A chance de ver Heath Ledger em seu último arroubo

O carisma interrompido do ator pode ser conferido no filme de Terry Gilliam

Flávia Guerra, LONDRES, O Estadao de S.Paulo

31 Outubro 2009 | 00h00

Da concepção ao figurino, do elenco aos efeitos especiais, tudo é de digno de fábula em O Mundo Imaginário de Dr. Parnassus. Se Terry Gilliam deu asas à imaginação para criar a história do homem que tem o dom de inspirar a imaginação das pessoas que assistem a seu espetáculo mambembe, a realidade deu a Gilliam a tarefa de usar a imaginação para acabar o filme que começou e parou literalmente no meio. Motivo: o astro Heath Ledger, durante as filmagens, morreu de uma overdose acidental de comprimidos para dormir. Meses depois do baque que ameaçou a finalização do projeto, Gilliam reuniu um elenco que dá de fato asas à imaginação. Para viver o papel que pertencia a Ledger, escalou um trio de ases: Johnny Depp, Jude Law e Colin Farrel.

O que poderia ter virado um "filme frankenstein" acabou se tornando uma criativa colcha de retalhos que torna o imaginário título em algo mais surreal ainda. "Este filme não seria o mesmo se esta tragédia horrível não tivesse acontecido. Mas, ao mesmo tempo, foi o maior desafio da minha carreira. Conseguir encaixar os três atores em cenas que fizessem sentido no filme e não brigasse com o conceito original foi um trabalho que, apesar de triste - afinal, tínhamos acabado de perder Ledger - foi muito interessante. Este é um filme abençoado", comentou o diretor, e eterno Monty Phyton, em conversa com o Estado em Londres há poucas semanas, quando o filme estreou nas salas inglesas.

Para viver o papel da adolescente Valentina, Gilliam escalou a estreante Lily Cole. Face de grifes como Moschino e uma das mais requisitadas tops models inglesas, Lily se viu diante de um desafio e tanto ao viver a filha de Parnassus (um ótimo Christopher Plummer). Prometida pelo próprio pai ao diabo em troca da imortalidade, Valentina está prestes a completar 16 anos e ser "entregue" a seu dono. O diabo, aliás, foi escolhido a dedo pelo diretor. Tom Waits prova que é muito mais que um músico genial na pele de Mr. Nick. Waits dá o sarcasmo e o charme necessário à personificação do mal. Afinal, o diabo não é tão feio quanto pintam, mas é astuto como um bom jogador. E, como manda a tradição, quem joga com o mal e o tempo sempre perde.

Quando Mr. Nick volta para cobrar seu prêmio, Parnassus se vê diante de um impasse. Entregar a filha, contar a verdade, fugir? Não lhe restam muitas opções, mas, como em todo bom conto de fadas, um elemento estranho, e fascinante, entra na história para salvá-lo. Ou não. Tony (Ledger) seria este salvador. Mas saiu prematuramente da história. Justiça seja feita:o trio de Law, Depp e Farrel nem de longe alcança o carisma que Ledger empresta ao personagem. Ainda assim, a saída criativa para os galãs que entram e saem a todo momento do espelho mágico de Parnassus, vale o show.

Serviço

O Mundo Imaginário de Dr. Parnassus (França-Canadá-Reino Unido, 125 min.)

HSBC Belas Artes 2 - Hoje (sábado), às 23h30

Cinemark Cidade Jardim - Domingo, às 19h

Unibanco Arteplex 1 - Dia 3/11, às 21h30

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.