A autoridade de Francisco

Numa época em que as atuações políticas são sempre precedidas por muitos cálculos frios e impiedosos, um homem tem mostrado ao mundo outro modo de proceder. Com sua simplicidade e sinceridade, o papa Francisco vem conseguindo abrir portas que há muito estavam fechadas. Sua viagem a Cuba e aos Estados Unidos – meses após o restabelecimento das relações diplomáticas entre os dois países, no qual o papa já havia desempenhado papel fundamental – evidencia mais uma vez a força de sua autoridade moral.

O Estado de S.Paulo

26 de setembro de 2015 | 10h14

Certamente, suas palavras não agradam a todos. Ao contrário, não é fácil de encontrar quem concorde com o papa em todos os pontos que ele vem abordando em seus discursos. Mas talvez aí – na sua incontida sinceridade – esteja a força de suas palavras. Seus discursos não buscam uma artificial sintonia com os valores vigentes no momento. Francisco simplesmente fala aquilo que pensa – e pensa naquilo em que acredita.

Ao receber o papa na Casa Branca, o presidente Barack Obama reconheceu explicitamente a autoridade moral do pontífice e suas virtudes de humildade, simplicidade, gentileza e generosidade. “Em suas gentis, mas firmes recordações de nossas obrigações com Deus e uns com os outros, o senhor está nos chacoalhando em nossa complacência”, afirmou Obama. De fato, o papa agita consciências por onde passa.

Em Cuba, Francisco deu um claro recado ao regime castrista. “Serviço nunca é ideológico. Não servimos a ideias, servimos a pessoas”, afirmou durante uma celebração em Havana. Também expôs que tipo de mundo sonha deixar para as próximas gerações. “Discute-se muito hoje sobre o futuro, sobre o tipo de mundo que queremos deixar aos nossos filhos, que sociedade queremos para eles. Creio que uma das respostas possíveis (...) é: deixemos um mundo com famílias.”

No Congresso dos EUA, onde pela primeira vez na história um papa fez um discurso, Francisco criticou a pena de morte e as leis permissivas ao aborto. Comentou a responsabilidade de “proteger e defender a vida humana em todas as fases do seu desenvolvimento. Esta convicção levou-me, desde o início do meu ministério, a sustentar em vários níveis a abolição global da pena de morte”. Francisco também criticou a venda de armas, outro tema que divide a opinião pública americana.

Na Assembleia-Geral das Nações Unidas, em Nova York, o pontífice falou da necessidade de os organismos financeiros internacionais zelarem pelo desenvolvimento sustentável, bem como da importância de uma contínua melhoria no funcionamento da própria ONU, para “conceder a todos os países, sem exceção, uma participação e uma incidência nas decisões”.

O papa conclamou os líderes mundiais a adotarem medidas efetivas contra a degradação ambiental. Em Washington, ao referir-se às mudanças climáticas, já havia dito: “Parece evidente que é um problema que não pode ser deixado para a próxima geração”. Mostrava assim, mais uma vez, que não faz concessões, dizendo o que sua audiência quer ouvir. Assim, não teve medo de desagradar a grande parte dos seus ouvintes americanos que nem sequer reconhecem a existência de qualquer problema nesse campo.

O papa parece consciente da sua tarefa. “É meu dever construir pontes e ajudar, por todos os modos possíveis, cada homem e cada mulher a fazerem o mesmo.” No entanto, pela abertura com que fala de temas polêmicos, o papa deixa claro que não vê a construção dessas pontes como fruto da indiferença ou do relativismo. A sua promoção da paz vai por outros caminhos.

Aos deputados e senadores americanos, o papa propôs uma nova visão da política, mais voltada para o serviço que para o poder. “Um bom líder político sempre opta por iniciar processos mais do que por ocupar espaços.” É o que parece fazer o próprio pontífice, com resultados muito concretos e muito bons.

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