A arte dos operários, no Municipal

Restauração do quase centenário teatro paulistano é feita por 70 trabalhadores com sensibilidade artística

Edison Veiga, O Estadao de S.Paulo

22 de novembro de 2009 | 00h00

Desde julho de 2008, o Teatro Municipal de São Paulo está em obras. Em tarefas detalhistas, 70 profissionais dedicam-se a recuperar ornamentos, esculturas de bronze, a cúpula de cobre, pinturas no teto, vitrais... Tudo deteriorado pelo tempo. É a terceira grande intervenção no prédio, símbolo da erudição e elegância de uma São Paulo de quase cem anos atrás: saído das pranchetas de Ramos de Azevedo, foi inaugurado em 1911 e passou por reformas em 1954 e em 1987.

O trabalho todo, previsto para ser finalizado no primeiro semestre do ano que vem, mexe com os sonhos até dos operários que lá atuam. "Eu já achava o teatro a coisa mais linda da cidade. Quando vim trabalhar aqui, tive a chance de conhecê-lo por dentro", revela Alcino José da Silva, piauiense que há 18 anos vive na capital paulista. "Tenho muita vontade de assistir a alguma coisa (no teatro), mas acho que a chance é mínima." Ele pode cultivar a esperança, já que a Secretaria Municipal de Cultura avalia a possibilidade de, com o término das obras, promover um espetáculo aberto a todos os funcionários da restauração.

Entre capacetes e ferramentas, as histórias que se entrecruzam por ali têm enredo semelhante: boa parte dos funcionários não nasceu em São Paulo e só conhecia o Municipal "de passar em frente".

DETALHES

Apesar da importância - de fato e pelo simbolismo todo - do trabalho ali realizado por eles, o discurso comum tem uma humildade sincera. É "no olho", por exemplo, que eles refazem os ornatos da fachada - um total de 1.813 -, muitos quebrados e quase irreconhecíveis. "Não me acho um escultor, muito menos um artista", afirma o baiano Carlito dos Santos Rocha, de 28 anos. "Eu só olho o modelo e vou copiando." Nascido em Roraima, seu colega Jenival Afonso do Carmo, de 34, equilibra-se nas alturas para, com espátula na mão, dizer que cada um desses enfeites pode levar até 40 dias para ficar tinindo.

E há os especialistas em cobre. Que dedicam-se a restaurar, por exemplo, a cúpula do prédio - uma gigante estrutura de 30 metros de diâmetro, que fica a 40 metros do chão. Ali, já fizeram reparos pontuais, corrigindo problemas de infiltração de água. E, a partir de dezembro, irão deixá-la bonita como se fosse nova. Entre esses profissionais estão os primos Gedival e Cláudio Santos da Motta, de 32 e 33 anos, ambos baianos. "São Paulo foi onde eu consegui trabalho. Então gosto desta cidade", frisa Cláudio. Gedival concorda. E seguem na luta.

O negócio de Márcio Santos de Lima, de 26 anos, nascido em Ribeirão Pires, no ABC paulista, é dar um jeito nas esculturas de bronze - há seis espalhadas, no alto, pelo lado externo do Municipal. "São 30 dias para restaurar cada uma delas", conta, enquanto se detém nos retoques finais de Poesia Lírica. "São muitas as dificuldades", ressalta a arquiteta Gabriela Kozlowski, que acompanha as obras. "As chuvas, a temperatura e a umidade são inimigos do trabalho pois os procedimentos são sensíveis."

No interior, também há muito o que fazer. As 200 mil peças de vidro que formam os 25 conjuntos de vitrais passam por restauração, no mesmo ateliê que as fez, em 1911. Nos tetos dos salões, as pinturas recebem cuidados especiais com pinceladas milimétricas.

O baiano Lucivaldo Alves de Almeida, de 31 anos, é um dos que ficam boa parte do dia olhando para cima, em busca de algum detalhe que mereça restauração. "De tempos em tempos, tenho de mexer bastante o pescoço, senão no fim do dia não há quem aguente de dor", conta. Quem quiser conhecer as obras terá oportunidade em breve. No dia 8, está prevista uma visita monitorada ao local - inscrições pelo e-mail dphdivulga@prefeitura.sp.gov.br.

FORMA E CONTEÚDO

Mas não só as obras têm colocado o Municipal sob os holofotes. No início do mês, o maestro Jamil Maluf se demitiu do posto de diretor artístico do Municipal. Em comunicado enviado aos músicos, ele atribuiu sua saída às "aspirações do secretário (...) de Cultura de já iniciar informalmente a implantação da nova estrutura que irá vigorar na futura fundação". Referia-se ao fato de que a Secretaria pretende criar uma fundação para administrar a entidade, para regularizar a situação de contratação dos integrantes dos corpos artísticos - atualmente, todos têm contratos temporários, renovados sempre que expiram.

Outra notícia recente: a licitação para a reforma do palco do Municipal foi suspensa por tempo indeterminado pela Empresa Municipal de Urbanização (Emurb), como publicado no Diário Oficial da Cidade em 30 de outubro. Além disso, o Ministério Público Estadual investiga - conforme o Estado revelou em março - possível superfaturamento na compra de oito instrumentos musicais, em novembro de 2007.

Por causa do atual estágio das obras, desde setembro, o Municipal está completamente fechado. Mesmo assim, há vida artística lá dentro. Duas semanas atrás, a Rede Globo utilizou o interior do espaço para gravar cenas de uma novela. No fim de outubro, um grupo apresentou esquetes no palco do teatro, como forma de celebrar a formatura de um curso de contrarregragem e mecânica cênica oferecido por um projeto de capacitação cultural.

E, alheio a barulheira da obra, um pianista solitário costuma dedilhar o novíssimo Steinway do Municipal. Sem público, sem aplausos no fim, Gilberto Tinetti executa as peças como um trabalho voluntário. "Há uma recomendação do fabricante (do piano) para que ele não fique parado", explica o pianista. "Então, venho, a cada dez dias, e fico tocando por cerca de três horas."

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