Robson Fernandjes/Estadão
Robson Fernandjes/Estadão

A cascata do conde

Chiquinho Scarpa tirou os óculos escuros e tentou forçar uma lágrima pelo Bentley de R$ 1,5 milhão

Gilberto Amendola, de O Estado de S. Paulo,

21 de setembro de 2013 | 14h52

Não, o conde Chiquinho Scarpa não enterrou seu Bentley Continental Flying Spur no quintal da mansão onde mora, no Jardim América, bairro nobre de São Paulo. Mas ninguém há de negar que alguma coisa foi, sim, sepultada naquela cova mambembe.

 

- Chiquinho, você acha que os jornalistas estariam aqui se soubessem que tudo isso é uma campanha para doação de órgãos? - perguntou um repórter.

 

- Claro que não - respondeu o conde.

 

Segundo a assessoria do playboy, mais de 20 veículos de imprensa (jornais, sites, revistas e TVs) confirmaram presença naquela que seria a cerimônia fúnebre do carrão. Injusto dizer que todos ali haviam sido trollados pela ação de marketing pró-doação.

 

Artistas do elenco da Band, como Marcelo Tas e Danilo Gentili, estavam envolvidos na campanha, e a Rede Record investiu em uma longa cobertura, obviamente, já sabendo do que se tratava. Outros colegas, com faro apurado para cascata, diziam desconfiar de algo, mas, "sabe como é", "a coisa toda" estava dando "cliques", audiência e "aquela notinha com o conde pilotando uma escavadeira havia entrado entre as mais lidas do site".

 

Claro que havia a turma dos inocentes (eu incluso), que acreditaram sem o menor pudor que um personagem como Chiquinho poderia perfeitamente enterrar um automóvel avaliado em mais de R$ 1,5 milhão em nome de sua sobrevivência midiática. Vai dizer que o Chiquinho, o pequeno bon vivant que jura ter tido affaires d’amour com Ursula Andress, Catherine Deneuve, Caroline de Mônaco e outras, não seria capaz de enterrar um tesouro no jardim?

 

A agência de publicidade que criou a ação, Leo Burnett Tailor Made, correu seus riscos. Desde o último dia 16, quando Chiquinho anunciou que iria repetir os faraós e enterrar seu bem mais precioso, usuários de Facebook e Twitter fizeram do conde uma Geni pós-moderna. "Idiota", "falido" e "babaca" foram termos mais simpáticos dispensados ao conde fanfarrão.

 

"A gente esperava essa reação, mas a pista falsa se justificava. Na hora que as pessoas descobrissem do que se tratava o enterro, a coisa toda viraria", explicou Marcelo Reis, sócio e vice-presidente de criação da Leo Burnett. Eis o xeque-mate. Ludibriados, jornalistas poderiam sair de lá cuspindo fogo. Mas quem, no fim das contas, se colocaria contra uma campanha pela doação de órgãos?

 

Acertou o publicitário que apostou na bipolaridade das redes sociais. Depois de revelado o embuste, Chiquinho virou herói nacional no Face e no Twitter. Agora ele é o "gênio", o "mestre", o cara que sambou na cara da mídia.

 

O presidente da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO), José Osmar Medina Pestana, parecia um pouco constrangido, mas se segurou no argumento: "Cada setor da sociedade pode e deve dar sua contribuição pela doação de órgãos". No caso, uma contribuição bem à moda Scarpa.

 

Vale a pena descrever a "cerimônia". O conde deixou seus aposentos pontualmente às 11h. Como manda a etiqueta fúnebre, ele vestia um terno preto, óculos escuros e trazia o semblante carregado. Amparado por assessores e cercado por fotógrafos, postou-se ao lado da cova.

 

Fez-se um breve silêncio, só quebrado pelo grito de um popular que, do lado de fora da mansão, sugeriu: "Se enterra junto". Risinhos. Chiquinho, impassível, tirou os óculos escuros e tentou forçar uma lágrima. Ela não veio, mas ainda assim o conde "enxugou" o rosto com um lenço branco. Logo, o motorista do patrão entrou no Bentley e ligou o carro. Era evidente o temor de Chiquinho e de sua trupe de que algo desse errado - e o carrão escorregasse sem controle para dentro da cova.

 

Lentamente, o Bentley foi depositado no túmulo - obviamente que se fosse para enterrar o veículo de fato a tal cova precisaria de mais alguns metros de profundidade. Ato contínuo, um senhor paramentado como coveiro ameaçou jogar a primeira pá de terra sobre o patrimônio.

 

Foi nessa hora que o conde mostrou sua veia artística e, com expressão de quem fez o curso de teatro de Wolf Maia, bradou: "Não! Não! Para!". E gentilmente convidou os presentes para um coquetel de boas-vindas dentro da mansão, durante o qual anunciou a campanha humanitária. "Eu não sou louco, não vou enterrar meu carro. Fui criticado por isso, mas tem gente enterrando coisas muito mais valiosas, como um coração, um fígado, um pulmão e outros órgãos", exclamou, em tom professoral. Pronto. A campanha da Semana Nacional de Doação de Órgãos (23/9-29/9) estava na rua.

 

E, por uma boa causa, nossa moral jornalística jaz enterrada no quintal do conde. Juro que ainda tentei tirar alguma metafísica daquilo tudo e perguntei a Chiquinho se ele tinha medo da morte. Não me respondeu, disse apenas que também era um doador. Depois, voltei ao carro. "Vou tirar ele da cova daqui a pouco", explicou Chiquinho. "Espero que esteja tudo bem com ele. Ainda quero dar uma voltinha hoje."

 

Se alguma coisa nessa ação de marketing havia incomodado o nobre? "Não, mas fiquei um pouco chocado com as reações no Facebook. Houve quem me mandasse enfiar o Bentley no cu. Haja cu, né?"

É. Haja.

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