A comida me mordeu. Mordi de volta

 

Carla Miranda,

02 de dezembro de 2010 | 09h54

 

Foi a primeira vez que a comida beliscou (ou seria arranhou?) minha língua. Sim, sem dúvida haveria formas mais refinadas e gastronômicas de descrever a experiência de uma degustação no Noma. Mas elas dificilmente estariam tão próximas de resumir aquela tarde, 15 dias atrás, numa Copenhague congelada antes mesmo de o inverno oficialmente começar.

Àquela altura o garçom com visual meio Austin Powers ? cabelo louro em forma de cuia, óculos de grau vintage ? já tinha me apresentado um delicado couro feito com berries e pétalas de rosa, além de saborosíssimos biscoitos de gordura de porco e groselha servidos numa antiga lata quadrada, bonita a ponto de dar vontade de levar para casa.

E ainda uma flor delicada obtida após fritar algo que normalmente se joga fora, as raízes do alho-poró. Como os amuse-bouches anteriores, esse também veio com manual de instrução, um modo de comer. Perdido em algum ponto entre as décadas de 60 e 70, o garçom explicou: "É para morder a flor e dois dedos do talo do alho-poró, para sentir a diferença de texturas". Incrível, realmente. A fina raiz se partia com um estalo onomatopaico, enquanto o talo havia sido amaciado no vapor e recheado com creme de alho.

O esforço para não perder os detalhes, a cada apresentação, havia começado a fazer parte do almoço, uma tentativa de dissecar, de racionalizar o melhor do mundo. Eis que meu garçom voltou, anunciando o próximo espetáculo, camarão no fiorde. Ou pelo menos foi isso que ouvi. "Mais um daqueles nomes inventivos", pensei, ao ver o pote de vidro fechado, aparentemente cheio apenas de gelo.

Ele abre a tampa e continua a explicar de forma estarrecedoramente trivial: "Você pega o camarão, passa no molho de manteiga dourada e come".

Acontece que o bicho estava vivo. E põe animado nisso. Camarão dos fiordes vivo, era esse o nome do prato. Nada de invenção, tudo era muito literal. Eu é que havia sido traída pela ansiedade.

A primeira vontade foi devolver sem mais delongas o crustáceo bigodudo, de olhos saltados e perninhas infinitas dando pulos no gelo. "Não vai dar, não vai dar", berrava o lado esquerdo do cérebro. Mas insistir era uma questão de temperamento e lógica. Conseguir uma mesa no Noma requer antecedência e um tanto de sorte ? afinal, não é sempre que você está na Dinamarca.

Decidi tentar descobrir se aquilo era mesmo um prato ou algum tipo de pegadinha de René Redzepi. Peguei o bicho pelo rabo. Ele pulou, eu soltei, eu pulei. Tenho certeza de que ele tinha mais razões para temer: era a comida. Tentei outra vez. O camarão escorregou, deu nervoso. Recebi um olhar de solidariedade do garçom. "É, ele parece mais lively que o normal", falou.

Hora de bolar alguma tática. A ideia que veio era pegar bichinho rapidamente e sufocá-lo no molho de manteiga, para ver se ele morria. Um, dois, três, já. O camarão ficou atolado no molho. Puxei o rabo. Havia chegado o momento. Só que ele voltou a pular, agora na mesa, fazendo uma melecação sem precedentes. Tsk, tsk, o Austin Powers balançou a cabeça. "Você vai sujar tudo a cada prato que eu trouxer?", perguntou, numa brincalhona recriminação.

Essa foi a deixa para encerrar de vez o samba do camarão. Dessa vez segurei de verdade e coloquei na boca. Bastaram alguns instantes de hesitação antes da mordida final para que o danado começasse a beliscar a minha língua. Ou arranhar, sei lá. Retribui com meus caninos.

Não consegui descobrir se o delicioso tempero estava no próprio camarão, no molho de manteiga ou no fato de não haver nada mais fresco. Era um prato, sem dúvida. Com boas chances de ser também uma pegadinha de Redzepi. "Para nós esta é sempre a parte mais engraçada da refeição", disse o garçom.

 

Veja também:

linkO terroir em forma de batatinhas

linkJá fizeram graça e até negaram o primeiro do mundo

linkOvo à Noma? Você é quem frita ?

Leia mais:

linkE os vencedores são... (5ª você saberá)

linkReceitas de aniversário que buscam inspiração 'belga', com algo a mais

linkA ancestral nova cozinha do Chile

linkSabores arrancados do solo e da pedra

linkPara sentir a terra e comer o território com as mãos

linkEñe faz jantares com cardápio premiado do Dos Cielos

linkWilma Kövesi abre turmas

blog Leia o blog do Paladar

Tudo o que sabemos sobre:
restaurantecopenhaguenoma

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.