A casa do Brasil na Antártida

Ao longo de 28 anos, a Comandante Ferraz se tornou uma das maiores operações logísticas do País

Jefferson Cardia, diretor do Centro Polar e Climático da UFRGS,

03 Março 2012 | 16h00

É comovido pela morte de dois de nossos colegas antárticos que escrevo sobre o papel da Estação Antártica Comandante Ferraz (EACF) no Programa Antártico Brasileiro (Proantar), e mais amplamente sobre a política do País para aquela região que compreende quase 10% da superfície do planeta.

No verão de 1984, o Proantar instalou na baía do Almirantado, na Ilha Rei George, a 120 km do continente antártico, os primeiros oito contêineres que seriam o embrião da EACF. Tínhamos pouquíssima experiência no ambiente polar e a humilde estação era constituída por alguns motores, dormitórios, cozinha, refeitório, rádios e equipamento para derreter neve. Aos poucos, ao longo de 28 anos, Ferraz adquiriu mais módulos, tornando-se uma estação científica administrada pela Marinha por uma das maiores operações logísticas nacionais fora do País.

 

Até a semana passada, ela podia abrigar 58 pessoas no auge do verão, que constituem o grupo base de Ferraz. O bloco principal da estrutura (aquele destruído pelo incêndio) tinha camarotes, cozinha, sala de ginástica, biblioteca, oficinas, garagens e, mais importante para sua funcionalidade, vários laboratórios bem estruturados para estudos biológicos. Paióis guardavam alimentos e bebidas para no mínimo um ano. Ao redor daquele bloco foram instalados um complexo de laboratórios para investigações da atmosfera (meteorologia, evolução da camada de ozônio antártica) e do clima espacial (interações da alta atmosfera com a radiação solar), vários módulos de apoio logístico, um heliporto e tanques de combustíveis, com o suficiente para um ano de consumo. São esses módulos e laboratórios, alguns a mais de 1 km da incendiada Ferraz, que constituem os 30% que sobreviveram ao incêndio. Entre as reformas realizadas ao longo dos anos, adotaram-se medidas que reduziram ao máximo o impacto da presença do homem no local - uma delas, a adoção de tanques de óleo com camadas duplas, reduzindo a possibilidade de vazamentos. A estação atendia os requisitos do protocolo de preservação ambiental da Antártida e o Ministério do Meio Ambiente já preparava proposta para que Ferraz adquirisse o ISO 14.001.

A Ferraz ainda tem importante papel na política internacional ao mostrar o forte interesse do Brasil em decidir o futuro de 10% da superfície do planeta. Nosso país é um dos mais afetados pelas interações atmosféricas e oceânicas com a região antártica. Ferraz também tem um valor simbólico importantíssimo: é a casa do Brasil na Antártida, nosso porto de entrada no continente branco.

Na construção da nova Ferraz devemos considerar o que temos de melhor no mercado internacional de design e construção de estações científicas polares, envolvendo a maior automatização possível de equipamentos e garantindo um planejamento integrado e orgânico baseado, antes de tudo, no uso para a pesquisa científica.

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