A confusão dos tempos interessantes

Juan Gabriel Tokatlian, professor da Universidad Torcuato Di Tella (Argentina), na última semana chegou próximo da perfeição para definir o estado atual da integração e da política na América do Sul nos últimos tempos: o Confusur. Brilhante! Tokatlian foi além do grafismo produzido pelos humoristas do El Chigüire Bipolar com o episódio de lançamento de La Isla Presidencial, que mostra um Lula e um Chávez brigando pelo timão de um cruzeiro desgovernado chamado 'América do Sul'. Ambos são muito bem-vindos num momento em que a política sul-americana fervilha de problemas, e possíveis soluções me parecem conectadas.

Fabrício H. Chagas Bastos*, O Estado de S. Paulo

23 de outubro de 2015 | 22h00

Os desafios são historicamente orientados: i) aproximar um Estado controlador de uma sociedade quase-tutelada; ii) transformar um subcapitalismo em capitalismo real, produtivo e capaz de promover distribuição de riqueza; e, realizar modernizações sociais e econômicas não-superficiais.

Durante o boom de commodities (2003-2008), uma janela de oportunidade sem precedentes se abriu, combinando concertação política, afinidade ideológica, uma diplomacia baseada na cordialidade (na qual desgaste de relações e violência não são os últimos recursos, mas sim longas e mais longas conversas), crescimento econômico sustentado (por conta das exportações de primários) e incorporação de milhões de excluídos sociais à sociedade de consumo. Entretanto, pouco foi feito no sentido de reformar economias e instituições para que os ganhos advindos das exportações de petróleo, soja, minérios e afins fossem sustentados e não oscilassem ao sabor do mercado - a tão proclamada 'nova classe média' no Brasil hoje é uma classe 'de renda flutuante', bastante longe do que se alardeou por anos.

Há algum tempo defendo que estacamos no exato ponto em que os interesses nacionais sobrepujam qualquer tipo de concertação ou coordenação regional e evitam um aprofundamento do contato com os vizinhos. Tokatlian me permite usar um bom exemplo: as negociações com a China. Cada um dos países do Mercosul negocia de maneira unilateral e diferenciada com o gigante asiático, sem que haja uma coordenação sobre como acomodar os interesses do bloco e de cada um dos seus membros. Esta segunda janela, muito mais estreita, se apresenta em uma conjuntura que não é nada ideal (baixo crescimento combinado às crises institucionais e políticas), mas permitiria medidas concretas para evitar o fenômeno de formação de coalizões que mencionei.

Os níveis de qualidade da democracia passam por duras provas por toda a região. Argentina está prestes a se desligar do kirchnerismo depois de quase duas décadas, com uma bomba-relógio armada em sua economia (uma desvalorização de quase 30% do peso é necessária segundo os mais otimistas). Venezuela acaba de sugerir (nada sutilmente) a mudança na liderança da missão de observação eleitoral da Unasul, sugerindo a troca do ex-ministro da Justiça Nelson Jobim pelo ex-ministro de Relações Exteriores Celso Amorim, ou mesmo o ex-chanceler argentino Jorge Taiana (mais próximo dos interesses de Caracas). Brasil atravessa sua pior crise política (sublinho, política), com o comando presidencial extremamente fragilizado, um partido de governo sem uma narrativa, uma oposição sem discurso e propostas políticas, instituições que tentam se sobrepor umas às outras e um clima generalizado de melancolia e desânimo após anos de euforia e autoestima elevada.

Se Caracas falhar em provar que sua democracia funciona, pelos acordos aos quais está submetida, deverá ser punida, tal qual o Paraguai no golpeachment de Fernando Lugo em 2012. Caso a Argentina atinja níveis econômicos piores, o Mercosul atingirá seu pior ponto em anos (de discussões políticas e trocas comerciais). É curioso pensar que a excepcionalidade brasileira ainda não fez como que olhássemos para o papel da crise no País às economias dos vizinhos.

Os laços psicológicos que unem os sul-americanos são menos traumáticos dos que aqueles que impeliram os europeus a se unirem; o que nos faltava era uma situação suficientemente grave (mas não tão grave assim) para que deixássemos de reclamar, nos ignorar e passássemos a enxergar cada parte da política sul-americana como integrada.

O cenário é ruim, as opções são boas. Não há mágica, mas falta liderança. Quase sempre uma crise se transforma em uma janela de oportunidade. Mas a América do Sul não pode transformar mais uma janela de oportunidade em crise. É hora de olhar para o confusur com cuidado.

* Fabrício H. Chagas Bastos, Endeavour Research Fellow do Australian National Centre for Latin American Studies da Australian National University. Doutor pela Universidade de São Paulo. E-mail: fabricio.chagasbastos@anu.edu.au


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