend of the Sea? Por que se tornou necessário criar uma certificação para a pesca sustentável?

A organização, sem fins lucrativos, foi fundada por mim em 2007. O objetivo era desenvolver um sistema de certificação para produtos de pesca e aquicultura sustentáveis. O tema é crucial porque hoje inúmeras espécies selvagens têm sido vítimas da sobrepesca, e seus estoques caíram a níveis que chegam a ameaçar sua sobrevivência. A Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO) estima que 70% dos estoques pesqueiros no mundo já foram explorados além da capacidade de reprodução das espécies. Métodos como a pesca por arrasto têm grande impacto sobre o oceano e não selecionam as espécies a serem capturadas, por isso causam danos ao ecossistema. Nosso objetivo é promover companhias cujos sistemas de pesca são bem manejados e respeitam os estoques pesqueiros. Isso é feito por meio do selo Friend of the Sea, estampado nos produtos que chegam ao consumidor.

Quais são as espécies mais ameaçadas pela sobrepesca?

De modo geral, os animais de crescimento mais lento, que têm um ciclo de vida mais longo são os menos resistentes às pressões da indústria pesqueira. Entre eles, estão espécies como os tubarões (caçados principalmente por causa do alto valor de suas barbatanas no mercado asiático), arraias, baleias, golfinhos e animais que vivem em grandes profundidades, como o atum-azul. Outras espécies têm sido pescadas além da capacidade de reprodução, como o bacalhau, a merluza e o linguado europeu. Não podemos no entanto generalizar. Em algumas regiões, essas espécies estão sendo bem manejadas.

Como funciona o sistema de certificação?

Sistemas de certificação como a Friend of the Sea verificam nos locais de pesca se as operações respeitam limites e praticam sistemas não predatórios, evitando a pesca por arrasto, por exemplo. O selo só é concedido após auditorias. A certificação já foi negada em 30% dos casos, pois as empresas inspecionadas não atingiam padrões de pesca sustentável.

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