A bebê que deve chegar ao século 22

Sophie, de 6 meses, tem expectativa de vidade 84,9 anos, beneficiada pela estrutura local

Jamil Chade CORRESPONDENTE / GENEBRA, Impresso

19 Março 2017 | 05h00

GENEBRA - Sophie Morelli Maguire nasceu no dia 5 de setembro de 2016 em Genebra, filha de um pai suíço e uma mãe brasileira. Sentada ao colo da bisavó paterna, de 94 anos, ela ainda não sabe, mas é uma das pessoas que terá grandes chances de estar entre as que conhecerão o século 22. Com uma das maiores expectativas de vida do mundo, as mulheres suíças que nasceram entre 2016 e 2017 são as que, pela primeira vez, têm uma perspectiva real de ainda estarem vivas quando o século 21 acabar.

Envelhecer na Suíça é considerado pelos especialistas como um privilégio. Hoje, mais de 1,5 mil pessoas no país tem acima de cem anos, número que deve aumentar de forma exponencial nas próximas décadas. A bisavó de Sophie, Fernanda Sorg, é um exemplo claro dessa realidade. Aos 94 anos, ela vive sozinha em um apartamento em Genebra e não esconde seu orgulho em relação à independência. “Meu segredo para viver tantos anos é nunca exagerar, em nada”, disse.

Com a bisneta no colo, ela compartilha sua própria história, repleta de aventuras em uma Europa em guerra. “Meu pai era suíço. Mas ele migrou para a Itália, onde eu nasci”, contou. “Ele tinha duas lojas. Mas quando os fascistas chegaram, decidiu levar a família toda de volta para a Suíça, em 1930. Eu tinha apenas 7 anos”, disse. A viagem a um país neutro salvou a família.

Com as mãos imitando marionetes, ela brinca com a bisneta de olhos azuis e repete, espantada, a ideia de que sua herdeira poderá conhecer o século 22. Sophie é uma dessas crianças que, de fato, nasceu em um lugar privilegiado. Se permanecer na Suíça, conviverá com uma das taxas de violência absolutas mais baixas do mundo. Em 2014, foram apenas 41 homicídios, ante 59,6 mil no Brasil.

O país alpino também tem uma das rendas mais elevadas do planeta, a escolaridade está garantida pelo serviço público e observa-se uma das menores taxas de desemprego do mundo – de 3%. Em 2015, apenas 340 crianças morreram no primeiro ano de vida, uma para cada mil nascimentos. A taxa é muito inferior às 32 mortes para cada mil no mundo.

Mas é o avanço na ciência e a capacidade de o Estado bancar o envelhecimento de sua sociedade que têm sido os principais motivos dessa transformação. No ano de 1900, a expectativa de vida de um suíço era de 46 anos. Em 2000, passou a 80 anos e, hoje, está em 80,7 para os homens e 84,9 para as mulheres. Apenas os japoneses têm uma taxa superior.

Hoje, 17% da população suíça – cerca de 1,4 milhão de pessoas – tem acima de 65 anos de idade. De acordo com a entidade Pro Senectute, até 2060 mais de 1 milhão de suíços terão mais de 80 anos, ante 400 mil hoje.

Na avaliação de especialistas, o que diferencia o país alpino do restante é a atenção que passou a ser dada à terceira idade. A Suíça foi eleita o melhor país para se envelhecer, de acordo com o relatório Global Age Watch 2015, um índex desenvolvido com dados disponibilizados por organizações como o Banco Mundial e as Nações Unidas.

Por cidade. Os serviços de diferentes cidades suíças também têm sido adaptados a essa nova população. Em Lugano e Ulter, por exemplo, as prefeituras planejam redesenhar um espaço urbano voltado a uma sociedade que envelhece. Já Zurique faz parte de um programa que incentiva o acolhimento de estudantes em casas de idosos que possuem quartos vazios, permitindo uma troca de alojamento por alguns serviços e ajuda. Em Genebra, festas e atividades como idas a museus e cinemas são organizadas. Um espaço chamado “cité senior” recebe toda primeira terça-feira de cada mês uma enfermeira que permanece à disposição para controlar a pressão e níveis glicêmicos, além de tirar possíveis dúvidas.

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