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A Barbie ucraniana

Valeria Lukyanova não fala de política, teve barraco com o Ken e sua meta é viver de luz

Paulo Nogueira,

08 Março 2014 | 15h37

A carreira de Valeria Lukyanova segue numa direção oposta à de Pinóquio. Enquanto o desafio do boneco de Gepeto era se tornar um menino de verdade, o sonho de consumo dessa ucraniana de 23 anos é virar uma Barbie humana.

A avaliar pelo aspecto, ela já tem meio caminho andado. Com 1,63 m, pesa 46 kg e pavoneia uma cintura de 50 cm. A cada segundo, Valeria fica mais parecida com a boneca da Mattel. Ela jura que não fez tantas plásticas quanto Frankenstein - foi só um mísero implante de silicone nos seios. O segredo são umas toneladazinhas de maquiagem diária, lentes de contato turquesa e malhação a granel.

Mas Valeria não quer se confundida com uma loira fútil e burra. Ok, ela concorda com Oscar Wilde, para quem "somente as pessoas superficiais não julgam pelas aparências". Contudo, se Valeria é a cara da Barbie, não brinca em serviço: a primazia dela é a beleza interior. "A personalidade é mais importante que estrear um casaco de peles ou comprar um carro", pontifica.

Certo, ela assume que gasta parte da rotina se embonecando (literalmente). Mas nada de exageros: são só 90 minutos por dia para ficar com aquele cabelo cor de champanhe, a pele de cetim e a boca de botãozinho de rosa. "Não acredito em planificação, pois sou uma criativa e deixo rolar. Não escolhi a imagem de Barbie. Claro que me agrada quando apontam as semelhanças." E ainda dizem que não há coincidências.

Quando Valeria despontou no cenário mundial, teve gente que duvidou até de sua existência tridimensional. Isso apesar do milhão de seguidores que angariou no Facebook e das legiões de visitantes de seus vídeos no YouTube. Daí surgiu o convite para um pulinho a Nova York, para tirar a prova dos nove em programas de TV.

Valeria foi de mala e cuia, nem desconfiando o que os anfitriões haviam descolado para ela: nem mais nem menos que sua alma gêmea, um Ken de carne e osso. Ou seja, o americano Justin Jedlica, que aos 32 anos já torrou US$ 250 mil (cerca de R$ 580 mil) para se transfigurar em avatar humano do boneco topetudo de malares salientes.

Pena que o encontro tenha terminado em barraco. Justin resmungou que Valeria era "uma fraude", pois se limitava a se vestir e a se maquiar como a Barbie, e mais parecia uma drag queen. Ao passo que ele já fez quase cem cirurgias plásticas e tem botox e silicone espalhados por cada poro do corpo. E acrescentou: "Vou continuar aperfeiçoando meu visual. Não fico por aqui. Seria como pedir a Picasso para parar de pintar".

Valeria respondeu com luva de pelica: "Nunca escondi que só fiz uma plástica. Justin é bonito, mas acho que no enchimento dos lábios ele surtou um pouquinho".

Parece incrível, o visual não é a coisa mais estrambólica na ucraniana. Além de modelo, é professora de meditação e viagens. Mas não das viagens manjadas que as agências de turismo apregoam, e sim de jornadas transcendentais no tempo e no espaço. "Já visitei outros planetas e universos, e o passado e o futuro." E aí começa a cair a ficha: obviamente, Valeria é uma alienígena - embora não necessariamente lunática.

Com ela, as coisas vão ficando sempre cada vez mais estarrecedoras. Como se não bastasse se intitular um ET clone da Barbie, recentemente deu outra pirueta extravagante - e, dessa vez, perigosa. Muito perigosa.

Essa semana, anunciou sua adesão ao respiracionismo, culto que preconiza a sobrevivência humana sem alimentos nem água, apenas através de ar e luz. O ascetismo vai a ponto de os fiéis usarem uma máscara na boca para evitar a ingestão involuntária de germes (não para protegerem a eles, mas os germes). O líder do respiracionismo é o guru Prahlad Jani. Aos 82 anos, garante que passou os últimos 74 sem comer nem beber. Outra ideóloga respiracionista, a australiana Ellen Greve, vai mais longe: até engolir saliva é um pecado abominável. Glup!

Com sua cintura de vespa, cabeleira platinada e olhar vítreo, a Barbie humana sugere mais do que o enésimo sucedâneo do narcisismo contemporâneo. Transparece nela uma síntese icônica do mal-estar das sociedades pós-comunistas, que saíram do totalitarismo para caírem numa espécie de limbo social, morbidamente fascinadas com a cultura pop americana.

Valeria mora em Odessa, Ucrânia, que já foi o mais importante porto comercial da União Soviética e uma relevante base naval. Foi lá que Pushkin, o poeta nacional russo, viveu exilado. E também lá foi rodada uma das cenas mais marcantes da história do cinema, no Encouraçado Potemkin, de Sergei Eisenstein. É a lendária sequência das escadarias, onde marinheiros revoltosos e civis inocentes são massacrados pela guarda do czar. Neste momento, o simbolismo não podia ser mais sensível.

Mas não adianta o Estado cutucar a crise Ucrânia/Rússia: Valeria não fala de política (Caetano Veloso tem muito que aprender com a Barbie humana). Prefere anunciar as novas metas da carreira. Escrever um livro? Plantar uma árvore? Ter um filho? Frio, frio. Até porque já escreveu um livro, sobre seus rolezinhos fora do corpo. A prioridade dela agora é a música, como cantora de um treco que define como "ópera new age". Já tem "mais de cem" canções compostas.

Assim, Valeria pretende demonstrar que, apesar da aparência de boneca loira e da dieta radical de faquir, não é uma bobinha de miolo mole. Pastel de vento, sim. Cabeça de vento, jamais!

PAULO NOGUEIRA, ESCRITOR E JORNALISTA,É AUTOR DE O AMOR É UM LUGAR COMUM

(INTERMEIOS)

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