A agulha da bússola nos bicos das pombas

Tem sido mais difícil que achar uma agulha em um palheiro. Apesar de uma pomba ser bem menor que um monte de palha, identificar a agulha que controla a bússola no corpo delas tem tirado o sono de cientistas.

Fernando Reinach,

26 Abril 2012 | 03h02

Quase 20% das espécies de aves voam grandes distâncias todos os anos. Muitos habitantes do Hemisfério Norte passam o verão no Sul, voando milhares de quilômetros. A orientação durante o voo é crucial. Se o animal não chegar ao destino correto, a morte é certa. Esses voos podem durar semanas e seu sucesso depende da capacidade de orientação durante o dia, a noite e quando o céu esta encoberto. E sem dispor das tecnologias básicas de navegação - astrolábio, bússola, relógio ou GPS.

Essa capacidade intrínseca de orientação das aves já despertava a curiosidade de Aristóteles e Homero. Na Bíblia já encontramos a dúvida: as aves são orientadas por Deus ou são capazes de identificar o Sul? Durante séculos, antes do telefone, a capacidade dos pombos de voltar para seu lugar de origem fazia parte de nossa sofisticada tecnologia de comunicação. Pombos-correios eram levados a cidades distantes, bilhetes eram amarrados nos seus pés e a ave era solta. Ao voltar para sua cidade de origem, levava notícias frescas. Todo general de destaque tinha seu pombo-correio.

Hoje sabemos que os pombos possuem dois mecanismos de orientação. Um depende do sistema visual. Avaliando a posição do Sol e das estrelas, ele pode orientar o voo. Outro é uma bússola que permite à ave determinar a orientação e a intensidade do campo magnético a cada instante. Ambos foram descobertos analisando o voo de pássaros em condições em que a posição do Sol e das estrelas foi modificada artificialmente (em um planetário) ou em que um campo magnético artificial (um forte ímã) foi colocado na proximidade do pombo.

Se por um lado os cientistas sabem que o primeiro sistema depende do olho e de processos visuais, o órgão responsável por detectar o campo magnético (a bússola) foi mais difícil de achar.

Há quase dez anos, duas descobertas levaram os cientistas a crer que a bússola estava no bico. Primeiro um grupo descobriu um nervo que leva informações do bico ao cérebro. Quando esse nervo é cortado, a pomba perde a capacidade de se orientar no campo magnético, indicando que a bússola estava no bico. Mas como a ave detectaria o campo magnético? Nas bússolas, ele é detectado por uma agulha imantada que muda de direção, orientando-se no campo magnético da Terra.

Em 2003, foi descoberto que no bico das pombas há seis locais (três de cada lado da parte superior) em que se concentravam células com minúsculos cristais de ferro. Era desse local que partiam os nervos que levavam a informação sobre o campo magnético para o cérebro. Isso sugeria que os cristais de ferro seriam as agulhas. A proposta era que esses cristais, que estariam dentro dos neurônios, funcionariam como uma agulha de bússola. Sua mudança de orientação seria detectada pelos neurônios e transmitida ao cérebro. Todos estavam felizes. A agulha da bússola da pomba havia sido encontrada.

Mas agora um grupo de cientistas resolveu investigar o local exato em que esses cristais de ferro (a suposta agulha da bússola) estão localizados. E, para surpresa geral, eles descobriram que os cristais de ferro não estão no interior de neurônios, mas no interior de macrófagos, um tipo de célula que até agora nunca foi envolvida com a transmissão de impulsos nervosos.

Ficou a dúvida: será que essas partículas de ferro são mesmo as agulhas da bússola ou será que uma outra estrutura presente no bico é capaz de detectar o campo magnético?

A frustração é grande. Quando tudo parecia fazer sentido, aparece um dado novo para estragar a festa. Mas o progresso da ciência é assim mesmo, dois passos para frente, um para trás. A vantagem é que agora o palheiro ficou menor. Se antes os cientistas estavam procurando a agulha em todo o corpo das pombas, agora a investigação esta centrada na parte superior do bico. Ele parece pequeno, mas fica enorme quando examinado com um microscópio. Só nos resta esperar...

 

* Fernando Reinach é biólogo

 

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